Blog do Juízo Original

DAS SUTIS ARTES DE DESARMAR ALGUÉM

 

Porque amar é desarmar. Sobretudo quando o outro tem razões para nos atacar e o que queremos é perguntar-lhe se é isso mesmo que ele quer. Percebem? O mesmo vale para nós. Às vezes atacamos alguém não porque queremos mas apenas porque temos motivos para tanto. E no entanto motivos nunca faltarão, portanto ter motivo nunca será o bastante: é preciso querer. É isso mesmo que você quer? Eu virei para a Dora e disse: então eu vou virar para ele e dizer que a Sabrina tinha razão, ele é muito egoísta. Ela me respondeu: "é verdade, mas pensa se você quer ofender ele, se você quiser tudo bem, só pensa se você quer mesmo, e por quê". De novo a Dora. E de novo o Totô; a história é esdrúxula, penso até que desnecessária para a ideia que pretendo explorar, mas desejo escrevê-la, peço paciência. Ele tinha publicado umas mensagens nos Status do seu Whatsapp afirmando, com letras embaralhadas, que estava muito bebaod. Junto a elas publicou a foto de um boneco com a legenda: ate os beneco ta beebado. Algo assim. Respondi a essa foto dizendo: "cringe". Ele imediatamente me excluiu da lista de pessoas que podem assistir ao que publica nos Status, eu disse, Totô, calma, eu estava brincando. E mais: eu falei brincando mas tem gente que pode ver e achar constrangedor de verdade, estou te dando um toque. Até esse momento essa história é que é, bem feito para mim, ela mesma cringe; mas então, e por isso decidi contá-la aqui, em meio ao fervor de sua embriaguez o Totô me provou que nenhuma estética equivocada constrange tanto quanto a vulgaridade da amargura. Ele me disse: "toque todo mundo tem pra dar, o problema é quem acha que tem que dar os toques que tem" – e esse foi o grande toque, o metatoque que ele me deu. Não sei se me fiz tão claro. Talvez inclusive esteja prestes a complicar ainda mais as coisas, mas o faço apenas na medida em que confio que elas mesmas iluminarão umas às outras no futuro, deixem-me continuar mais um pouco. Sem dúvida, o Tomé não precisa de um bom motivo para me enviar o vídeo dos seus amigos quebrando o pescoço da cotia, na verdade porque o simples fato dele não querê-lo é motivo suficiente. Muito angustiada, em um uber que levava do Parque Flamboyant ao Parque Areião, de onde enfim partiríamos ao Parque Vaca Brava, a Gab me falou: "eu não quero ir ao cinema, mas eu não queria ter que precisar argumentar com você para você levar o meu desejo em consideração". (Aqui, pela honestidade radical que busco, sou obrigado a registrar: fomos ao cinema. A Gab me agradeceu pela insistência, eu lhe agradeci a paciência. Nesse dia você cedeu, com certeza. Foi ótimo. "É, me estupraram, tive que fazer de tudo e agora estou aqui". "Foi ruim? "Foi ótimo". Sem saber nas mãos de quem esses textos cairão, me coloco sujeito a munir quem constrói uma imagem de mim como vilão. E não me incomodo. Minha preocupação maior é desarmar e ser desarmado pelos meus amigos. Estou disposto, como efeito colateral, a armar meus inimigos.) Minha mãe, já ela propriamente chorando, também chegou a me dizer: "é muito cansativo conviver com você porque eu fico me policiando para ver se as coisas que eu faço estão de acordo com o que dentro da minha cabeça você pensa, e quando elas saem dos seus parâmetros eu sinto que eu devo qualquer tipo de satisfação a você". E a Clara dizia que eu era seu superego, algo de que eu nunca gostei porque, nessa brincadeira – que é a forma como ela trata afinal das coisas sensíveis – se condensava em uma imagem minha terrível propensão à tirania. Que poderia se resumir na seguinte fórmula: ofereço a promessa de mudar de posição desde que me convençam exprimindo-se nos meus termos, condição coercitiva que subjaz a uma aparente compreensão. "Quem me conhece sabe". Mas ao contrário: sabe não que eu seria incapaz disso que me acusam, como o que se costuma querer dizer com essa frase; quem me conhece sabe que eu seria capaz exatamente disso que eu e os outros estamos me acusando. E ainda que por amor a mim vocês todos decidam diariamente me perdoar – e que portanto tenham firmado um compromisso comigo que, se não abandonaram, foi porque estão certos dele, já que não faltaram ocasiões para abandoná-lo há muito tempo –, não deixo de temer um certo risco ao "dizer assim de modo explícito". Eu mesmo não deixo de me espantar um pouco diante de mim ao olhar para isso de forma tão crua e direta, o que só me foi possível agora quando, àquela primeira queixa da Gab, se somou uma outra, dois meses depois: "fico cansada de sentir que você só vai me entender se eu traduzir o que eu quero dizer nas suas palavras". Não espanta nada que ela, que é tradutora, tenha sido então quem me desarmou como uma bomba. Gosto dessa frase desse jeito, foi dessa forma que me veio quando concebi este texto, no bandejão da Faculdade de Saúde Pública, e preciso dela assim: a Gab não "me desarmou" "como se desarma a uma bomba", nem "me" desarmou "enquanto bomba", ela me "desarmou como uma bomba", ela, como cai uma bomba, veio e me desarmou, "como aquela grande grande explosão, uma bomba sobre o Japão, fez nascer o Japão da paz". Assim, quando o Tomé pareceu querer me atacar, dizendo que não ia me enviar o vídeo porque eu sou ao mesmo tempo insistente quando quero algo dos outros (o que é verdade) e inflexível quando os outros querem algo de mim (o que, se concedermos que eu sou difícil mas não sou um monstro, não me parece, por sua vez, ser verdade, e acontece apenas que naquele dia eu não quis de forma alguma fumar porque tenho uma relação muito interessante e perigosa com maconha cujos riscos não estava disposto a correr), justamente porque reconheci que ele tinha motivos, digamos, senão bons ao menos bastante razoáveis para me atacar, que preferi não me defender, mas antes lhe perguntar se era o que ele buscava fazer, isto é, eu, com um gesto buscando alcançar a altura do seu amor, tentei lhe desarmar. É cansativo para nós ter de lutar contra os outros. Não lutamos pelo nosso bem, lutamos por falta de escolha. Certamente, então, que, se ele escolhia ali aquele caminho – apontar meus defeitos e afirmar que o que ele estava a fazer nada mais era do que devolver minha conduta defeituosa a mim mesmo –, era eu quem devia ter lhe encurralado nesse lugar para o qual ele sentiu que não havia outra saída senão pegar em armas. E foi pelo dever de assumir meu papel nisso tudo que tive que convidá-lo a deixá-las de lado: que nós tratemos das nossas feridas em vez de se servir delas para provocar mais machucados. Foi o que eu tenho aprendido com as pessoas que amo. Na escola do amor não há aulas de defesa pessoal. Pelo contrário. Alunos e mestres passam o dia a desatar os nós nas faixas dos judocas, dos caratecas, dos taekwondistas. Não sei se exponho o Tomé trazendo essa questão aqui a quente. Mas, como o que quero travar com você não é uma guerra, pensei que lhe cabia bem o gênero diplomático de carta aberta.

