Acredito que busco escrever livros apenas para ter o que viabilize as várias epígrafes que coleciono. Mas não coleciono apenas frases destacadas dos outros. Também destaco frases de mim mesmo. A beleza das epígrafes é esta: ideias que, curtas, param em pé, sem mais nem menos. Uma epígrafe que coleciono: "o homem é xamã de seus significados". Por sua vez, uma frase autoral que me veio agora, enquanto ouvia Mood Indigo, que, se bem não preste à função de epígrafe, encontra-se no mesmo registro lapidar das ideias as quais, não precisando de complementos, podem servir para iluminar outro texto: "disponho apenas do léxico da magia para descrever o que Ella Fitzgerald faz com as vogais". Nenhuma das duas frases é trivial, embora possa parecê-lo. Nem mesmo a minha. Não acreditem que são os feiticeiros que, ingenua ou maliciosamente (o que dá no mesmo), acreditam no que não existe. A tarefa do sentido nada mais é que a aposta ousada de, ali onde só se conhecia o que já é dado como existente, falar de um propósito por trás e propor-se a manipulá-lo segundo a própria vontade para produzir um novo estado, criar algo. Não esqueçam do particípio em "relações dotadas de sentido". Somos nós quem as dotamos disso. O que existe é muito pouco, e os feiticeiros, Ella Fitzgerald e qualquer um de nós, que vivemos nossa vida atribuindo sentido às coisas, partindo de muito pouco e mesmo assim sendo capazes de dar vida a todos os seus cromatismos mais insuspeitados, bem o sabemos: não basta. You ain't been blue till you've got that mood indigo...
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