Certa vez disse para alguém que eu e Totô temos uma amizade romântica. Eu completei: não no sentido amoroso; eu e Totô pintávamos juntos aos 15 anos, acreditávamos estar no caminho de qualquer direção artística certa, trocávamos email sobre o que líamos e líamos muito, não tínhamos celular, a gente não tinha rede social nenhuma, nossa estética era romanticamente tanto moral quanto ética, e começamos a escrever também poesia juntos, de tal forma que até hoje somos como que um dos únicos leitores um do outro. Além disso, havia – e quanto a isto ainda há – qualquer coisa de um gênio romântico: nossas brigas intempestivas, nossas crenças resolutas que já nos fizeram romper e reatar umas três vezes, acredito. Totô não passa cinco minutos sem que se irrite profundamente com algo que digo, e eu, que sou mais paciente, até que consigo se não passar de sete.

Portanto sim um tanto de sentido amoroso. Aliás quando tínhamos 16 anos houve até uma noite em que ele quis me beijar um pouco.

Hoje ele tem uma namorada taiwanesa gata. Ontem lhe mandei mensagem dizendo que gostaria que eles fossem os padrinhos do meu primeiro filho. Espero contrapartida: eu sempre disse que adoraria ter filhos de olhos puxadinhos.

. . .

POEMAS SÃO COMO LISTAS


De versos

os poemas são antologias


Tenho aprendido a aceitar

a poesia confessional mas

também o ódio à poesia confessional

Sob o signo de Confúcio

tenho me tornado mais brando


Há diversas coisas

que se produzem como poemas

Há muito preto no branco

de uma página que não é poema

e não há problema

Assim como nem tudo é preto no branco

Assim como é difícil de reconhecer como verso uma linha que se extenda

tanto


Diversas coisas

recortadas

pelo branco da página

nos comunicam

São como yinyang

são como listas

Hoje antes da análise

na antessala sobre o caderno

eu escrevia:


Encerramento

briga com pai

vontade de falar de outras coisas

produção de diferenças

pessoas mais velhas

Provas

fim do semestre

tranquilidade

animação

Gabe

amigos o tempo todo

trocas

me ver como branco

me ver

. . .

ENCARTE DE "JOAO GILBERTO EN MEXICO" (1970)

 

Esse disco se deve a Mariano Rivera Conde. Vim passar dez dias no México e encontrei Mariano, que eu já conhecia muito, por procuração (via Antonio Prieto). Mariano me convidou para fazer um disco com ele, da maneira mais hospitaleira. Fui ficando, de repente estava morando mesmo. Fiquei mais de um ano, o México é uma maravilha. Ouvi galo cantando no meio do dia, da tarde, de madrugada, de noite – há quanto tempo eu não via isso. Gato, galhinha, carneiro, pato, papagaio, onze perus, cachorro, tem uns onze; é tudo de um senhor que mora aqui embaixo, no barranco. Ainda tem duas filhas, dois filhos e uma porção de netos. Um dia ele matou um porco e dividiu entre os vizinhos todos. Disse que é para se fazer assim.

Oscar Castro Neves chegou de Los Angeles, tirou os sapatos, alugou um piano, pendurou o som, ficou feito uma luz. Parecia a estrela dalva que daqui se mira.

Chico Batera desapareceu. Não tirou os sapatos e disse que não ia pendurar nada, não. Aí, fez os sons de percussão com José Luis Ferra "La Manja". No fim, eu dei um pedaço de bolo a ele. Ele ficou calado, comeu e começou a engordar. Depois, ficou magro de novo. Aí, ficou assim o dia todo.

Manuel, da cabine de seu avião, comandou a turma do som - Roberto, Bernardo, Rico - com toda boa vontade e amor.

Mariano, um grande amigo, das melhores pessoas que já vi.

Eu quero que esse disco dê um abraço no bonfá em todos os meus amigos.

Minha gratidão e um grande abraço ao Dr. Pedro Bloch.

. . .

QUANTO AO CINEMA

 

De tal forma o reconhecimento das grandes virtudes de algo responde a seus grandes vícios que, na verdade, o movimento é um só: do seu ponto forte se faz seu ponto cego, e o contrário. Fernando Pessoa o compreendeu melhor que ninguém. Porque Campos é tão metafísico, verborrágico: é tão infinito, mas tão limitado. Por ser Caeiro excessivamente didático que é pernóstico e humilde, é um idiota e um mestre. Na sua aristocracia, Soares encontrou aquilo que procurávamos tanto e que tanto precisamos condenar. Mas apesar da filologia pessoana, não considero sua obra incompleta e sim aberta. As posições trocam-se, sempre, estão sempre transformadas: é como se Caeiro, Campos, Soares, Reis, ao mesmo tempo, estivessem inacabados e continuamente a se referir, a se reescrever, a escrever Pessoa — de novo. Tanto nunca quanto para sempre.