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UMA AMIZADE LITERÁRIA: MUITO SE FALA DO AMOR ROMÂNTICO (LITERÁRIO) E POUCO SE FALA DELAS

 

"Fala com o Totô, sim, independente se ele ainda te ama ou não, porque você ainda ama ele, e a pior coisa que pode acontecer com a gente é deixar de amar alguém". Totô é um dos poucos leitores que esse blog ainda tem. Você sabia dessa história? A Dora me disse isso em 2023, era o aniversário dela de 26 anos, estávamos no Bocadas, essa pizzaria foi o hiperfoco do Nado naquela época, nem sei se a família Kehdi ainda a frequenta. Eu tinha te procurado na varanda do apartamento, se não me engano da Dora Affonso, pra saber como iam as coisas e se não poderíamos sair qualquer dia desses. Você me disse que nossa amizade não fazia mais sentido, que as coisas que eu fazia – você parava assim, sem o complemento verbal, você dizia, nominalmente apenas: as coisas que você faz, Miguel... Em algum dia das semanas seguintes o Chico me disse, no bandejão da Escola de Enfermagem: "ele não é louco de te perder como amigo". E eu reclamava da sua postura injustificável. Mas então, com essa frase que guardo desde antes dela ter se tornado uma das minhas melhores amigas, a Dora converteu minha incredulidade com você em uma vulnerabilidade a você. Ela me disse: você ama ele e vai sentir sua falta. Sabe que eu comecei a escrever este texto risonho diante de tantas turbulências nossas e agora me encontro mesmo emocionado? O que me faz ter mais certeza do valor da nossa amizade. É um afeto que me move duas vezes e junto a você: me comove. Totô, e ao me abrir a tudo isso de repente meu texto ficou kitsch, vê, é como se eu não soubesse lutar sem armadura. Logo eu, bem hoje, depois de ter tirado uma com você na sexta, "Totô, agora você está conseguindo demonstrar afeto corporalmente? Quantos abraços". "É porque eu estou impressionado com como você está forte depois da academia". Pois é. Como se eu fosse perito em demonstrar afetos, aliás, sempre digo que não sei responder a elogios – para mim toda resposta a um elogio é como aquela resposta desastrada um parabéns de aniversário em que dizemos "obrigado, para você também" –, aliás, sempre conto que essa professora de poesia portuguesa me disse, era a segunda aula de sua matéria, "por que você se esconde tanto, Miguel? Eu não quero saber a definição do poema para amor, eu perguntei o que é amor porque eu quero saber o que é amor para vocês, me diga, Miguel: você já amou?" E assim ela me desarmou. Agora escrevo sem armas e meu texto é fraco. Bom para que eu veja se você segue querendo pegar nele que não é forte. Pensemos no texto assim, como uma nota de rodapé: à pequena história da nossa amizade que são nossos dois blogs. Aqui há tantos poemas dos nossos afastamentos quanto das nossas reaproximações. Bonito que isso tenha sido o que emergiu. Vinha fazer outra coisa, vinha escrever sobre o vazio de perceber que não amo mais outro Totô. Ele publicou uma foto no Instagram que me assustou. Não encontrei aquela vontade de deitar com ele, que até não muito tempo me acompanhava quando o via; pelo menos uma última deitada, era o que eu pensava. Para onde um amor vai quando morre, Totô? Você me poupou de descobrir isso com você daquela vez, me diga então por favor agora quanto ao meu ex. Pensei que quando me visse nessa situação me sentiria emancipado. Mas eu também pensei que ficaria eufórico quando passasse no Mestrado. O que a gente imagina pra gente nunca é o que a gente quer. Isso não quer dizer que o nosso querer não tem importância, é o contrário, quer dizer que se a gente desse importância pro nosso querer quem sabe não perderíamos tanto tempo assim com sonhos de megalomania: de voltar com o ex ou de superar o ex, de entrar no Mestrado ou de escrever o melhor Mestrado. A Dora me disse: escolha amar o Totô, pouco importa se você é amado, amar é que uma delícia, o resto você tira de letra e deixa de lado. Das duas vezes ela me disse isso, dos dois Totôs. Mas agora eu só amo você entre os Totôs. O que acaba de acontecer? Algo aconteceu – de repente escrever isso se tornou uma fonte não mais de dor mas de alegria. Sim é triste deixar de amar alguém, mas já não concordo comigo, nem com o que escrevi no meio do texto (sinto sim uma emancipação boa), e menos ainda com o princípio que me trouxe a escrevê-lo. Há muitas mais pessoas boas para se amar. Dizer que amar é uma delícia é dizer que o amor é uma escolha, que escolhemos quando entrar e que, por isso mesmo, temos de escolher quando não sair e também quando sair: não saia à toa, mas não fique a qualquer custo. O resto eu tiro de letra e deixo de lado, o resto faz parte, veja, se eu escrevo tanto sobre nós dois que nunca fomos nem nunca seremos namorados.

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DA POESIA À PROSA (A MIM E, DEPOIS, MEUS AMIGOS)

 

