No carro, uma vez, a Dora, "se ele", sobre esse menino que era apaixonado por mim, "se ele viesse me pedir um conselho, eu diria para ele te desafiar: você gosta de ser provocado e não confirmado". Por favor, Dora, se ele te pedisse um conselho que você não o orientasse a me conquistar porque não estou apaixonado por ele, melhor seria dizer algo assim. "Se ele me perguntasse o conselho seria meu, quem daria sou eu". Mas, agora, de fato este desconforto diante de um país que não me desafia, não me provoca, tudo para inglês ver; este país em que um nativo cuja língua eu falo insiste em me dizer em inglês: esta tradição é transmitida de geração em geração pelos nossos artistas oficiais que retratam de forma peculiar nossa fauna única; quer dizer, também o kitch pós-industrial pode ser transmitido de pai para filho.

Porém eu gostaria de não apenas ofender este lugar que me recebe. Por que o conhecimento tem de sempre partir e quebrar seu objeto? Por que pensar como se os ricenses estivessem entre locais tolos que não sabem o que fazem e malandros que, sabendo muito bem o que fazem, enganam aos tolos turistas? É muito óbvio que se tem alguém que não sabe o que faz, essa pessoa sou eu. Sentado em uma mesa com seis chinesas, um chinês, um argentino e uma americana da Flórida – todos tão feios, meu Deus, como sou feio por dentro por pensar nisso sem parar –, depois de comer um arroz como os que faço quando há apenas restos na geladeira, apenas aguardando a hora de ir a um parque de águas termais que tampouco desejo visitar mas pelo qual paguei. O problema sou eu, e não você, está claro. E o problema é o Thomas e não eu. Eu aceito, embora então diante da Costa Rica não saiba mais como me mover senão pelo terreno da condescendência, já que me foi impossível até agora me aproximar dela. O pressuposto posicional básico da crítica é a distância desconfiada, e eu desconfio muito quando algo parece querer me convencer de que é, naturalmente, aquilo que desempenha. "Só que o natural não é nada além, Miguel, do que aquilo que foi naturalizado, e o normal o que foi normalizado", depois de eu ter dito ao Chico que fingi naturalidade a primeira vez que contei à minha mãe que sairia com um homem, e ela também ao escutá-lo. Não poderia discordar. Mas a ênfase posta mais no significado lexical, "natural-", que no gramatical, "-izado", essencializa a significação. Como se o sentido não surgisse de processos relacionais e sim de entradas dotadas de conteúdo.

É o meu desconforto com todo esse discurso oficial-reservista: artistas locais, floresta nativa, fauna endêmica e, até mesmo, costumes endêmicos – sim, escutei "endemic costums" –, como ainda festas tradicionais e comida típica. Em primeiro lugar, como já escrevi em outros textos se não me engano, qualquer comida pode ser tipicamente uma bosta, qualquer hábito pode ser endemicamente desagradável e uma festa tradicionalmente idiota. Perguntem aos americanos. Em segundo lugar, me lembro de um professor da Faculdade de Educação que disse que, na primeira vez que ministrou a disciplina de estágio, exigiu que seus alunos elaborassem um relatório; já na segunda, espantado com a tamanha arrogância ou, que lhe serve de sinônimo, covardia dos relatórios entregados, passou a pedir dos alunos uma carta que remetessem com cópia para a escola e educadores que acompanharam. "Se tiverem alguma crítica realmente necessária a ser feita, o farão. Se não é importante a ponto de precisar ser marcada na carta, então ela de qualquer forma não precisa ser feita, nem entre nós." Pois bem. Eu sentiria uma vergonha profunda caso submetesse o que escrevi à leitura dos ricenses. E, se é assim, o que escrevo não vale de nada.

Como se um vulcão em repouso não fosse razão o suficiente para se conhecer um país. Por que tanta ganância? Por que acusá-los de vendidos se sou antes eu quem nada quer além de comprar, e me frusto porque aqui não encontrei os produtos que desejava: uma arte tão autêntica que nem se preocupe em chamar-se de tradicional, uma floresta tão integrada à vida que objetificá-la como "nativa" sequer faça sentido, fauna e costumes distribuídos simbolicamente a ponto de nem mesmo se imaginar a existência de fenômenos não endêmicos? Uma cidade rodeada de bichos-preguiça não é o bastante? Então eu queria mais. Eu queria extrair daqui matéria literária. Me zango porque a Costa Rica não oferece problemas estéticos nos termos estilísticos destas crônicas vagabundas. Sim. Porque meu repertório é muito limitado. Se sou tão incapaz de escrever sobre vales não a perder de vista mas a prender nossa vista, se não dou conta de recuperar essa sensação de estar mais em meio à paisagem e ao relevo que os contemplando. Porque preciso de algum escândalo sociológico. Talvez, e preciso confessá-lo para pagar de vez pelo que devo ser condenado, talvez mesmo sentindo falta das marcas cosmopolitas de uma diáspora e de sucessivas capturas engendradas. Como se lhe faltasse a complexidade histórica da escravidão e dos regimes militares. Ou enfim porque eu precise de alguma autoridade para fundamentar meu olhar. Vamos às veredas. Por onde passou a boiada de Guimarães Rosa. Vamos à Chapada do Araripe. Terra de grande efervescência de arte popular.