Depois de comentar um autor tão grande me meterei a me comentar. Não sei se será ironia ou heresia. Me basta que essas palavras rimem.

Também pela implicação recíproca enxergo qualquer coisa como a minha poética. Poética – não no sentido da obra do livro do autor – no simples sentido próprio ao que faço, e como vejo as coisas. Meus vícios poéticos são virtuosos, minhas virtudes poéticas são viciadas. Longamente poderia aqui arrolar várias. Por exemplo essa minha maniazinha provocativazinha polemiquinha, que é chucra e eu não abro mão. Se da brincadeira vem contigência, vejo vindo também necessidade.

Ou que seja isso de eu não gostar de cinema, sem dúvidas. É uma virtude: ignoro a sétima arte, a mais moderna. Ignoro a sétima arte, a mais moderna: a frase por si dá conta de denunciar à sua vez meu tremendo vício.

. . .

ADEUS MAIO


Dizem a poesia salva

A minha condena

Não sei se porque

não é poesia

mas condena

Ou apenas porque

sou polêmico

condena

Mas sei não não é

apenas a minha

Nunca a poesia

salva todo poema

condena

Não acreditem

no que lêem na internet

crianças no que lêem

nos livros adultos

Isso de que a poesia salva

é o verdadeiro problema

. . .

QUANTO À LOUCURA

 

O pensamento ao se imitar nas coisas não é um degredo em relação a elas, mas a nossa forma de participar delas, de estabelecer uma relação possível com as coisas. O meu pensamento, por se imitar no mundo, não é um exílio do mundo, pois é, antes, um encontro com ele; é — antes ainda — o mundo. Não sou eu que me espelho nas coisas, é o mundo que, matéria da qual se forjou meu espelho, espelha-se em si. O meu pensamento está no mundo e nas coisas, é mundo e coisa entre as coisas — é do mundo e das coisas. Foram eles que me deram essa forma muito específica de imitá-los (isto, é de pensá-los) que, antes de ser restrita, é a única condição de liberdade: definida não mais como isolamento, e então como pertença.

. . .

NENHUM POEMA

 

Em maio: só um poema. Maio foi um mês de muita escrita acadêmica. O preço pago foi o silêncio da fala que irrompe sobre os poemas. Escrevo poesia porque gosto demais da sensação de falar. Mas, quando escrevi um poema sobre o melhor dia da minha vida, em novembro, eu preferi o silêncio. Porque ganhava algo fundamental: não quis descrevê-lo. E eis que hoje é um dia em que algo se perdeu. Porque perdi algo fundamental: não posso aqui retê-lo.

Tão somente então reapresento a seguir um trecho do poema em que não representei.


o dia que não coube no poema

o dia que o poema não conheceu


o dia deitado para fora da página

o dia feito em pé contra o verso do poema

mas mais falido do que fálico

sem a falácia de um poema


o dia: não

um dia: meu

. . .

PARA O TÉO


Não sei se a poesia é filosófica. Sei que a Filosofia é um discurso paranoico e que a paranoia é um estado de sítio contra toda e qualquer contaminação. Apenas sei de diversas harmonias bonitas possíveis sem juízo final, e sei também que o poema é o discurso contaminado por excelência. Absolutamente, tanto quanto qualquer discurso contaminado será poético, no sentido não-grego e anti-etimológico da palavra poeta: onde se descobre na coisa o que não é da coisa. Definir o signo em termos de significante e significado é defini-lo, mais que a partir de sua identidade, a partir da sua alteridade. Por isso vou me lembrar do sensível e inteligível de Agostinho e chamar o signum simplesmente de um sinal que aponta para o outro. Os sinais em rotação seria um título menos aurático, mas de fato mais poético: de repente, me imaginaria em meio a uma rotatória na saída da Rodoviária de Belo Horizonte, quando os meus olhos batessem com a sua lombada na estante.

A Filosofia, que é tão paranoica, tem muito a aprender com a poesia. Eu, que sou tão hipocondríaco, sem dúvidas tenho muito a aprender com o desejo de contaminar-se da poesia. E a poesia — que pode até não ter o que aprender com a Filosofia ou comigo: ela quer mesmo assim. É o seu jeitinho de ser.

