Porque amar é desarmar. Sobretudo quando o outro tem razões para nos atacar e o que queremos é perguntar-lhe se é isso mesmo que ele quer. Percebem? O mesmo vale para nós. Às vezes atacamos alguém não porque queremos mas apenas porque temos motivos para tanto. E no entanto motivos nunca faltarão, portanto ter motivo nunca será o bastante: é preciso querer. É isso mesmo que você quer? Eu virei para a Dora e disse: então eu vou virar para ele e dizer que a Sabrina tinha razão, ele é muito egoísta. Ela me respondeu: "é verdade, mas pensa se você quer ofender ele, se você quiser tudo bem, só pensa se você quer mesmo, e por quê". De novo a Dora. E de novo o Totô; a história é esdrúxula, penso até que desnecessária para a ideia que pretendo explorar, mas desejo escrevê-la, peço paciência. Ele tinha publicado umas mensagens nos Status do seu Whatsapp afirmando, com letras embaralhadas, que estava muito bebaod. Junto a elas publicou a foto de um boneco com a legenda: ate os beneco ta beebado. Algo assim. Respondi a essa foto dizendo: "cringe". Ele imediatamente me excluiu da lista de pessoas que podem assistir ao que publica nos Status, eu disse, Totô, calma, eu estava brincando. E mais: eu falei brincando mas tem gente que pode ver e achar constrangedor de verdade, estou te dando um toque. Até esse momento essa história é que é, bem feito para mim, ela mesma cringe; mas então, e por isso decidi contá-la aqui, em meio ao fervor de sua embriaguez o Totô me provou que nenhuma estética equivocada constrange tanto quanto a vulgaridade da amargura. Ele me disse: "toque todo mundo tem pra dar, o problema é quem acha que tem que dar os toques que tem" – e esse foi o grande toque, o metatoque que ele me deu. Não sei se me fiz tão claro. Talvez inclusive esteja prestes a complicar ainda mais as coisas, mas o faço apenas na medida em que confio que elas mesmas iluminarão umas às outras no futuro, deixem-me continuar mais um pouco. Sem dúvida, o Tomé não precisa de um bom motivo para me enviar o vídeo dos seus amigos quebrando o pescoço da cotia, na verdade porque o simples fato dele não querê-lo é motivo suficiente. Muito angustiada, em um uber que levava do Parque Flamboyant ao Parque Areião, de onde enfim partiríamos ao Parque Vaca Brava, a Gab me falou: "eu não quero ir ao cinema, mas eu não queria ter que precisar argumentar com você para você levar o meu desejo em consideração". (Aqui, pela honestidade radical que busco, sou obrigado a registrar: fomos ao cinema. A Gab me agradeceu pela insistência, eu lhe agradeci a paciência. Nesse dia você cedeu, com certeza. Foi ótimo. "É, me estupraram, tive que fazer de tudo e agora estou aqui". "Foi ruim? "Foi ótimo". Sem saber nas mãos de quem esses textos cairão, me coloco sujeito a munir quem constrói uma imagem de mim como vilão. E não me incomodo. Minha preocupação maior é desarmar e ser desarmado pelos meus amigos. Estou disposto, como efeito colateral, a armar meus inimigos.) Minha mãe, já ela propriamente chorando, também chegou a me dizer: "é muito cansativo conviver com você porque eu fico me policiando para ver se as coisas que eu faço estão de acordo com o que dentro da minha cabeça você pensa, e quando elas saem dos seus parâmetros eu sinto que eu devo qualquer tipo de satisfação a você". E a Clara dizia que eu era seu superego, algo de que eu nunca gostei porque, nessa brincadeira – que é a forma como ela trata afinal das coisas sensíveis – se condensava em uma imagem minha terrível propensão à tirania. Que poderia se resumir na seguinte fórmula: ofereço a promessa de mudar de posição desde que me convençam exprimindo-se nos meus termos, condição coercitiva que subjaz a uma aparente compreensão. "Quem me conhece sabe". Mas ao contrário: sabe não que eu seria incapaz disso que me acusam, como o que se costuma querer dizer com essa frase; quem me conhece sabe que eu seria capaz exatamente disso que eu e os outros estamos me acusando. E ainda que por amor a mim vocês todos decidam diariamente me perdoar – e que portanto tenham firmado um compromisso comigo que, se não abandonaram, foi porque estão certos dele, já que não faltaram ocasiões para abandoná-lo há muito tempo –, não deixo de temer um certo risco ao "dizer assim de modo explícito". Eu mesmo não deixo de me espantar um pouco diante de mim ao olhar para isso de forma tão crua e direta, o que só me foi possível agora quando, àquela primeira queixa da Gab, se somou uma outra, dois meses depois: "fico cansada de sentir que você só vai me entender se eu traduzir o que eu quero dizer nas suas palavras". Não espanta nada que ela, que é tradutora, tenha sido então quem me desarmou como uma bomba. Gosto dessa frase desse jeito, foi dessa forma que me veio quando concebi este texto, no bandejão da Faculdade de Saúde Pública, e preciso dela assim: a Gab não "me desarmou" "como se desarma a uma bomba", nem "me" desarmou "enquanto bomba", ela me "desarmou como uma bomba", ela, como cai uma bomba, veio e me desarmou, "como aquela grande grande explosão, uma bomba sobre o Japão, fez nascer o Japão da paz". Assim, quando o Tomé pareceu querer me atacar, dizendo que não ia me enviar o vídeo porque eu sou ao mesmo tempo insistente quando quero algo dos outros (o que é verdade) e inflexível quando os outros querem algo de mim (o que, se concedermos que eu sou difícil mas não sou um monstro, não me parece, por sua vez, ser verdade, e acontece apenas que naquele dia eu não quis de forma alguma fumar porque tenho uma relação muito interessante e perigosa com maconha cujos riscos não estava disposto a correr), justamente porque reconheci que ele tinha motivos, digamos, senão bons ao menos bastante razoáveis para me atacar, que preferi não me defender, mas antes lhe perguntar se era o que ele buscava fazer, isto é, eu, com um gesto buscando alcançar a altura do seu amor, tentei lhe desarmar. É cansativo para nós ter de lutar contra os outros. Não lutamos pelo nosso bem, lutamos por falta de escolha. Certamente, então, que, se ele escolhia ali aquele caminho – apontar meus defeitos e afirmar que o que ele estava a fazer nada mais era do que devolver minha conduta defeituosa a mim mesmo –, era eu quem devia ter lhe encurralado nesse lugar para o qual ele sentiu que não havia outra saída senão pegar em armas. E foi pelo dever de assumir meu papel nisso tudo que tive que convidá-lo a deixá-las de lado: que nós tratemos das nossas feridas em vez de se servir delas para provocar mais machucados. Foi o que eu tenho aprendido com as pessoas que amo. Na escola do amor não há aulas de defesa pessoal. Pelo contrário. Alunos e mestres passam o dia a desatar os nós nas faixas dos judocas, dos caratecas, dos taekwondistas. Não sei se exponho o Tomé trazendo essa questão aqui a quente. Mas, como o que quero travar com você não é uma guerra, pensei que lhe cabia bem o gênero diplomático de carta aberta.
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