A redenção da Costa Rica, e por meio dela a redenção de mim, quem mais precisava de uma. A questão a respeito do que fazemos com o que fizeram de nós. E nenhum pudor em usar uma frase gasta, porque, quando se tem intimidade com a linguagem, sabe-se que frases não caem do céu mas brotam do chão. Frases são como o prestígio enológico antes da entrada da Califórnia no mercado global: se dá por terroir e não por tipo de uva. As frases não se distinguem entre si, senão por meio das circunstâncias que as convocaram. Nesse sentido sim uma frase é também como um feitiço: de pouco servem se não se sabe quando usá-los como e por quê. Portanto: o que eu e a Costa Rica fazemos do que fizeram de nós. Que é uma colônia europeia na América, uma terra de imigrantes, de fato eu já o sabia e não precisaria ter vindo até aqui para frustrar-me com isso. Mas o que a Costa Rica faz e é para além disso. Vejam. Eu a denunciava por sua artificialidade como se mover-se no terreno da ação implicasse sempre dissimulação, eu dizia, isto é: dissimular a ação. Mas se redirecionarmos nossos olhos daquilo que os ricenses dissimulam para como eles agem —"se movermos nossos olhos para o conjunto das práticas dos modernos"; vejam, insisto, de nada bastou me proclamar latouriano pelos quatro cantos se não pude aprender essa lição — então quem sabe serei capaz de perceber que o fato destas reservas terem sido, há 30 anos, fazendas de gado não depõe contra a autenticidade do seu bioma: o que esse fato faz é testemunhar a sua força. E a força da escolha. Dos ricenses. Não de mim que fico aqui lamentando um homem que não amo mais e um país ao qual eu me fecho em nome do gozo fácil de me sentir tanto mais importante quanto, que ironia, mais impotente.

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NOTÍCIAS DE UM POUCO MAIS ACIMA MAS AINDA ENTRE OS TRÓPICOS

 

Não haveria viagem em que eu não pensasse nele. Se estivéssemos bem, namorando, estaria falando com ele sem parar como o fizemos quando ele viajava; se tivéssemos terminado, bem, óbvio que aqui estaria pensando nele; e, já assim, na situação em que estou, nem bem namorando nem terminado ainda, digamos, mal namorando e prestes a terminar, não há outro meio de viajar que senão pensando nele. Porque, se ele fez parte da minha vida em todos os dias dos últimos dois meses, é claro que o guardarei por mais um tempo. E ainda bem. Quer dizer, além de que vivi algo bom, sobretudo que minha vida é feita de acontecimentos, que é cruzada por eles e permeável aos outros que vieram fazê-la comigo; aliás, que ela mesma não pode ser pensada como algo à parte daqueles que, habitando-a, justamente fazem parte dela: isto é, não há como se perguntar como seria sem ele se ele, como todo resto, é o que me permite ser. Eu dizia a Gab antes de embarcar. Disse também que tudo isso era um tanto melancólico, mas, bem; não – não pude nem completar, a Gab me cortou – eu vejo luto e não melancolia. É luto porque você está trabalhando perder uma parte de si sem se sentir perdido por isso. Sim, concordei. Mas vejam que ironia. No avião, me sentia já ansioso porque, lendo Tristes trópicos, antecipava a influência que a sua percepção teria sobre a minha percepção e elaboração da Costa Rica. Vêem a ironia? Não pude aplicar a mesma lição que com maestria há menos de uma hora eu mesmo havia professado. Como se, de qualquer forma, algo não estivesse sempre a nos formar, a nos influenciar, repito, a cruzar a nossa vida. Se não fosse Tristes Trópicos seria outra coisa. Ou eu prefiro por nada nunca me afetar? Se não fosse o Thomas seria outra ideia a me perseguir, seria o resultado do mestrado, seria o grindr. Não vivemos em um laboratório onde se isolam variáveis, fabrica-se o contexto e escolhem-se condições de temperatura e pressão. Somos condicionados pelas friezas, pelos calores e pelas diversas pressões. Somos fabricados pelos nossos contextos. Ou eu acharia melhor não ser jamais suscetível? Então, claro, penso em um e recolho impressões segundo o outro. O que me sustenta: se fôssemos tela branca, qualquer primeiro risco mal feito já confirmaria o risco de se estragar tudo. Mas, quando em meio a muito outros rabiscos, anteriores: cheia de nós, a rede segura o corpo. No entanto, se me for permitido, gostaria até de ir além. A relação que faço entre o pensamento constante no meu futuro ex-namorado e o espírito estético e crítico de Tristes Trópicos é de fato muito acertada. São, não mais quanto ao papel que desempenham na minha vida, mas, em seu próprio conteúdo, ambas ciências da fantasmagoria, formas de se lidar com a presença de espectros. Como esquecer de alguém? Pergunta a colônia sobre a metrópole. Ex é para sempre, não cessam de se dizer Sul e Norte globais. Não posso ver a Costa Rica sem enxergar a colonização por todo o canto porque, como não, a Costa Rica é uma colônia na América. Porque percebo sua falta agora ao mesmo tempo que o evoco sem parar, eu gostaria de agir como se eu não tivesse namorado com o Tô? Queria agir como se não tivesse lido Lévi-Strauss? Como se eu não estivesse onde estou, como se não tivesse se passado o que se passou?