O que eu carecia destravar enfim era a escrita. Curiosa reaparição aos que venho, os que me vêem. Pois, descrevo aqui o salto que recém contemplaram para que tenham também o deleite de submeter sua arte a um escrutínio: por ter passado os últimos meses a falar incessantemente com vocês, e sobretudo a escrever incessantemente a vocês – no gênero em que descobri minha verdadeira vocação, o das mensagens de WhatsApp, mas que para nossa tristeza não têm ainda uma reunião canônica concebível a partir dos meios documentais e editoriais que por enquanto fizemos disponíveis e imagináveis para nós – ora, foi por todo esse diálogo incessante estabelecido com vocês que passei a escrever menos neste gênero, atividade solitária que portanto é como uma conversa tida comigo, mas cujo eco (e a pedância deliciosa de usar a palavra “cujo”, algo como o afago calorosamente perverso de se ter a porta aberta por um porteiro, ou, se preferirmos escrever com maior distância desse prazer perverso, de um porteiro lhe abrir a porta – e ainda a espera pela revelação futura de saber se, como a sintaxe lusitana não se faz charmosa sem certa perversidade, a ternura que sentimos por Portugal e sua luz também não é um pouco maldosa), por favor, não se percam, pois vinha dizendo justamente dessas palavras cujo eco não pode deixar de ser ouvido senão por vocês. Mas talvez o ponto seja então este de descobrir que preciso passar mais por mim para chegar a vocês. Que careço dessas brigas comigo porque senão é com vocês que brigo. Como escrevo este texto? Após dar alguns tragos numa maconha e sentir um bocadinho de medo da loucura. Preciso ser arremessado para uma cela em mim na qual me sinta condenado para finalmente estar em mim de alguma forma. Porém, da mesma maneira como então me coube de porta de entrada, posso me servir dessa cela como porta de saída e dela passear por outros ambientes. Sim porque gostar de me entender como um novelo de tensões que por muitos outros novelos se estende não exorciza, ou não precisa exorcizar, uma imagem de mim como paisagem. (Permitam-me a imersão por um nome pela última vez: reclamei com Chico no carro por ele dizer que “também queria ser deleuziano” e pedir para concordamos que ele seria uma mulher trans caso ele tivesse ficado cinco minutos a menos na barriga da mãe, e não a mais, porque ele gostaria de estar também além e não aquém do que lhe é próximo, porque, como atravessamos eu a maldade e a Gab o narcisismo, ele gostaria de dizer que atravessou a transexualidade e se encontra do lado de lá dela; sendo que, disse a Manu, no caso dele é com cinco minutos a mais na barriga da mãe que ele teria nascido trans, apenas faz mais sentido pensar assim mesmo, e, disse eu, essa brincadeira não tem nada a ver com Deleuze e, ainda que tivesse, deleuziano seria todo o movimento de raciocínio e não apenas uma das designações dos pedaços da coisa; mas, de qualquer forma, “eis que” agora me oriento pela mesma histeria de ser mais realista que o rei: a princípio deixar de me pensar como paisagem, ou sentir que recusaria esse campo por uma vontade difusa de se aproximar de certo pensamento, para então assistir a um recorte de vídeo compartilhado no Instagram em que Deleuze fala, que ironia, sobre cada um de nós como paisagens. Talvez dizendo enfim de forma deleuziana, atravesso por uma última vez seu nome para poder se despedir dele, assim como a cela por onde eu entro em mim. Adeus.) O novelo não exorciza a paisagem porque o que é referenciado pela paisagem não corresponde à moldura posterior que a define, os significados continuam os referentes e os transformam, mas os referentes não estão nem aí, eles transam tudo, eles são de boa. Assim o que muda do novelo para a paisagem é apenas o foco de observação: para contemplar um novelo é preciso um olhar mais amplo, porque os fios que compõem um novelo se prolongam para muitos lados enquanto na paisagem tudo já está enquadrado. A escala de uma paisagem é bem menor, nunca vai tão longe quanto um novelo, e isso não a condena, não, de maneira alguma, pois é com essa restrição que conseguimos conhecer fauna e flora que só nesses prados se revelam. Da minha cela então passar a elas. Antes eu havia fugido da cela e, quanta ingenuidade, por isso mesmo era acompanhado por sua sombra. No lugar, prefiro agora pedir licença, sair sem muita algazarra para que tênues possamos nos esquecer, cela e eu, ela e eu, ele e eu, para que distraídos um do outro possamos sonhar com outros outros. (O que parece ser, do lado oposto, o motivo pelo qual fazemos tanta algazarra diante de uma separação. O medo de esquecer e o pavor covarde de ser esquecido nos impelem, juntos, à produção de um ruído sem fim algum, mas que não pode deixar de soar.) “Prefira a sua paz”. Prefira os silêncios, as músicas e até mesmo certos ruídos – consoante é ruído, não se faz uma língua só com harmônicos vocálicos, não vamos esquecer –, mas escolha-os. Escolha melhor pelo menos: algo que te embale, te envolva, com os quais a gente percorra nossas trilhas por aqui e dê muitas voltas. E, assim mesmo como sentia que a palavra “paisagem” me soasse indesejável, ao escutar de meu orientador que eu precisava reconhecer “o que eu sou” tive que admitir certo sentido a essa ideia a princípio tosca para mim de algo que se “é”, pois se as ideias têm sua origem, como toda significação, na metáfora – se a insistência na literalidade no fundo nada mais é que uma manifestação pelo dever de se levar a sério o que os agrupamentos realizados pelas analogias dizem sobre as próprias coisas, isto é, a atitude de se apostar na metafóra –, e se uma metáfora realiza uma tradução entre propriedades partilhadas, é preciso que eu seja capaz de traduzir essa ideia para compreender o que ela significa na minha língua. A Gab tinha razão, a questão sempre foi a de se recusar a fazer concessões vocabulares. Como ela mesma disse sobre outro aspecto, andamos muito de janeiro para cá, não estamos no mesmo lugar. Pelo contrário, tanto mudamos que nos permitimos voltar à nossa cela e passar dela ao corredor, cruzar o pátio, chegar no jardim e por meio dele conquistar a rua. “Devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno (...) quero o terreno”. Por que sinto como se apreendesse nesse instante a sensação que sentia Clarice ao escrever? Certo pela maconha mas não só. Se quando sóbrio me vejo lidando com etnologia e desejo o posto de Viveiros de Castro Segundo. Por quê? Se sonhar é lindo mas desde que com outros horizontes. O Pedro dizia: quem disse que isso te diz respeito? Há muito mais que fazer com os índios. “A expectativa é a morte da imaginação”. Se preciso renunciar a algo, é à expectiva (se, se, se). Pensei que para tanto precisaria viver fora de mim. Mas nessa ortodoxia da abertura – mais uma das que estive trilhando como um Orfeu inverso, certo de que Eurídice vem, sem olhar para os lados, para trás, quando mais ninguém lhe acompanha – não considerei que a abertura é uma via que exige o interno. E o interno por sua vez carece dos buracos, das cavidades. Um buraco não precisa ser uma falta, ele pode ser uma toca e é, sempre, uma abertura, é o que nos aprofunda. Tampouco um buraco precisa ser de dor, em sua verdade geológica o buraco sequer é fruto do que se perdeu: não havia nada antes que preenchesse uma caverna, foram as coisas que se afastaram para que elas surgissem. Uma caverna é o registro de uma criação, o efeito do que se produziu sobre a própria caverna. Ninguém nos subtrai algo para que sejamos repletos de buracos: um buraco é o começo. Agora posso, enfim, me ter – e posso meter, posso me ter sem dúvida porque posso meter, e porque, depois de conquistar o sexo e tê-la abandonado, posso voltar à escrita. Nem acho que a competição seja tão injusta. Já disse em outros textos como beijar e falar são desdobramento diferentes de uma mesma coisa que fazemos com a língua. Pelo visto o caso da escrita e do sexo não é tão distante: escrever é uma forma de me ter (de meter). Nas cavidades e em todos esses buraquinhos quentes e escuros em que a gente deseja entrar. E por uma pequena dose do que é a loucura no meu léxico: certo fechamento. Às vezes é preciso de certa clausura, precisamos encostar a porta para criar um ambiente agradável, às vezes escancararmos a porta permite que uma ventania venha, bata a porta, o trinco cai e aí sim é que ficamos totalmente fechados pelo lado de dentro, e de vez. Até que venha alguém de fora. Então é preciso certo controle sobre os trânsitos, as trocas, as traduções, não para reduzi-los, mas, pelo contrário, para garantir a sua propagação. Miguel, você precisa ser mais cuidadoso com o que diz para mim. É verdade. Vê como fui cuidadoso com as palavras deste texto? Mas você estava tão bem – tem certeza que quer voltar aos textos e à loucura? “A questão é de qual forma de loucura que se está falando”. Jamais se volta ao mesmo lugar, jamais se banha etc. É porque estou tão bem que é desejável movimentar-se no sentido da volta, ainda que voltar seja impossível. “Se eu estivesse fraco”. “Amigo, se a gente não está bem eu não sei quem está, eu não vejo ninguém melhor que a gente, falando sério, se a gente não está bem o resto está no fundo do poço. Recuperar, uma palavra melhor que o significado, o sentido – recuperar os sentidos – e decidir, por meio de uma reflexão sobre o sentido e a partir dos meus sentidos, explorar o campo da etnologia. Não pela expectativa: pela imaginação. “Estudar conforme o sentido”, procurar a trilha do sentido porque seu mapa é tão vasto quanto o que existe e o quão longe vão as relações, carece só de um pouco de fôlego e truques para levar ao que buscamos. Aprenda os atalhos mas não busque se profissionalizar neles, são eles que devem servir a você e não o contrário. Não se esqueça da sua vocação para os mapas e para as viagens. Era tudo o que eu gostaria de dizer a mim por meio de vocês, ou a vocês por meio de mim. Ou melhor: que eu digo, em outra plataforma. Logo o receberão. Por ora é comigo que se demora.

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No carro, uma vez, a Dora, "se ele", sobre esse menino que era apaixonado por mim, "se ele viesse me pedir um conselho, eu diria para ele te desafiar: você gosta de ser provocado e não confirmado". Por favor, Dora, se ele te pedisse um conselho que você não o orientasse a me conquistar porque não estou apaixonado por ele, melhor seria dizer algo assim. "Se ele me perguntasse o conselho seria meu, quem daria sou eu". Mas, agora, de fato este desconforto diante de um país que não me desafia, não me provoca, tudo para inglês ver; este país em que um nativo cuja língua eu falo insiste em me dizer em inglês: esta tradição é transmitida de geração em geração pelos nossos artistas oficiais que retratam de forma peculiar nossa fauna única; quer dizer, também o kitch pós-industrial pode ser transmitido de pai para filho.

Porém eu gostaria de não apenas ofender este lugar que me recebe. Por que o conhecimento tem de sempre partir e quebrar seu objeto? Por que pensar como se os ricenses estivessem entre locais tolos que não sabem o que fazem e malandros que, sabendo muito bem o que fazem, enganam aos tolos turistas? É muito óbvio que se tem alguém que não sabe o que faz, essa pessoa sou eu. Sentado em uma mesa com seis chinesas, um chinês, um argentino e uma americana da Flórida – todos tão feios, meu Deus, como sou feio por dentro por pensar nisso sem parar –, depois de comer um arroz como os que faço quando há apenas restos na geladeira, apenas aguardando a hora de ir a um parque de águas termais que tampouco desejo visitar mas pelo qual paguei. O problema sou eu, e não você, está claro. E o problema é o Thomas e não eu. Eu aceito, embora então diante da Costa Rica não saiba mais como me mover senão pelo terreno da condescendência, já que me foi impossível até agora me aproximar dela. O pressuposto posicional básico da crítica é a distância desconfiada, e eu desconfio muito quando algo parece querer me convencer de que é, naturalmente, aquilo que desempenha. "Só que o natural não é nada além, Miguel, do que aquilo que foi naturalizado, e o normal o que foi normalizado", depois de eu ter dito ao Chico que fingi naturalidade a primeira vez que contei à minha mãe que sairia com um homem, e ela também ao escutá-lo. Não poderia discordar. Mas a ênfase posta mais no significado lexical, "natural-", que no gramatical, "-izado", essencializa a significação. Como se o sentido não surgisse de processos relacionais e sim de entradas dotadas de conteúdo.