. . .

REDESCOBERTA DA LÍNGUA

 

Aquele bardo baiano havia já entendido o prazer orgânico da língua quando cantou "ele me deu um beijo na boca e me disse", e, dois anos depois, "gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões". Ou, em termos técnicos: tinha entendido a intersemioticidade das linguagens do beijo e da fala. Ou, em termos práticos: cala a boca e me beija.

. . .

MENINAS MALVADAS

 

Meninas mimadas,

meninas tatuadas,

meninas graduadas,

meninas não tão descoladas,

mas meninas convencidas

que são; meninas

finas desafinadas

que não suportam cantadas

de caras que não são como

essas meninas tão claras

e tipo super bem chatas

— essas meninas malvadas

que não fazem questão,


amor, hoje não.

. . .

DEMAIS A ARTE E A POLÍTICA


Brasil uma desordem

às ordens da Casa

uma despesa

na dispensa às custas

da Senzala

um princípio de lógica

que ordena

controla organiza

e mata


& o Samba


e a Argentina isso

& o Tango

o Uruguai Candombe

os Estados Unidos

isso & o Blues o Soul

o Jazz e mais tanto


Não importa se a arte salva. O que importa é que ela não basta. & porque a poesia não pode ser santa, com prosa didática

é que se termina

essa página

. . .

SE TU SOUBESSE COMO EU NÃO SOU CUIDADOSO

 

Não tomo cuidado com,

o que me faz

muitas vezes insensível

Mas eu tomo cuidado de

– não sou cuidadoso

mas eu cuido


Por isso às vezes escuto

você é muito sensível

Miguel

e arrepiando

ao dizer vocativo do meu nome

fico mudo

. . .

DE CIRCUNSTÂNCIA

 

Era uma vez

não tinha no mínimo 94 anos

nem tinha no máximo 94 anos

um curitibano nos mostrou

como admitir ambas as sentenças

e então voou para outros planos

. . .

 

O longo século XX

de Arrighi


O curto mês de abril

do Miguel


O amor ao verso

Um vídeo de um homem


pulando na piscina

em looping reverso 

. . .

EU

à Gilda/ a Rousseau                                          

Amo minha caligrafia.

Eu amo minha relação errada

com os livros de Antropologia:

como se fossem manuais de ética,

como se eu descobrisse

que os Chinook o fazem

e de repente também quisesse

casar com a minha tia,

como se simplesmente

por serem diferentes

os Yanomami soubessem mais

sobre a vida, como se

eu me cristianizasse para seguir

o exemplo santo de Maria.

. . .

OBSESSÕES

 

Sim

no Blues interessa

o que não é blues

no canto gregoriano

o que não é canto gregoriano

etc

Há entretanto exceções

obsessões

pudera

em Ella Fitzgerald

apenas o que é della

me interessa

. . .

NEM TUDO TEM TÍTULO

 

Nem um olhar

nem um beijo

vale mais que mil palavras

Nenhuma palavra

vale nada


Nem sempre dá

ou se quer sustentar

uma teoria da palavra

que o valha

. . .

 

A caligrafia da palavra

Amor


Para mim o fato do concretismo

ter construído sua teoria visual

em torno da letra impressa

deixar claro

que há mais de propaganda

que de poética


A língua —

para mim o corpo

Para o meu corpo

Para eu tatuar não o seu nome

mas a sua letra

na íris do meu olho


Por ser essa linha

uma extensão da sua mão

Para eu lhe estender a mão

. . .

QUANTO AO MEU ÚLTIMO POEMA

 

A religião material da concretude também é uma forma de transcendência. Ela também busca religar-se com etc; ao que parece, a ligação com uma puta duma propagas do Washington Olivetto, méo. Não faço questão de uma poesia com experimentação de linguagem. Não tenho o último modelo do IPhone 15. Nasci em São Paulo, mas sei de extensões continentais e insulares. Ouvi falar de outras intenções, também. Para mim me basta uma poesia significativa, me basta se tiver significância.

. . .

POESIA É TRÓIA VINGANÇA

 

Poesia pra mim é vingança

Lembrei de mim criança

lembrei da doceria Brigadeiro

onde eu sempre ia

comer tanto doce

Mas tanto comer doce

quanto ver as tartarugas

no laguinho


Eu ia mais pelas tartaruguinhas


Um dia

um tufão furibundo abateu-o etc

um menino partiu a tartaruguinha

o meu porquinho da índia etc

contra a pedra


Lembrando disso

eu não pude escolher eu

escrevi esse poema

Não em nome da tristeza que senti

eu me vingo

Eu me vingo pelo próprio conteúdo

da tristeza que senti

eu me vingo em nome da vida

da tartaruguinha

e contra Cláudio Daniel

quem? 

que disse que a poesia brasileira

é de uma mnemania

muito gracinha muito

banderiana etc


(Beyoncé é legal

O que estraga são os fãs

Idem ibidem pros irmãos

Augusto e Haroldo de Campos)


— desculpa

quem é Azealia Banks?