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UMA RECONSTELAÇÃO

 

Poder voltar pra estaca zero e perceber que a estaca zero é a estaca 12.750. "Eu estou mais forte porque olho nos olhos da loucura diariamente e escolho não pular", eu falei. "Isso que você tem com você, isso é só com você, essa intimidade toda, mesmo esse prazer". "De repente ver que o lugar de onde você extraía sua força é o motivo mesmo da sua fraqueza te deixa duas vezes fraco: e a segunda porque, se é isso que te enfraquece, então você não sabe nem mais como ter recursos para lutar". "Não tente controlá-lo, não ache que você pode convencê-lo a não terminar com você". Me disseram essas e muitas mais. Sou grato a ele por tudo que me deu e se fico triste é porque gostaria de continuar essa relação de outra forma que terminando. Porque não há amor maior que a gratidão. Mas terminar também é uma forma de se continuar uma relação: "não existe termo boiando por aí no universo". "Seja mais estruturalista, Miguel, justo você". Me disse uma bióloga celular que é poeta. E me disseram "que orgulho de você, Miguel, você está sendo muito maduro" ao escutar a mesma história, em momentos diferentes, minhas três melhores amigas. Que são poetas. Porque escrevem poesia, sim, mas sobretudo porque poesia é fazer coisas com as palavras – e quantas coisas fizeram me dizendo palavras exatas. "A história é sua, cuide dela com as palavras que forem melhores para você". Ou "se você não está feliz com o que parece real invente uma outra narrativa que te faça sentir bem" na versão chernobilesca do futuro. E também "acontecimentos como esse são os que nos obrigam a recontar a história da nossa sexualidade, porque a transformam", quando eu falei para a Clara que "eu gosto dessa relação porque, em vez de me obrigar a um percorrido pela breve história da minha sexualidade, me oferece uma rota de fuga para fora dela". E então observar as comutações, recombinações. Então nada mais é igual. Então voltar a escrever. Mas como da mesma forma? Se passei por essa relação sempre acompanhado do discurso dos outros. Como escrever sem e senão para esse povo? "É difícil te contar o que aconteceu na última semana porque agora estou são e na última semana estava louco, e os objetos do meu pensamento, que seriam os mesmos, não têm mais aquela relação que os caracterizava, não posso recuperá-los". Acredito que falei assim mas sem os objetos oblíquos. Devo ter dito "que caracterizava eles" e "não posso recuperar eles". Não posso recuperar ao certo. Gostaria de ter gravado tudo. Gostaria de ter gravado até minha entrevista de mestrado. "When you give an advice so poethic it genuinely shocks you". Um reels do instagram. "O ponto de vista da saúde sobre sua relação com a doença não é o mesmo ponto de vista da doença sobre essa relação." Uma frase de aula. De dois anos atrás. A hora em que isto se põe, em que o céu baixa, a cortina desce, certas coisas emergem, a anunciação, o momento em que todos regressam, uma outra forma de reconciliação, de consideração. "Considerare, siderare, essa palavra, considerar era olhar os astros". Disse a chata da Chauí em um reels, com razão. Essa reconstelação: a hora de reviver a breve história da nossa relação. João. Feijão. Pão. Caminhão. Nunca evite o fácil, nem mesmo as rimas fáceis. Vá de encontro ao fácil e se estoure com ele. Não pense na separação, não despedace o coração. Que se lasque o difícil e todas as fórmulas modernas de sucesso estético, pessoal e profissional. O amor da gente é como um grão e o sentido absurdo que pode vir a fazer uma canção. "Será que todo enunciado guarda uma verdade por dentro que pode ser experienciada?". "Ah, antropologia, filosofia, 'penso logo existo', curto muito essas paradas". "Só sei que nada sei", eu mesmo não sei de nada. Tô, meu amigo meu companheiro de curta estrada, muito obrigado por essa caminhada a gente nasceu pra isso mesmo pra se apaixonar e quebrar a cara as rimas foram criadas para serem usadas.

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