Poder voltar pra estaca zero e perceber que a estaca zero é a estaca 12.750. "Eu estou mais forte porque olho nos olhos da loucura diariamente e escolho não pular", eu falei. "Isso que você tem com você, isso é só com você, essa intimidade toda, mesmo esse prazer". "De repente ver que o lugar de onde você extraía sua força é o motivo mesmo da sua fraqueza te deixa duas vezes fraco: e a segunda porque, se é isso que te enfraquece, então você não sabe nem mais como ter recursos para lutar". "Não tente controlá-lo, não ache que você pode convencê-lo a não terminar com você". Me disseram essas e muitas mais. Sou grato a ele por tudo que me deu e se fico triste é porque gostaria de continuar essa relação de outra forma que terminando. Porque não há amor maior que a gratidão. Mas terminar também é uma forma de se continuar uma relação: "não existe termo boiando por aí no universo". "Seja mais estruturalista, Miguel, justo você". Me disse uma bióloga celular que é poeta. E me disseram "que orgulho de você, Miguel, você está sendo muito maduro" ao escutar a mesma história, em momentos diferentes, minhas três melhores amigas. Que são poetas. Porque escrevem poesia, sim, mas sobretudo porque poesia é fazer coisas com as palavras – e quantas coisas fizeram me dizendo palavras exatas. "A história é sua, cuide dela com as palavras que forem melhores para você". Ou "se você não está feliz com o que parece real invente uma outra narrativa que te faça sentir bem" na versão chernobilesca do futuro. E também "acontecimentos como esse são os que nos obrigam a recontar a história da nossa sexualidade, porque a transformam", quando eu falei para a Clara que "eu gosto dessa relação porque, em vez de me obrigar a um percorrido pela breve história da minha sexualidade, me oferece uma rota de fuga para fora dela". E então observar as comutações, recombinações. Então nada mais é igual. Então voltar a escrever. Mas como da mesma forma? Se passei por essa relação sempre acompanhado do discurso dos outros. Como escrever sem e senão para esse povo? "É difícil te contar o que aconteceu na última semana porque agora estou são e na última semana estava louco, e os objetos do meu pensamento, que seriam os mesmos, não têm mais aquela relação que os caracterizava, não posso recuperá-los". Acredito que falei assim mas sem os objetos oblíquos. Devo ter dito "que caracterizava eles" e "não posso recuperar eles". Não posso recuperar ao certo. Gostaria de ter gravado tudo. Gostaria de ter gravado até minha entrevista de mestrado. "When you give an advice so poethic it genuinely shocks you". Um reels do instagram. "O ponto de vista da saúde sobre sua relação com a doença não é o mesmo ponto de vista da doença sobre essa relação." Uma frase de aula. De dois anos atrás. A hora em que isto se põe, em que o céu baixa, a cortina desce, certas coisas emergem, a anunciação, o momento em que todos regressam, uma outra forma de reconciliação, de consideração. "Considerare, siderare, essa palavra, considerar era olhar os astros". Disse a chata da Chauí em um reels, com razão. Essa reconstelação: a hora de reviver a breve história da nossa relação. João. Feijão. Pão. Caminhão. Nunca evite o fácil, nem mesmo as rimas fáceis. Vá de encontro ao fácil e se estoure com ele. Não pense na separação, não despedace o coração. Que se lasque o difícil e todas as fórmulas modernas de sucesso estético, pessoal e profissional. O amor da gente é como um grão e o sentido absurdo que pode vir a fazer uma canção. "Será que todo enunciado guarda uma verdade por dentro que pode ser experienciada?". "Ah, antropologia, filosofia, 'penso logo existo', curto muito essas paradas". "Só sei que nada sei", eu mesmo não sei de nada. Tô, meu amigo meu companheiro de curta estrada, muito obrigado por essa caminhada a gente nasceu pra isso mesmo pra se apaixonar e quebrar a cara as rimas foram criadas para serem usadas.
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