. . .

CONSTELAÇÕES

 

A noite quente mais ventada

mais azul (que a noite quente

ventada mais escura é a noite

da Bahia) e as cigarras

do sul da França


Associações por som

dentre as quais a rima dá o tom

Lá o canto delas

(com uma brisa tão pesada

quanto a da Bahia)

e outras cenas mais

de mim criança


O quadro de H. Matisse

que minha irmã tatuou no braço

lui qui a une chappelle

à Saint Paul de Vence

A dança

. . .

ANOTHER ONE ABOUT HER (OUTRO SOBRE ELLA)


Escrevi 100 vezes

no meu caderno

o nome de Ella Fitzgerald

à mão. A dama

inscreveu com a voz

sua voz no topo

da canção

. . .

A NOTE ABOUT ELLA


All I've been hearing

is blues. But I ain't sad.

Everytime I dream

about something

this thing comes through.

My blues ain't blue.

. . .

MANIFESTO

 

Buscar

não a palavra poética

mas

a palavra não poética


Muito mais desafiador

Uma palavra que não crie


embora enquanto for palavra

talvez não seja possível

. . .

MARIA ROSA

 

Artigos,

cantigas,

cartas

de horror,

canções de lista,

papéis, papers,

"Ainda é cedo"

"não vá embora",

"A oposição dialética",

todos esses sintagmas

manjados,

frases velhas,

fases duras da vida,

"Escuras flores puras",

"As rosas eram todas amarelas",

não importa o que seja,

a toda hora,

qualquer ideia,

em cada trecho que ando

tudo o que escuto e vejo

me lembra dela

. . .

DOIS SENTIDOS

 

Vamos pensar um pouco sobre sinestesia.

Todo sentido é sinestésico. A própria dobra do pensamento é essa: reunir em um único golpe sensações provenientes de sistemas distintos. Lembremos, são cinco: olfato, audição, paladar, visão e tato. Há sempre inflexões, sempre cedemos a cada vez mais para um dos lados do pentagono – do pentagrama? –, no entanto, lá estão sempre todos reunidos na formação do significado, aquilo que “faz sentido”.

O princípio que os reuniria é: serem todos passivos. Mas nos permitamos isolar dois deles e perguntar pelo seus órgãos: o paladar e o tato, a língua e a mão. Provisoriamente, apenas, aceitemos considerar o paladar passivo. A língua se engaja em outras duas atividades que seriam, então, propriamente ativas: o beijo e a fala. É com ela que o sentido do tato, por sua vez, encontra seu órgão da mão – dotado também de especial pendor comunicativo – sempre em particular cooperação. Não se come nem se cozinha sem usar as mãos, não se fala, não se lê, não se escreve sem as mãos; e, por favor, não venha me beijar sem pegar no meu pescoço.

Antes de Aristóteles ter estabelecido as bases para a nossa teoria com cinco, um filósofo atomista defendia a proeminência do tato como único verdadeiro sentido. Para Demócrito, todo o resto é também decorrência de um toque físico.

Isso é bonito. Mas não esqueçamos que a mão que toca e a língua que masca procuram seu objeto – como o fazem os olhos, o nariz, os ouvidos –, mas também dão novos objetos à luz, dividem-nos com o grupo. A mão e a língua criam para fora da ficção do indivíduo. Independentemente da revisão fenomenológica e a autoria criativa que se queira imputar aos olhos e aos ouvidos, sem a mobilização de outros órgãos, esses não poderiam se engajar em atividades comunicativas. Sim, que os olhos sejam tão dotados de ação quanto quiserem, a linguagem não existirá jamais se essa criação não for partilhada de uma pessoa a outras – por meio das mãos, por meio das bocas.

Criança, meu primeiro vício foi chupar o dedo. Não nos esqueçamos da solidariedade poética entre a língua e a mão. Pelo menos por enquanto, não¹.

. . .

¹ Em uma discussão, um idiota mandou duas mensagens a um menino que pretendia cabular aula: "você está sendo um idiota" e "no sentido grego da polis". Gostaria de acrescentar — a "solidariedade poética" — "no sentido grego da poiesis". Mas gostaria que não me considerassem por isso um idiota, no sentido brasileiro da idiotice.