É o meu desconforto com todo esse discurso oficial-reservista: artistas locais, floresta nativa, fauna endêmica e, até mesmo, costumes endêmicos – sim, escutei "endemic costums" –, como ainda festas tradicionais e comida típica. Em primeiro lugar, como já escrevi em outros textos se não me engano, qualquer comida pode ser tipicamente uma bosta, qualquer hábito pode ser endemicamente desagradável e uma festa tradicionalmente idiota. Perguntem aos americanos. Em segundo lugar, me lembro de um professor da Faculdade de Educação que disse que, na primeira vez que ministrou a disciplina de estágio, exigiu que seus alunos elaborassem um relatório; já na segunda, espantado com a tamanha arrogância ou, que lhe serve de sinônimo, covardia dos relatórios entregados, passou a pedir dos alunos uma carta que remetessem com cópia para a escola e educadores que acompanharam. "Se tiverem alguma crítica realmente necessária a ser feita, o farão. Se não é importante a ponto de precisar ser marcada na carta, então ela de qualquer forma não precisa ser feita, nem entre nós." Pois bem. Eu sentiria uma vergonha profunda caso submetesse o que escrevi à leitura dos ricenses. E, se é assim, o que escrevo não vale de nada.

Como se um vulcão em repouso não fosse razão o suficiente para se conhecer um país. Por que tanta ganância? Por que acusá-los de vendidos se sou antes eu quem nada quer além de comprar, e me frusto porque aqui não encontrei os produtos que desejava: uma arte tão autêntica que nem se preocupe em chamar-se de tradicional, uma floresta tão integrada à vida que objetificá-la como "nativa" sequer faça sentido, fauna e costumes distribuídos simbolicamente a ponto de nem mesmo se imaginar a existência de fenômenos não endêmicos? Uma cidade rodeada de bichos-preguiça não é o bastante? Então eu queria mais. Eu queria extrair daqui matéria literária. Me zango porque a Costa Rica não oferece problemas estéticos nos termos estilísticos destas crônicas vagabundas. Sim. Porque meu repertório é muito limitado. Se sou tão incapaz de escrever sobre vales não a perder de vista mas a prender nossa vista, se não dou conta de recuperar essa sensação de estar mais em meio à paisagem e ao relevo que os contemplando. Porque preciso de algum escândalo sociológico. Talvez, e preciso confessá-lo para pagar de vez pelo que devo ser condenado, talvez mesmo sentindo falta das marcas cosmopolitas de uma diáspora e de sucessivas capturas engendradas. Como se lhe faltasse a complexidade histórica da escravidão e dos regimes militares. Ou enfim porque eu precise de alguma autoridade para fundamentar meu olhar. Vamos às veredas. Por onde passou a boiada de Guimarães Rosa. Vamos à Chapada do Araripe. Terra de grande efervescência de arte popular.

A redenção da Costa Rica, e por meio dela a redenção de mim, quem mais precisava de uma. A questão a respeito do que fazemos com o que fizeram de nós. E nenhum pudor em usar uma frase gasta, porque, quando se tem intimidade com a linguagem, sabe-se que frases não caem do céu mas brotam do chão. Frases são como o prestígio enológico antes da entrada da Califórnia no mercado global: se dá por terroir e não por tipo de uva. As frases não se distinguem entre si, senão por meio das circunstâncias que as convocaram. Nesse sentido sim uma frase é também como um feitiço: de pouco servem se não se sabe quando usá-los como e por quê. Portanto: o que eu e a Costa Rica fazemos do que fizeram de nós. Que é uma colônia europeia na América, uma terra de imigrantes, de fato eu já o sabia e não precisaria ter vindo até aqui para frustrar-me com isso. Mas o que a Costa Rica faz e é para além disso. Vejam. Eu a denunciava por sua artificialidade como se mover-se no terreno da ação implicasse sempre dissimulação, eu dizia, isto é: dissimular a ação. Mas se redirecionarmos nossos olhos daquilo que os ricenses dissimulam para como eles agem —"se movermos nossos olhos para o conjunto das práticas dos modernos"; vejam, insisto, de nada bastou me proclamar latouriano pelos quatro cantos se não pude aprender essa lição — então quem sabe serei capaz de perceber que o fato destas reservas terem sido, há 30 anos, fazendas de gado não depõe contra a autenticidade do seu bioma: o que esse fato faz é testemunhar a sua força. E a força da escolha. Dos ricenses. Não de mim que fico aqui lamentando um homem que não amo mais e um país ao qual eu me fecho em nome do gozo fácil de me sentir tanto mais importante quanto, que ironia, mais impotente.

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NOTÍCIAS DE UM POUCO MAIS ACIMA MAS AINDA ENTRE OS TRÓPICOS

 

Não haveria viagem em que eu não pensasse nele. Se estivéssemos bem, namorando, estaria falando com ele sem parar como o fizemos quando ele viajava; se tivéssemos terminado, bem, óbvio que aqui estaria pensando nele; e, já assim, na situação em que estou, nem bem namorando nem terminado ainda, digamos, mal namorando e prestes a terminar, não há outro meio de viajar que senão pensando nele. Porque, se ele fez parte da minha vida em todos os dias dos últimos dois meses, é claro que o guardarei por mais um tempo. E ainda bem. Quer dizer, além de que vivi algo bom, sobretudo que minha vida é feita de acontecimentos, que é cruzada por eles e permeável aos outros que vieram fazê-la comigo; aliás, que ela mesma não pode ser pensada como algo à parte daqueles que, habitando-a, justamente fazem parte dela: isto é, não há como se perguntar como seria sem ele se ele, como todo resto, é o que me permite ser. Eu dizia a Gab antes de embarcar. Disse também que tudo isso era um tanto melancólico, mas, bem; não – não pude nem completar, a Gab me cortou – eu vejo luto e não melancolia. É luto porque você está trabalhando perder uma parte de si sem se sentir perdido por isso. Sim, concordei. Mas vejam que ironia. No avião, me sentia já ansioso porque, lendo Tristes trópicos, antecipava a influência que a sua percepção teria sobre a minha percepção e elaboração da Costa Rica. Vêem a ironia? Não pude aplicar a mesma lição que com maestria há menos de uma hora eu mesmo havia professado. Como se, de qualquer forma, algo não estivesse sempre a nos formar, a nos influenciar, repito, a cruzar a nossa vida. Se não fosse Tristes Trópicos seria outra coisa. Ou eu prefiro por nada nunca me afetar? Se não fosse o Thomas seria outra ideia a me perseguir, seria o resultado do mestrado, seria o grindr. Não vivemos em um laboratório onde se isolam variáveis, fabrica-se o contexto e escolhem-se condições de temperatura e pressão. Somos condicionados pelas friezas, pelos calores e pelas diversas pressões. Somos fabricados pelos nossos contextos. Ou eu acharia melhor não ser jamais suscetível? Então, claro, penso em um e recolho impressões segundo o outro. O que me sustenta: se fôssemos tela branca, qualquer primeiro risco mal feito já confirmaria o risco de se estragar tudo. Mas, quando em meio a muito outros rabiscos, anteriores: cheia de nós, a rede segura o corpo. No entanto, se me for permitido, gostaria até de ir além. A relação que faço entre o pensamento constante no meu futuro ex-namorado e o espírito estético e crítico de Tristes Trópicos é de fato muito acertada. São, não mais quanto ao papel que desempenham na minha vida, mas, em seu próprio conteúdo, ambas ciências da fantasmagoria, formas de se lidar com a presença de espectros. Como esquecer de alguém? Pergunta a colônia sobre a metrópole. Ex é para sempre, não cessam de se dizer Sul e Norte globais. Não posso ver a Costa Rica sem enxergar a colonização por todo o canto porque, como não, a Costa Rica é uma colônia na América. Porque percebo sua falta agora ao mesmo tempo que o evoco sem parar, eu gostaria de agir como se eu não tivesse namorado com o Tô? Queria agir como se não tivesse lido Lévi-Strauss? Como se eu não estivesse onde estou, como se não tivesse se passado o que se passou?

