Não haveria viagem em que eu não pensasse nele. Se estivéssemos bem, namorando, estaria falando com ele sem parar como o fizemos quando ele viajava; se tivéssemos terminado, bem, óbvio que aqui estaria pensando nele; e, já assim, na situação em que estou, nem bem namorando nem terminado ainda, digamos, mal namorando e prestes a terminar, não há outro meio de viajar que senão pensando nele. Porque, se ele fez parte da minha vida em todos os dias dos últimos dois meses, é claro que o guardarei por mais um tempo. E ainda bem. Quer dizer, além de que vivi algo bom, sobretudo que minha vida é feita de acontecimentos, que é cruzada por eles e permeável aos outros que vieram fazê-la comigo; aliás, que ela mesma não pode ser pensada como algo à parte daqueles que, habitando-a, justamente fazem parte dela: isto é, não há como se perguntar como seria sem ele se ele, como todo resto, é o que me permite ser. Eu dizia a Gab antes de embarcar. Disse também que tudo isso era um tanto melancólico, mas, bem; não – não pude nem completar, a Gab me cortou – eu vejo luto e não melancolia. É luto porque você está trabalhando perder uma parte de si sem se sentir perdido por isso. Sim, concordei. Mas vejam que ironia. No avião, me sentia já ansioso porque, lendo Tristes trópicos, antecipava a influência que a sua percepção teria sobre a minha percepção e elaboração da Costa Rica. Vêem a ironia? Não pude aplicar a mesma lição que com maestria há menos de uma hora eu mesmo havia professado. Como se, de qualquer forma, algo não estivesse sempre a nos formar, a nos influenciar, repito, a cruzar a nossa vida. Se não fosse Tristes Trópicos seria outra coisa. Ou eu prefiro por nada nunca me afetar? Se não fosse o Thomas seria outra ideia a me perseguir, seria o resultado do mestrado, seria o grindr. Não vivemos em um laboratório onde se isolam variáveis, fabrica-se o contexto e escolhem-se condições de temperatura e pressão. Somos condicionados pelas friezas, pelos calores e pelas diversas pressões. Somos fabricados pelos nossos contextos. Ou eu acharia melhor não ser jamais suscetível? Então, claro, penso em um e recolho impressões segundo o outro. O que me sustenta: se fôssemos tela branca, qualquer primeiro risco mal feito já confirmaria o risco de se estragar tudo. Mas, quando em meio a muito outros rabiscos, anteriores: cheia de nós, a rede segura o corpo. No entanto, se me for permitido, gostaria até de ir além. A relação que faço entre o pensamento constante no meu futuro ex-namorado e o espírito estético e crítico de Tristes Trópicos é de fato muito acertada. São, não mais quanto ao papel que desempenham na minha vida, mas, em seu próprio conteúdo, ambas ciências da fantasmagoria, formas de se lidar com a presença de espectros. Como esquecer de alguém? Pergunta a colônia sobre a metrópole. Ex é para sempre, não cessam de se dizer Sul e Norte globais. Não posso ver a Costa Rica sem enxergar a colonização por todo o canto porque, como não, a Costa Rica é uma colônia na América. Porque percebo sua falta agora ao mesmo tempo que o evoco sem parar, eu gostaria de agir como se eu não tivesse namorado com o Tô? Queria agir como se não tivesse lido Lévi-Strauss? Como se eu não estivesse onde estou, como se não tivesse se passado o que se passou?
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