NOTA SOBRE O TEXTO "A LINGUAGEM DA LÍNGUA"

 

David e Rodrigo me chamaram atenção sobre o papel prismático do paladar. A língua não só beija e fala, ela deglute. O que nos revela, em primeiro lugar, que: as palavras devem ter tanto gosto e textura como comidas e línguas alheias o têm. Em segundo lugar, parte importante do prazer em comer deve ser também uma atividade ativa. Não recebemos passivamente o sabor, mas o criamos, como as outras duas atividades, pelo trabalho da língua.

Se beijar e falar representam para nós distinções da cultura humana, não menos a língua se afasta da natureza quando nos alimenta, porque ela não o faz em nome da subsistência. Slam poetry, ceviche e french kiss são símbolos igualmente dispensáveis e necessários entre si.

. . .

NA LÍNGUA MORAL (A LÍNGUA DO CAPITAL)

para Elaine

Marilyn loved to buy

Tifannys, Cartiers and Gorhams.

Indeed I prefer her

who said

to prefer diamonds

but sat

in the first line of Mocambo

so as Ella could present

where she wasn't allowed to

at that time.

A lot of people say instead

they prefer people

than diamonds.

No,

but they don't do

what she silently did.

Yes,

I don't buy it.

. . .

OVO E GALINHA

 

O que veio antes:

o ovo ou a galinha?

A relação entre som e significado

é motivada pela poesia

ou pela motivação já existente

entre som e significado

é que se pode fazer poesia?


Venho frequentando bastante

as páginas do meu blog.

Acredito que sou

meu mais frequente leitor.

Acredito que o autor

que leio mais frequentemente

sou eu. Quem veio antes:

o ovo ou a galinha?


Estou tentando descobrir

um ritmo certo

para a medida de cada verso.

Se não fosse o som

a página seria um deserto.

"Nunca confundam causas e efeitos:

o problema do Brasil é a elite letrada

e não os analfabetos."

. . .

BRISA

 

Na casa de Fernanda Maria Rosana

não sobra fresta em janela

Seu neto me contou há algum tempo

que é porque morre-se de brisa

segundo um provérbio italiano

contado pela velha

Hoje enquanto cruzava a rua

me cruzou um vento frio

Súbito me lembrei de Maria Bethânia

Pronto lhe imaginei cantando

vamos viver no Nordeste

Anarina

vamos morrer

de brisa

. . .

27ª PUBLICAÇÃO DO MÊS DE MARÇO

 

Quando enfim puderem comprovar que os signos não são de todo arbitrários, será importante medir a extensão que designa o som ma. Falo menos do significado também extenso de palavras como mar, mãe ou demais e mais da duração profunda de que se ocupou esse mês de março. E não consigo senão pensar no mês de maio.

Por que se tem raiva do tamanho de maio? Porque se tem pressa. E no entanto é preciso adiar a sua demora. Maio, quando não passa: só então traz suas grandes, largas, dilatadas mudanças, tão verdadeiras. Tão únicas de maio, tão próprias dele, tão somente para os que podem não vê-las: quando o tempo de maio vai junhando no ar de velas e balões rumo ao céu.

Sou levado a crer que têm ma as coisas em que entramos e, ao cabo de um extenso processo, saímos transformados; como o ar vibrando, que, pela boca fechada, sai do nariz até ser finalmente solto na qualidade aberta de um aSou ainda novo, mas, creio, quando puderem comprová-lo já estarei morto.

. . .

CERTAS IMPRESSÕES

 para Luiz e Moti

Certos tipos de mosquito

deixam apenas uma leve impressão

cinza na mão e na parede

quando são esmagados.

Não se encontram mais patas,

antenas, asas; me pergunto

para onde foi aquele corpo

que pareceu apenas pulverizar-se.

Nesses momentos, fico

com a leve impressão

de que tais tipos de mosquito

têm alma. E deixo de matá-los

até que surja outro da raça.

. . .

O LIRISMO DOS COVARDES

para o Chico 

Não se pode confundir a história feita a contrapelo com uma história que só compreenda resistências. Há sempre os que cederam, que não resistiram. Me preocupo com o falseamento de quem conte apenas a história da coragem. Perderá a condição humana fundamental da covardia. Adriana Calcanhotto por exemplo construiu sua obra inteira entorno da ausência de brio. Você tem brio? Ou, tão mais simplesmente: talvez porque não haverá mais corajosos se não houver covardes.