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UMA RECONSTELAÇÃO

 

Poder voltar pra estaca zero e perceber que a estaca zero é a estaca 12.750. "Eu estou mais forte porque olho nos olhos da loucura diariamente e escolho não pular", eu falei. "Isso que você tem com você, isso é só com você, essa intimidade toda, mesmo esse prazer". "De repente ver que o lugar de onde você extraía sua força é o motivo mesmo da sua fraqueza te deixa duas vezes fraco: e a segunda porque, se é isso que te enfraquece, então você não sabe nem mais como ter recursos para lutar". "Não tente controlá-lo, não ache que você pode convencê-lo a não terminar com você". Me disseram essas e muitas mais. Sou grato a ele por tudo que me deu e se fico triste é porque gostaria de continuar essa relação de outra forma que terminando. Porque não há amor maior que a gratidão. Mas terminar também é uma forma de se continuar uma relação: "não existe termo boiando por aí no universo". "Seja mais estruturalista, Miguel, justo você". Me disse uma bióloga celular que é poeta. E me disseram "que orgulho de você, Miguel, você está sendo muito maduro" ao escutar a mesma história, em momentos diferentes, minhas três melhores amigas. Que são poetas. Porque escrevem poesia, sim, mas sobretudo porque poesia é fazer coisas com as palavras – e quantas coisas fizeram me dizendo palavras exatas. "A história é sua, cuide dela com as palavras que forem melhores para você". Ou "se você não está feliz com o que parece real invente uma outra narrativa que te faça sentir bem" na versão chernobilesca do futuro. E também "acontecimentos como esse são os que nos obrigam a recontar a história da nossa sexualidade, porque a transformam", quando eu falei para a Clara que "eu gosto dessa relação porque, em vez de me obrigar a um percorrido pela breve história da minha sexualidade, me oferece uma rota de fuga para fora dela". E então observar as comutações, recombinações. Então nada mais é igual. Então voltar a escrever. Mas como da mesma forma? Se passei por essa relação sempre acompanhado do discurso dos outros. Como escrever sem e senão para esse povo? "É difícil te contar o que aconteceu na última semana porque agora estou são e na última semana estava louco, e os objetos do meu pensamento, que seriam os mesmos, não têm mais aquela relação que os caracterizava, não posso recuperá-los". Acredito que falei assim mas sem os objetos oblíquos. Devo ter dito "que caracterizava eles" e "não posso recuperar eles". Não posso recuperar ao certo. Gostaria de ter gravado tudo. Gostaria de ter gravado até minha entrevista de mestrado. "When you give an advice so poethic it genuinely shocks you". Um reels do instagram. "O ponto de vista da saúde sobre sua relação com a doença não é o mesmo ponto de vista da doença sobre essa relação." Uma frase de aula. De dois anos atrás. A hora em que isto se põe, em que o céu baixa, a cortina desce, certas coisas emergem, a anunciação, o momento em que todos regressam, uma outra forma de reconciliação, de consideração. "Considerare, siderare, essa palavra, considerar era olhar os astros". Disse a chata da Chauí em um reels, com razão. Essa reconstelação: a hora de reviver a breve história da nossa relação. João. Feijão. Pão. Caminhão. Nunca evite o fácil, nem mesmo as rimas fáceis. Vá de encontro ao fácil e se estoure com ele. Não pense na separação, não despedace o coração. Que se lasque o difícil e todas as fórmulas modernas de sucesso estético, pessoal e profissional. O amor da gente é como um grão e o sentido absurdo que pode vir a fazer uma canção. "Será que todo enunciado guarda uma verdade por dentro que pode ser experienciada?". "Ah, antropologia, filosofia, 'penso logo existo', curto muito essas paradas". "Só sei que nada sei", eu mesmo não sei de nada. Tô, meu amigo meu companheiro de curta estrada, muito obrigado por essa caminhada a gente nasceu pra isso mesmo pra se apaixonar e quebrar a cara as rimas foram criadas para serem usadas.

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PAGINA DE DIÁRIO


Vejam o que se passou na sessão de terapia de que acabo de retornar.

No domingo, deitado na cama e ainda melado, senti uma vontade profunda de algo específico sem saber o quê. Assim mesmo. Senti um grande desejo, um desejo de grávida (se a ideologia cromossômica me conceder), mas de comer alguma coisa sem qualquer objeto que correspondesse a essa coisa que eu não era capaz de evocar.

Quando fui ao banheiro, o Thom, que sempre toma a iniciativa de primeiro ir se lavar, não estava mais lá. Já tinha descido as escadas para a cozinha onde – poderia imaginar, mas não sei se o fiz, porque, por distração ou confiança nele, já não me preocupava com aquela sensação passageira de que não havia o que correspondesse à minha necessidade de querer algo – ele nos preparava o café.

Sei que logo desci quando, lá de cima, ouvi um "Mi" me indicando que o café estava pronto. Na sala, ao ver que a mesa estava vazia, falei:

– Você botou lá fora?

– Mais gostoso né?

– Está sol.

Era óbvio que a mesa tinha que estar lá fora, do contrário por que ele teria me gritado "Mi", mais nada, senão para me dizer que o café estava pronto e poderíamos comer? Mas não. Quando a gente gosta de alguém a gente pergunta o óbvio, porque o amor é retórico e pleonástico. Descer pra baixo escadas e perguntar do que eu já sei: eis a coreografia do amor.

Um pouco depois, sentados, comendo e tomando sol, eu lhe disse:

– Tem uma frase de Perto do coração selvagem, que é um livro que eu ainda não li, em que a Clarice diz "liberdade é pouco, o que eu quero ainda não tem nome". Eu estava com uma vontade específica de comer não sei o quê, mas o que eu precisava era exatamente isso: pão de azeitona tostado com queijo e ovo...

Vejam só: assim como eu havia dito à Juliana, minha analista, que me estranho ao chamar o que estou sentindo pelo Thomas de amor, porque recorro a uma abstração universal para explicar o que há agora de mais singular e concreto – eu não sei que nome dar para algo que só acontece uma vez –, assim também aquele café que ele me preparou foi o melhor objeto concreto que poderia me aparecer para um problema abstrato que eu mesmo tinha inventado.

E isso se chama Amor.

Mas vejam outra coisa, mais. Na concepção desse texto, eu não empregava a palavra amor até lembrar da frase de Perto do coração selvagem, quando se daria o salto que tive em minha sessão. Em sua construção, entretanto, não pude evitar que essa palavra surgisse já ao falar com o Thom, antes da hora em que previa escrevê-lo.

Todo cuidado é pouco para não nomear o amor precocemente. Mas, uma vez que a hora é chegada, não adianta: aonde quer que se olhe, lá ele aparece.

Ou, para lembrar de outra frase literária: "amor desse cresce primeiro, brota é depois".

Ou, em uma saída pela psicanálise selvagem: eu não sabia admitir o que eu queria e, afinal, o que eu queria eram os ovos do Thom.

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MANIFESTO

 

pelo direito de usar a palavra

literalmente em modo figurado

literalmente a única palavra

à qual esse direito não é dado

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Por que o signo? eu lhe pergunto apavorado, pergunto tremendo pelo fato de haver existido tudo isso, de tantos entes existentes terem se engajado na transformação do mundo e nesses termos, com carros e muros de chapa de aço, e pichações, inscrições sobre os carros e as chapas de aço, por tudo isso não fazer nenhum sentido e no entanto se organizar de acordo com alguma lógica, e por que esta lógica é o que eu lhe pergunto desesperado, vulnerável, eu pergunto à beira do surto, frágil porque já entrevejo o enlouquecer inevitável, triste, eu lhe pergunto fraco, desacreditado; e ele crente ri, ele forte, ele potente me olha – ele é mesmo capaz de sustentar o olhar e rir meio ensandecido, mad hatter, chapeleiro maluco com o sorriso do gato, sorriso do coringa mais real que o ator, porque o coringa ainda é vivo e o ator se matou, o riso do coringa personagem que sobreviveu ao seu criador, que se apossou dele, assim ele olha para mim e primeiro ri, suponho eu que por seguir a honra de guerra, suponho eu que alguma parte da honra de guerra afirme que se deve prezar por alertar os inimigos com um sorriso quando se vai devorá-los, que por respeito antes disso é bem no fundo dos seus olhos que se deve mirá-los, e então sua bocona se abre, quando já não muda, vocaliza Por que não o signo?, e eu percebo que era do meu lado, não do deles, que tocava o canto fúnebre do circo.

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6 de julho de 2025

 

De fato a escrita guarda muito em comum com a guerra. Hoje me deito em paz não tenho nada a escrever. E para o dia de amanhã espero estar em festa.

