Cumpre realizar uma observação mais atenta das metáforas que tenho empregado de mim para mim no solilóquio agudo que tem sido a história das nossas paixões, ainda que tenha tentado dilui-lo em mensagens digitais, um tanto em vão, para conseguir elaborar esta que me acomete agora. Percebo que tenho falado como se sobrevivesse apenas com o auxílio de aparelhos – "estou de cama tomando remédio", "estou respirando por meio de tubos", "estou vivendo de soro", "estou fazendo transfusão de sangue" –, como se minha existência tivesse se tornado um desafio médico, como se uma profunda desordem orgânica me tivesse afetado; no entanto, respeitemos a especificidade de nossas metáforas, tentemos reconstitui-las: essas doenças a que nos referimos não são de qualquer ordem, conotam todas uma disfunção endógena – em vez de uma invasão patógena –, elas revelam que a reprodução normal (entenda-se, normativa) da vida não se faz mais possível senão por meio de pontos de apoio emergenciais. Pois bem: se os tenho apresentado com tanta assiduidade, que pontos são esses? Quais máquinas são essas que têm me sustentado? Não encontro alguma. Vejam que cruel. Recorrer a uma escrita que, servindo de exame, pudesse providenciar um diagnóstico do meu quadro. E no entanto essa escrita, não contente em discorrer sobre ele, quer pô-lo em ação: meu próprio texto, à minha revelia, encena o meu desespero, incapaz de fornecer a imagem que busco, fraco demais até para mostrar que fraqueza é essa afinal, assim como se recusa a indicar que é isto que, apesar de tudo, tem me mantido vivo por outro lado. Mas suspeito estar encontrando uma pista para o enigma. E se não se pode encontrá-lo por meio de um exame porque o procedimento laboratorial é analítico e o tipo de estado em que me encontro não é descritível nem discritível (se me permitem o neologismo: não pode ser tratado de forma discreta)? Há um contínuo entre o mal que me acomete e a enfermeira que me assiste: são os dois lados de uma paixão, que sempre tira para dar. A assimetria da troca é o que dissimula a atuação comum por trás de cada uma dessas etapas: é como se, não podendo conceber o que se passa entre o momento de dar e o de receber, tivéssemos de recorrer à presença de um terceiro elemento, literalmente, a qualquer terceiro, um corpo estranho, um tubo, uma bolsa, um catéter, um respirador, que, então, explicasse como pode ser que não reconheçamos o estado em que estamos diante daquele que estávamos. "Senti que está faltando alguém, que estranho, a gente está mesmo só em quatro?" Já hão de ter sentido isso em uma viagem de carro. Claro. Porque na viagem como nas paixões há sempre algo que se transforma, e em nossa imaginação tão limitada não concebemos transformações internas a sistemas fechados – temos que introduzir um ser alheio, um invasor que provoque os processos e possa ser porventura culpado pelos estragos. Mas não é necessário e muito menos verdadeiro, reparem, é como eu escrevia logo acima, apenas a assimetria da troca que gera em nós essa impressão, porque o que damos não é jamais da ordem daquilo que recebemos, por mais que tentemos equipará-los, e é o risco de um desbalanço excessivo inerente a essa aposta que nos faz sentir tão desequilibrados. Apaixonar-se é, ao que me parece, e embora eu não esteja apaixonado – estou seguramente (ou seja, para seguir uma via segura de conceituação) emocionado, e por isso mesmo instado a refletir sobre a paixão com interesse mas sem as deformações que sofremos quando ela invade do hospital nosso quarto, e, pouco lhe importa, derruba todo o maquinário, vira tudo de cabeça para baixo, depois ri constrangida e começa cheia de pressa a arrumá-lo –, justamente porque não me encontro assim, me encontro, para recuperar um termo do meu penúltimo poema (o anterior àquele sobre a velha que morreu), "encantado", de tal forma que implicado mas ainda distante o suficiente para dizer que apaixonar-se é: aceitar, e senão até buscar, a tensão dessa situação em que o que nos é devolvido nunca é da ordem daquilo que nos é tirado. Se estamos em paz com os lugares em que nos metemos (e em que metemos), sequer buscamos comparar o que fazemos por alguém e o que fazem por nós porque o acordo implícito que firmamos ao entrar em qualquer relação é que os apaixonados dão e recebem gestos sempre incomensuráveis. Abre-se mão da capacidade de respirar com os próprios pulmões com a certeza de que em troca jamais poderiam nos oferecer esses pulmões recuperados. Se fosse assim seremos autônomos. Mas apaixonados somos heterônomos. E nossa própria respiração, nossa própria circulação de sangue passam a aparecer para nós como atividades que requisitam um alienígena. Uma forma menos romântica e mais ficção científica, por isso creio que mais adequada a esta escrita clínica, de se chamar o "outro". Com uma certa dose de medo de estar me apaixonando de novo, parece ser assim que traduzo a ansiedade desse estado: não me sinto pouco assistido, não estou à beira da morte, mas pode ser que isso com o qual eu me mantenho vivo sei lá por que meios seja um efeito da relação com o mesmo ser a quem eu entreguei sei lá que algo. Não sei o que lhe darei exceto o cu e não sei o que receberei exceto muitos centímetros de pica – dois termos que evidentemente não podem ser convertidos entre si por qualquer taxa de câmbio. Mas há a previsão certa de que haverá uma incerteza imprevisível a constituir os fluxos do nosso mercado.
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