. . .

A LINGUAGEM DA LÍNGUA

 

A língua é só uma — a que fala, a que beija. Assim não sei o quão se diferem de fato o falar e o beijar. Um bom beijo nos fala assim como em uma boa conversa as línguas se encontram.

Quando beijamos, a língua se lembra do exercício da fala: essa que beija é a mesma que o dia todo com a linguagem trabalha; e por que na articulação da fala deixaria de haver uma lembrança do beijo? Falar é tentar beijar com palavras.

Falar faz sentido. Não preciso nem falar que beijar também faz sentido. Verdadeiramente acredito que qualquer órgão pensa tanto quanto o órgão cerebral. Minha língua pensa: falando, beijando, na sua forma intercomunicativa, particular e prazerosa de pensamento. Na sua linguagem.

Mas então o que tentamos dizer durante um beijo? Nada mais do que já dizemos.

. . .

TEORIA DAS CORES


O dia é

escuro

A noite é

clara


É: o

dia

a

noite


Por isso o dia denso

a noite fina


Como um dia

negro

que só a noite

ilumina

. . .

NÃO HÁ TEMPO A PERDER

 

Para Auerbach,

a literatura havia acabado.

Para mim —

com o perdão de ter justaposto

Auerbach e mim —,

peço licença:

a literatura acabou

de começar.

Não há mais tempo a perder.

Quando da publicação

do primeiro volume

da busca pelo tempo perdido,

era 70% a taxa de analfabetos

no país em que nasci e vivo.

. . .

O LIRISMO DOS FEIOS

 

Cansei dos descolados.

Tenho preferido os colados,

com calos, e os calados.


"Eu não gosto do bom gosto"

"Estou farto do lirismo comedido"


Vi um vídeo chamado de cringe.

Era uma menina feia

fazendo uma trend.

Não chamariam assim

uma menina bonita

com domínio da técnica:

aparentemente,

consideram aqueles

que se adequam bem à estupidez

mais inteligentes.

. . .

PARA CRISES DE GASTRITE

 

Chá de espinheira-santa

Um pouco de João Gilberto

— pode ser En México

É que o brujo é médico

. . .

CHACRAS

 

Quando a gente

deixa a louça secando

depois de lavá-la,

ela fica com umas espécies

de manchinhas. Tenho tido

a sensação de insetos andando

pelo meu corpo. Tenho

tido brotoejas, acho

que de calor.


Às vezes meu celular para

de tocar música do nada.

A mola da porta

da minha geladeira

está meio gasta.

Ela não fica mais fechada.

. . .

ÚLTIMA DESCOBERTA

 

O corpo não é apenas uma fonte de cognição; também ele está submetido a um mapeamento cognitivo. O nosso trato vocal só pode produzir os sons significativos da língua e, assim, organizar o mundo, uma vez que uma organização precedente lhe houver sujeitado — entre dental, labial e tal.

É aprendendo que se ensina. Mas não digo: é adquirindo que se fala. Não há aquisição possível, porque não há triunfo ou conquista.

Esse blog é meu diário investigativo. Pelo próprio princípio que me norteia a investigação tenho de reconhecê-lo.

O princípio: trazer à luz é encontrar uma pista.

. . .

O SENTIDO OUTRA VEZ

 

Para Saussure, só tem sentido o que tem contraste. É como se ele dissesse: cresça e aparesça. Ou: quem não é visto não é lembrado. Mas não o imagino entrando num baile vestido de paetê. É como se, jakobsonianamente, eu o imaginasse com uma oposição mínima contrastiva, é como se ele surgisse na festa com um cravo aparecendo de leve para fora do bolso de seu terno, apenas entrevisto — ou entrelembrado? E eu sinto esse cravo opondo-se à falta mesma de um cravo no terno de outros convidados, crescendo.

. . .

EM VERSO FIXO, OU FLUIDO

 

Tudo que a escrita controla

a leitura descontrola

Não sei pensei isso agora

como se estivesse fora de moda

contra a letra haver revolta.

. . .

DE UM ALUNO


Henrique é um pré-adolescente de 11 anos. Tem aulas particulares comigo há algum tempo. Na aula da semana passada, escreveu um poema. Normativamente corrigi alguns fatos de português junto a ele, e, no mais, o poema está aqui como ele o fez:


Uma menina chegou em uma cidade.

Ela não sabia de nada.

Absolutamente nada.

Nem as coisas mais simples.

Essa menina chegou a um menino.

Ela perguntou: o que é um raio?