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BRILHANTE COMENTÁRIO DO TOTÔ AO ÚLTIMO TEXTO

 

Não o comentário em seu estado bruto, mas a leitura que eu fiz de sua leitura. Convencer-se de que, só porque acessamos algo por escrito, podemos reproduzi-lo com mais facilidade, é apenas um daqueles muitos sacrilégios que cometemos em nome da escrita: como se uma fala fosse um mero amontoado de palavras, e não, antes, uma ação composta por forças e intenções. Li o que ele me escreveu sobre o que leu mais ou menos assim:

Amar é a cura da loucura porque, se o modo da loucura é o solipsismo, o amor não se realiza sem o exercício de uma linguagem comum. Por isso é a ponte possível, necessariamente, para um eu de si doente.

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5 de julho de 2025

 

Por que não escrever? Afinal preciso me cuidar de muitas formas. Poderia escrever “de alguma forma” mas apenas uma não seria suficiente. Quase escrevi “de todas as formas” mas todas me seria impossível, me causaria ainda mais sofrimento procurar me cuidar totalmente.

Para me cuidar suficientemente então eu escrevo. Eu que cinicamente ataquei a escrita. Ataquei para que não confundam o que a escrita pode vir a produzir com o louvor a ela como quem louva um tanque de guerra. Porque li de perto (sim, eu li) tudo o que destruímos em nome da escrita, e li muita coisa feita para destruir.

E vi muita coisa feita para destruir. Porque vivemos em meio à destruição. É preciso muita força para não ser destruído. Eu percebi isso hoje. Que não posso ser fraco não. Ontem falei para a Clara: minha irmã é meio fraca da cabeça, ela fica vendo reels de influenciador que tem o lobby da indústria do transtorno alimentar por trás e fica querendo ter um corpo irreal. Mas agora eu percebo que minha própria cabeça foi tão raquítica esse tempo todo, porque aceitei todas as ciladas que fizeram para mim. Aceitei a hipocondria, a repressão sexual, a paranoia, a mania, a ansiedade. Aceitei tudo e ainda vestia a sua camisa.

Não posso mais dizer que sou hipocondríaco. Nunca mais. Porque a cada vez que eu o disser terei aceitado o hipocondríaco que fizeram de mim. Terei aceitado algum lobby que sempre há por detrás de alguma coisa, terei sido profundamente fraco da cabeça e do corpo, de que a cabeça é uma parte. E o pior: terei feito isso vestindo a camisa, terei crido que fazia a coisa digna, nobre, bela, certa. Sou hipocondríaco, diria como dizia, buscando louros pela confissão mais honesta.

Mas, se – na mesma conversa com a Clara, eu dizia a ela também sobre como amadurecer e crescer é relativizar a imagem de uma pessoa formada a ponto de enxergar que todos na verdade aprenderam à sua maneira a viver sem enlouquecer, e que ter uma crise de pânico não me fará ficar louco, assim como todos descobrem como conviver com as próprias aflições e angústias –, então também aprenderei a conviver com as doenças.

Escrevo esse texto profundamente perturbado porque acredito que há um cravo no meu olho. Talvez terei de conviver com um cravo no olho. No pior dos cenários, terei de fazer uma cirurgia para extrai-lo ou senão ficarei cego do olho esquerdo. E? Tanta gente cega que é boa do coração. O importante é não adoecer o coração.

“É só do coração dizer não quando a mente tenta nos levar pra casa do sofrer”. O Fran não entende esses versos. Me disse que não gostava dessa dicotomia barata entre mente e coração. Já eu acredito na tremenda força das metáforas consolidadas. “Um dicionário é um cemitério de metáforas”, foi a única frase que gostei da peça média do Gregório Duvivier. Sim. É mesmo. Uma palavra, em seu sentido literal, é uma metáfora muito convencionalizada. A começar pelo próprio fato que o sentido do “sentido literal” é já uma metáfora. Literal quer dizer “ao pé da letra” e as letras não tem pé, ao menos literalmente, quer dizer, ao pé de seu próprio pé.

“É só do coração dizer não quando a mente tenta nos levar pra casa do sofrer”. Meu coração e minha mente vem se profissionalizando a cada vez mais em sua luta, às minhas custas. Minha mente encontra armadilhas cada vez mais perversas para me levar pra casa do sofrer, e meu coração dia a dia aprende técnicas de desarmá-las que são, devo dizer, muito belas. Só tenho a agradecer ao meu coração. Gostaria de acreditar que agora é a ele que minhas mãos correspondem. À minha mente não.

Desejo não esquecer essa verdade. Pois há mais esta armadilha: minha mente se recusa a lembrar das coisas bonitas que meu coração fez para nos salvar. Nos salvar: o coração é tão generoso que busca salvar até a mente, e ela é tão ingrata que prefere autodestruir-se a agradecer ao coração. Assim, esquecendo de tudo o que ele faz, a mente, tirana, espera que seja capaz de triunfar sobre o coração, despossuído. Mas a força mesma do coração vem da sua despossessão. E para que jamais nos demos conta disso nossas mentes fazem ensinar nas escolas que não se pode rimar em ão, para que aceitemos e não corramos o risco de perceber a intimidade profunda entre o coração e a condição subversiva daquilo a que lhe condenaram, a despossessão.

Para sofrer menos, então: se eu seguir carreira acadêmica, que eu o faça em nome do meu coração. Que seja uma questão de bem viver e não algum projeto vil da minha mente, alguma coisa egoísta dela de si para si. Egoísta, narcisista, capitalista, colonialista. Se escola fosse bom mesmo nos ensinariam a não rimar não em ão mas em ista. Ou pelo menos nos ensinariam a banir essas palavras da lista.

Acredito que se eu estudar conforme o meu coração sofrerei menos. Estudar porque assim manda o meu coração. Que nada mais é do que uma metáfora muito consolidada para dizer que eu devo estudar na medida em que isso faça sentido. Não devemos ficar nada surpresos se nos lembrarmos que, na equação clássica, de fato é o sensível, e não o inteligível, o que mora junto ao coração. Uma dicotomia barata, pode ser, mas tudo o que é bom na vida vem de graça.

No entanto, ao fim nos perguntamos: o quanto de mau já não foi feito também em nome do coração? Em nome do sentido e do sensível também não se justificaram quantos crimes das nações? Como no caso da escrita, é claro, só falar em coração não bastará para nos impedir ou redimir de nossa excessiva violência. A medida justa, o tom só quem o dará para mim será o meu próprio coração. A particularidade do corpo, do meu corpo, será a minha salvação. Terei de confiar nele, como agora confio na minha escrita, que, apesar de ser destro, acredito que venha dessa região próxima ao meu ombro esquerdo, em direção a ambas as mãos, e irradiando, e povoando todo o resto.

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DE UMA NOTA SÓ

 

O Tomé me disse que eu tenho uma coisa de adicto

e desde então eu tenho vontade e medo

de jogar no Tigrinho

Alguém me disse que o último livro de poemas da Adília Lopes era

[uma coleção de pensamentos

A pessoa não me disse exatamente isso

mas agora é assim que eu entendo

e acho bonito

Se eu o tivesse feito a tempo

também assim teria sido o meu livro

Mas agora já é tarde

Todos os meus versos antigos

sinto como se fossem pensamentos perdidos

Vi ontem uma influencer dizer que

embora se diga

que não se possa fazer um poema

com uma única rima

assim o fez Caetano nos versos de Cajuína

E eu concordo

Nesse momento mesmo poderia dizer que os meus ouvidos

guardam para si como que um som favorito

predileto entre todos, preferido,

escolhido

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UMA CANÇÃO É UM POEMA QUE SABE O QUE FAZ

 

Se, como disse Saussure,

a poesia é a primeira ciência da linguagem,

a canção é sua mais profunda consciência

– da poesia, da linguagem

e de sua própria ciência –

e de muitas mais consequências

de sua abordagem:

sobre as quais estou muito certo

(so sure)

embora não preste para descrevê-las de modo correto

num texto escrito.

Portanto fechem essa página

– chega disso por hoje –

e me imaginem cantar bonito

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GÊNERO: CARTA DE SUICÍDIO

 

O conceito de "capital cultural" nos obriga a considerar algumas consequências do termo polissêmico "riqueza". Riqueza de quê? Pois bem, vamos agora a apenas uma dessas consequências.