O menino respondeu que é um choque

que vem de uma chuva mais forte

chamada de “tempestade”.

Mas ela não sabia nem mesmo o que era chuva.

Era tudo tão estranho...

Ela se permitiu perguntar ao menino:

O que é chuva?

Gentilmente, o menino respondeu:

É um monte de nuvens que começam a soltar água

Do mesmo jeito que você solta lágrimas.


Henrique quis saber por que, quando eu li em voz alta, o poema pareceu ser tão melhor do que antes ele achava.

. . .

ALÉM DA CELULOSE

 

O verso não é a vida,

a vida se esconde,

ela está na quebra

de um verso, no verso

de uma página,

nas gavetas, não no livro

mas nas quinas de uma estante,

é o descanso dos olhos,

a cesura, a embocadura,

está no respiro, num suspiro,

ela não é tudo, não é

totalizante: da vida

a vida é apenas um instante.

. . .

À ESPERA DE QUE ME LEIA

 

Totô, eu ainda acredito que é possível conhecer

alguma coisa.

Não só possível como desejável.

Totô, o meu desejo me desloca

e meu lugar não me basta ainda.

Parte do meu interesse pelas coisas

me ensinou que os estoicos e os cínicos

tinham filosoficamente muito em comum.

Adjetivamente também o tem,

mesmo hoje em dia,

eu acho.

E não admito dizerem que

o pensamento nos afasta da vida real.

Não se o pensamento for vivo.

Não se ele for real.

Não vêm a conhecer outras ideias,

outras pessoas, chamem como quiser,

outras culturas?

Pensando o mundo um xamã faz chover.

Com isso aprendo tão mais sobre

a chuva: chego até a senti-la

diferente sobre o meu corpo.

Nunca foi preciso esquecer do corpo.

É uma questão para mim necessária:

se não pulso creio que estou morto.

. . .

CONVERSA

 

Meu pai me diz

a gente não tem ideia

dos processos evolutivos

pelos quais estamos passando

enquanto humanos

agora neste momento


Eu respondo

a gente não tem ideia

das transformações no português

às quais damos origem

enquanto falamos

agora neste momento


Minha mãe

meninos não briguem

Mas não era uma briga


Minha irmã

a gente não tem ideia

de quando uma conversa

entre o Mimi e o papai

pode-se tornar uma briga

a qualquer momento

. . .

FOGE DE MIM (tradução de Vete de mí)

 

Tu,

Que enches tudo de alegria e juventude

E enxergas vultos numa noite à contraluz

E ouves o canto perfumado do azul,

Foge de mim!

Não te detenhas a olhar

Os ramos mortos do rosal

Que se desmancham sem dar flor,

Olha a paisagem do amor

Que é razão de se sonhar e amar...


Eu,

Que tive armas contra toda a maldade,

Tenho as mãos já tão cansadas de lutar

Que nem consigo te agarrar:

Pobre de mim!

Serei em tua vida o melhor,

Só uma névoa de outrora,

Quando estiver a me esquecer,

Como é melhor o verso agora

Que não se pode reviver...

. . .


"A ARTE E A POLÍTICA SÃO DEMAIS PARA UM SÓ HOMEM"

 

Discordo frontalmente de José Miguel Wisnik. Não há o menor interesse em João Gilberto ter apresentado um compósito melódico etc para uma possível definição de Brasil enquanto qualquer substantivo abstrato. Meu Deus do céu e por que diabo falar em Brasil? João é necessário porque encanta nossas serpentes. Não é "civilizar" — oi? — nada, não.

Há quem diga fala em magia como quem lança mão de noções do tipo "mana". A quem o diga eu respondo: o signo excedente, noção mana, é sempre essa ideia enxertada de Brasil.

. . .

EFEMÉRIDE

 

Escrevi quase cem poemas

em página de papel

em página de blog


Não há um que preste


Tenho muitos amigos

de carne e osso


Boto minha mão no fogo

por quase todos

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UMA COISA QUE NÃO FAZ NEM UM SENTIDO

 

Uma coisa que não faz nenhum sentido: dentre as coisas que li sobre o sentido, a que mais fez sentido estava em um manual de semântica formal feito instrumentalmente para cursos introdutórios de graduação.

A linha teórica – analítica, fregeana – não me agrada nada. Afirma que unicórnio não tem referência e ao escutarmos uma sentença o que buscamos é um critério para chegar ao seu valor de verdade. Mas, porque lá li o significado é o veículo que conecta a expressão com o referente, externo à linguagem, me fez pensar que o sentido é a experiência tida pelo sujeito ao encontrar-se com o mundo. Tanto mais se, por inversão, a ausência de sentido passa a ser o desencontro. De onde, em uma briga, reclamamos isso que você fez (ou que você disse) não faz nenhum sentido! Não nos encontra: nos afasta – do nosso próprio mundo.

É verdade que aquela do livro não foi a frase na vida que mais se fez sentida; o que responde já à verdade de outra palavra, sentir. No lugar dessa frase, poderia escolher, por exemplo, com a bênção do nosso Senhor, o sol nunca mais vai se pôr.

A conexão realizada pela rima faz sentido e faz sentir como faz pouca coisa no mundo. Estou começando a pensar no sentido como uma sensação de união, uma sinestesia, estou começando a pensar nos cinco sentidos.

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PÓS-NEOREALISMO

 

Sigo a máxima hiperrealista

tudo de que falamos é real

Por irremediável realismo

uma vez que se fala em Deus

não negociamos a sua óbvia realidade

É implacável a nossa doutrina

e a de dragões inofensivamente reais

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CASAMENTO JAPONÊS

para a Alice 

Eu sou uma senhora japonesa

Não digo fui uma senhora japonesa

como em vidas passadas

ou algo assim

Sem dúvidas não o escrevo

Não digo

não escrevo que me sinto

uma senhora japonesa

É uma auto-identificação

Eu sou

porque de tal maneira

me identifico com aquelas

com que cruzamos na rua

nós duas

que somos ambas

e isso para mim

é já uma forma de auto-identificação


A única crise existencial jaz

na fantasia de casar com uma outra de nós

mas bem mais nova

bem tão linda

sem saber se isso faz de mim predadora

além de sapatão

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NOT A LOVESONG

 

Whenever I'm in peace

you come along.

Why can't you, please,

just leave me alone?

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POR QUE DIZER?


Não o que quer dizer

Nem "como quer dizer"

como diz Daniel Pennac

Mas por que quer dizer

Ou: por que dizer?

Ou: por que sempre falar

em Brasil, José Miguel Wisnik?

Não sou mais antológico

Voltei a ser polêmico

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VERSOS

 

Versos que eu gostaria de ter escrito

Reverencio a tua beleza

Física também mas não só

Versos que eu gostaria de não ter escrito

Versos que eu gostaria de ter escrito

Mas me recuso a escrever um poema

com versos como

A cachoeira reverbera

As folhas farfalham

e já não sei mais

se o fiz?

Para não dar palanque

para louco crescer

como a gente faz?

Fala ou cala? Não escreve

nem descreve?

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FALO DO AMOR

 pois nada jamais é perdido

Claude Lévi-Strauss

Imagina

viver uma vida

sem a percerpção química

que do açúcar tem as formigas

Está aqui


Para mim

não foi na perda do narrador

o declínio da experiência

Para mim pode ter sido

nisso

nunca ter enlouquecido

com a quina melada

de uma mesa ao entrar na sala ou

antes

nunca ter ido em direção à sala

suspeitando do melado

já no quarto


Ou jamais também

Porque sinto que tenho várias experiências

E não falo de experiências

que o Grand Hotel oferece

aos turistas na Tailândia

Falo de amor


Que me importa se um autor

cunhou o amor?

E se outro declarou

a perda da experiência

tive experiências

envolvendo o que eu e outros

muito depois

entendemos por amor e raiva

E o ódio me foi formativo

E o riso

mais do que a aura


Me lêem mal?

Não há polêmica

Dentre os lugares que já visitei

o que mais me emocionou

foi o memorial a Walter Benjamin

em Portbou, Cataluña

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POEMA COM EXCERTO DE JORNAL

 

Pistache é o novo ninho

com nutela. Há antologias

porque há sempre um novo

sabor, um novo autor,

uma moda, uma fase,

uma era — e por que escrever

um novo poema? A morte

é uma ave velha. Hoje

mesmo eu sonhei com ela.


Evidências arqueológicas na Turquia e na Síria mostram que o pistache já era consumido desde os anos 7000 a.C. Agora, caiu de vez no gosto dos brasileiros e tem feito bonito nas cozinhas e confeitarias.

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VERSOMAN

22 de fevereiro de 2024

 

A partir de agora

considero tudo verso

A fala é verso

A falha é verso

A folha é verso

Eu sou quem toma tudo por verso

Eu penso logo everso:

Sentirei saudades do carnaval

Beijava o Antonio todo dia


Talvez seja mesmo o fim da poesia

tal como a conhecíamos

Ou enfim a retomada dela

tal como ela nascia

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