Muito já se disse sobre o princípio aristocrático do deboche aos "novos ricos". E sabe-se bem que o problema do Brasil não é nem jamais será a classe dos novos ricos, dos que passaram a sê-los, mas a classe dos velhos pobres, dos que nunca deixam de sê-los:

"Abro a porta, vejo a fumaça no asfalto
O Sol me cega, eu sigo em frente
Encaro o Sol, deixo meu rastro para trás
O dia corre assim veloz
O dia corre além de nós
E eu vou me desviando das aeronaves
Que aterrissam a todo instante
Morrer já não parece novo, já não assusta
Desço a Rua Augusta a 120 por hora
(...) O Sol nas bancas de revista
E na capa da revista
Sombra, grana e água fresca
Vejo novos ricos
Vejo velhos pobres
(...) As meninas dos Jardins gostam de rap"

No entanto talvez ainda não se tenha dito tanto sobre o princípio aristocrático, em outro sentido todavia análogo, de um possível desprezo aos "novos ricos" na extensão cultural que se dá à ideia de capital: "os novos cultos". Uma questão que já se enfrentava na década de 1940 na Europa Ocidental, escreve Adorno no Fragmento 32, "Os selvagens não são homens melhores", de sua Minima Moralia:

"Entre os estudantes negros de economia política, os siameses em Oxford e, em geral, entre os laboriosos historiadores da arte e os musicólogos de origem pequeno-burguesa, pode encontrar-se a inclinação e a prontidão para associar à apropriação do que estudam, do novo, um enorme respeito pelo estabelecido, pelo vigente, pelo reconhecido. A disposição anímica intransigente é o contrário do estado selvagem, do espírito de neófito ou dos 'espaços não capitalistas'. Pressupõe experiência, memória histórica, nervosismo de pensamento e, acima de tudo, uma substancial dose de tédio. Sempre foi possível observar como aqueles que, com sangue jovem e total candura, se integravam em grupos radicais desertavam, logo que se apercebiam da força da tradição. Há que ter esta dentro de si para a poder odiar. O facto de os esnobes mostrarem um maior sentido pelos movimentos vanguardistas na arte do que os proletários lança também alguma luz sobre a política. Os epígonos e os recém-chegados têm uma angustiante afinidade pelo positivismo, desde os admiradores de Carnap na índia até aos corajosos apologistas dos mestres alemães Matthias Griinewald ou Heinrich Schiitz. Má psicologia seria a que admitisse que aquilo de que se está excluído desperta apenas ódio e ressentimento; suscita também um absorvente e impaciente tipo de amor, e aqueles que não foram arrebanhados pela cultura repressiva facilmente se tornam a sua mais néscia tropa defensiva."

Depois de uma leitura tão indigesta, é a hora de nós nos perguntarmos, em nossos corações, se também nós aceitamos apenas o ódio dos subalternos, que nos devolve a imagem de nossa própria relação com o que foi nos desagradavelmente legado; se, então, não estamos dispostos a aceitar também o amor dos subalternos, um amor de que sentimos não precisar, pois nunca se ama tudo aquilo que não precisamos jamais amar para ter.

O que se chama de capital cultural.

Se nos indagássemos no fundo de nossos corações, descobriríamos que mesmo o nosso ódio à tradição é estéril e não serve de nada. É a mais forte exclusão, é a mais perversa promessa: estabelece-se que, a partir de agora, dele só poderão participar aqueles que sequer possam a vir conhecer o que chamamos "nossa tradição" (como se por direito, mas por privilégio e, sobretudo, absoluta ignorância); pois os que, conhecendo-a, não travarem com ela a mesma relação que travamos nós — aqueles que nunca precisamos conhecê-la, uma vez que dela cremos que surgimos —, esses talvez não irão detestá-la da maneira que a alguns parece adequada, recomendada, correta:

"Os acertos dos privilegiados devem valer menos que as tentativas equivocadas dos despossuídos. Pois o privilégio paga inclusive por isso: acertos."

Não, enquanto classe, a única boa contribuição que seremos capazes de dar ao mundo é a traição ou o suicídio. Não nos termos do que achamos que deve ser uma traição ou um suicídio. Nos termos dos outros, nos termos da exigência de traição ou de suicídio que nos for feita.

O que pode envolver levar de volta todas as chicotadas já dadas:

"Dá neles, Damião!
E devolve o hematoma
Bate mesmo, até o coma
Que essa raiva, passa nunca, não
(...) Dá neles, Damião!
Mesmo que peçam clemência
Faz que é tua essa demência
Faz pesar a consciência do plantão
Dá neles, Damião!
Mira no meio da cara
Dá com pé, com pau, com vara
Bate até virar a cara da nação"

— Nesse caso, estaremos dispostos?

Mas, e o pior, se não só nos for preciso pagar e sofrer, isto é, afetar-se na economia do ódio, se também nos for pedido o que nunca poderíamos ter previsto: amar, nos moldes de um amor "neófito" que, pelo gesto de uma pura distinção, detestamos — também a isso estaremos dispostos?

Abrir mão do nosso "gosto", de um gosto tal que pode se dar ao luxo inclusive do desdém, desprezo ou descaso aos próprios objetos que lhe são inerentes, não: isso seria muito perigoso.

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POEMAS QUE EU JAMAIS SERIA CAPAZ DE COMPOR MAS ESCUTO EM UMA CONVERSA DE TELEFONE NO ÔNIBUS

 

Deixa disso

Ainda mais arma branca

que não tem fiança

Com prejuízo a gente já acorda todo dia

seja de dinheiro, o que for

Não vai querer adiantar a morte de um bezerro

por conta de uma dívida

Te falar uma coisa

já viu algum ladrão aposentado?

Bandido não aposenta

A gente não nasceu pra isso

Você vai e mata o cara

o cara é da facção

alguém vai comprar a briga do cara

Você vai lutar contra um exército?

Deixa quieto

. . .

 

Quais feitos

nos fará

o mês de maio?

Para quais fatos

o mês de maio

nos trará grandes

frutos?

O mês de maio 

sonha com que

feitiços?

E sua luz,

essa imensa

e tamanha luz

que maio recebe

aqui

no hemisfério sul,

nos urde quais

planos,

filhos, filmes

em segredo?

. . .

 

Não sei ser "eu" no WhatsApp. Sou no WhatsApp inevitavelmente uma estilização de "mim". A exterioridade da escrita: estou sempre "me" representando, respondendo como se eu fosse "eu", e isso é muito difícil, porra, não dá jeito, eu não tenho jeito – eu, sem aspas, sem dúvidas não tenho jeito.

Tudo que me resta é a afetação mais artificial possível de uma naturalidade (para que acreditem mesmo que nas mensagens "eu" sou eu) e três pontos que alinho num suspiro reticente (para sair logo, e breve, o quanto antes, de cena)...

E acabou o poema.

. . .

 

Tenho medo de quem não tem medo de ficar maluco,

somos possuídos por nossos próprios significados,

por acaso vocês não percebem?

Somos reféns daquilo que dotamos de sentido, 

mas vocês ficaram loucos

e se dão ao luxo de não ter a paranoia,

quer dizer o auto-monitoramento

que é relegado a fracos,

sitiados e poucos.

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SÃO PAULO

 

Para mim o poema de Régis Bonvicino

é apenas uma das muitas saídas

que sim você guarda

escondidas

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MUITO OBRIGADO

 

No banheiro de um café colombiano tocado por um casal gay na zona rural do município de Guararema, no interior do estado de São Paulo, vejo um quadro em cima do vaso. Trata-se de uma impressão barata, em lona, de letreiros esteriotipicamente estilizados: “Café”, “Hotel”, Diner”; até Moulin Rouge. Começo a pensar que estou ficando louco. Percebo que é quase sempre assim: símbolos me dão pânico. A sensação de ter que sustentar a sua convencionalização — uma vez que, relativizados, passo a estranhá-los e ganhar consciência de sua arbitrariedade — leva à minha própria percepção enquanto alguém também profundamente arbitrário, que sustenta símbolos e convenções só para si. Um esquizofrênico, ainda mais diante de símbolos do capitalismo.

Mas a minha loucura nada mais é que a minha forma de pensar individualmente o que se chama, coletivamente, de “crise existencial” – algo que acometeria a “todos os homens” no ato de tomar consciência de sua dimensão “humana”. Ora, se penso no sol explodindo não penso que estamos danados, penso que não saberei mais sustentar o peso da reprodução social da vida se tenho consciência desse fato. E logo ficarei doido.

No entanto não quero produzir um texto de lamúria, quero produzir uma intervenção. Se, de uma forma ou de outra meu destino é a esquizofrenia, permitam-me ser propositivo e apresentar-me-lhes uma solução. Meu medo metafórico da loucura é também literalmente louco porque é um problema do qual sua lógica não permite saída: sendo uma problemática propriamente particular da minha ficção individual, não posso sair dela por qualquer concepção também individual. Nem, tampouco, do “coletivo” pensado por sua vez ele mesmo como um organismo colossal mas ainda unitário, todavia me é possível fugir desse esquema pela relação, pela participação, pelo compartilhamento. 

Assim agradeço a todos aqueles que são a condição necessária para que eu possa viver sem enlouquecer e encerro por aqui o meu lamento.

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DE VOLTA AO CHILE

 

Sinto saudades do Chile como quem sente saudades do futuro. Porque o Chile é o país do futuro. Não como um slogan, não como quem põe fé no progresso da evolução – pelo contrário, porque o Chile foi laboratório do neoliberalismo nos anos 70 e imagino que, após o capitalismo acabar consigo e com tudo, repovoaremos o mundo um pouco como os chilenos repovoaram o Chile. Sinto saudades do Chile porque se lembro de lá sei que a terra arrasada há de ser no entanto também uma terra reabitada, assim como quero muito acreditar que, apesar de seu fim, ainda será possível viver no mundo.

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IMPRUDÊNCIAS

 

Imprudentemente

pedi para a atendente descartar meu bilhete único antigo

com quem eu tinha tantas memórias boas

Imprudentemente eu voltei a escrever poemas

sem ter voltado a ler poesia

não tenho mais uma técnica do verso agora

Não sei se sequer tenho uma técnica de vida

que fosse capaz de me inserir entre os naif

como um artista

Embora tenha meu bilhete único novo

com quem eu tanto me empolguei que

imprudentemente

me livrei de um grande amigo

Meu companheiro lindo

aquele cartão não me saía do bolso

agora num saco de lixo

jogado entre outros

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ALGUMAS OBSERVAÇÕES

 

Ninguém fala em prosa:

uma fala é um fragmento

que lembra mais um verso,

um epigrama, que um parágrafo

Eu tenho estado sozinho

tenho pensado mais do que falado

e isso me tem jogado para a prosa

(a prosa é um discurso solitário)


Esse poema mesmo não surgiu para alguém

Surgiu no oco da minha cabeça louca

Por isso me desculpem essa sonoridade assim meio torta

rimas óbvias para orelhas moucas

. . .

Anteontem sonhei que fazia sexo oral na minha avó


Tenho tido dificuldades com os sonhos. Não é nenhuma dificuldade especial com o sono. É que, por força de leitura, acho que me convenci do animismo, me convenci de que tudo funciona com base numa certa lógica do espírito, quer dizer, do esprit francês, tanto da mente quanto dos fantasmas. Sonhar para mim não é desligar meu pensamento. Quando sonho penso demais e sem fronteiras e isso me custa muito, é algo que me cansa, me perturba. Hoje, enquanto delirava em vigília, pensei mesmo que isso pode se dever à alucinação inevitável que sofre uma cabeça tão ativa quanto a minha quando fecho os olhos, com a ação motivada daquilo tudo que apresenta resistência ao consciente. Pensei isso em vigília. "O onirismo psicótico caracteriza-se pela perda da distinção social entre alucinação e realidade", diz o google. Se eu sustentar algo que pensei em vigília terei me tornado um psicótico? De médico e louco todo mundo tem um pouco.

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NUNCA SE PODE FALAR DE MÚSICA E DE CINEMA

 

Andava refletindo no meu último banho sobre esta escolha que todos nós, hipsters de classe média, temos que fazer, por volta dos 20 anos, entre uma predileção pela Música ou pelo Cinema e, de repente, me peguei pensando na escolha que temos de fazer, nós, aqueles que se prometiam a vida de escritor, entre a vida e a escrita. Não me arrependo de ter escolhido a vida. No entanto restará sempre aqui o que de outro modo poderia ter sido.

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30 de dezembro de 2024


Após cruzar a ponte sobre o Rio Real, vindo de São Cristovão, antiga cidade de Sergipe d'El Rey, há alguns poucos quilômetros até que se entre na Bahia. Com eles, vivemos em Sergipe sob a mesma baixa pressão do resto do litoral nordestino. Não me parece um fenômeno tradicionalmente atmosférico. Segundo a ciência atmosférica tradicional, perto do mar é onde se encontram as maiores condições de pressão. No entanto, do Rio Real para cima, em todo o litoral do que sempre se chamou de Nordeste, isto é, excluída a Bahia, tudo está como sob o efeito de uma leve descompressão. Na Bahia não. Assim que se cruza a fonteira tudo é imediatamente mais denso. Não adianta dizerem que minha escrita é mistificadora e artificial. Não me ofendo. Mistificadora e artifical é a própria Bahia que minha escrita apenas imita, e a Bahia tampouco deveria pela minha escrita se sentir ofendida.
Estando já pela terceira vez aqui, tendo conhecido Salvador, Santo Amaro, Cachoeira, boa parte do litoral norte e tendo voltado um pouco já para sair — para ir ao Ceará –, desta vez, a Bahia com B maiúsculo me importa menos. Pode ser que ao fim tudo isso tenha sido uma função do meu jeito de entrar aqui desta vez, por de fininho não ter surpreendido a Bahia de forma que ela pudesse se armar para me receber, eu, esse bicho noturno que invade a casa e fareja o seu odor estonteante, pesado. Na minha caça esta é uma preparação sutil, algo que talvez não seja, mas de qualquer forma serve agora para me ensinar que o que eu buscava na viagem pode não se revelar para mim, e que assim eu tenho que procurar ativamente por outra coisa. Ou, se não outra coisa, uma outra forma de relação. Pois e se nem as coisas nem as relações estivessem dadas? Teremos que inventá-las.
Eu sequer sei se existe uma bahia com b minúsculo. É provável que sim e eu jamais venha a acessá-la, ainda que assim que pela primeira vez em que eu tenha posto o pé no aeroporto de Salvador, o Chico tenha me avisado: começa a ditadura da imanência. "Assim é" ou "É a Bahêa". Curioso que o pós-modernismo tenha me convencido que Transcendência se escreve com T maiúsculo e se deve odiá-la e imanência se escreve com i minúsculo e se deve amá-la, e nunca o contrário.
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HOJE

 

Ontem, escrevia

No estado de vigília, a gente não sai da gente, a gente pra sempre mora num não morar na gente. Nada ganha pregnância. Se não durmo profundo, continuo com um resíduo de mim mesmo do qual devo esquecer se quero impressionar-me por alguma outra coisa. Se quero me sentir na Bahia preciso esquecer profundamente meu dia de ontem, de anteontem, e o de antes de antes de ontem, e o de antes ainda – na Bahia, em Sergipe, em São Paulo, em Minas –, preciso dormir fundo. Enquanto não durma fundo, continuarei nunca tendo saído de São Paulo. E eu preciso não me levar junto. Para que eu consiga me sentir verdadeiramente em outro lugar, preciso estar desacompanhado de mim. Mas talvez para isso seja mais preciso vestir muitas roupas que me despojar.

Mas e se de repende eu não quiser mais me sentir verdadeiramente em outro lugar? Se eu quiser me carregar sempre, levar-me a muitos lugares e, não estando neles, ver no que dá?

Talvez seja preciso então não sair mesmo do lugar, em lugares diferentes. O que me parecera tão assustador, que tinha me parecido a maior imobilidade possível. Se nem saindo do lugar para sair do lugar, então como? Pela habitação intensiva desse lugar. O máximo de possibilidades que eu puder extender nesse lugar em que estou. Para viajar mais e melhor: não trocar de mim, mas me levar, a fim de me obrigar a mudar. Apenas então terei mudado, sendo eu mesmo de formas diferentes.

Embora sinta sim algo como uma nostalgia das minhas antigas obsessões. Depois que se foi maníaco nada mais tem o colorido daquela noia. Como um vício. Meu pai tinha me dito: você vai viajando e vai querendo viajar mais e vai voltando mais apático. Até que as próprias viagens se me tornam apáticas.

Ou de repente eu esteja vivendo outra forma de luto. Não da mania, não da obsessão, nem da viagem,

quando me interromperam – estava um pouco afastado, sentado com o caderno no colo e os pés no mar – para brindar algo com uma taça de espumante. Brindei, tomei muito mais, me embriaguei, e agora nada daquilo mais vale.

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