PASSO PORQUE TENHO PASSADO


Antes, fumar, para mim, era: o que me fazia sentir incapaz de atravessar, era o próprio signo de um degredo. Agora, fumar para mim tem sido: algo que me permite passar. Não daqui para qualquer lugar; isto quem faz é a via, ela que nos instrumentaliza para o transporte, sua importância está em ligar um ponto de partida e um ponto de chegada, ela não serve a mais do que isso. Não a passagem: é a passagem que dá razão de ser ao passar. Pouco importa para onde se passa – o que importa é que, por meio dela, se passa. Talvez porque eu tenho passado. Sim, nos sentidos de ambas as orações que são convocadas por essa concatenação dessas palavras. Fumar maconha, no geral, tem me permitido passar porque também no geral tenho passado pelas coisas; tenho, mais que retornado dos exílios, recusado aceitá-los, tenho estado muito bem acompanhado, obrigado, não só pelos meus diversos e bons amigos mas pelo conjunto de seres divertidos que compõem meu ser dividido. Mais do que eles são parte de mim, eu sou eles, mas eu não sou a reunião deles, não sou uma instância superior a todos os acontecimentos que me formam, eu é que faço parte da sua reunião, também eu estou sentado à mesa entre os meus seres, curtindo a mesma festa. Oi, me vê aqui? E quer saber de onde vem essa companhia toda? Quer saber por que tenho passado? Porque tenho passado. Chegamos ao outro sentido da frase (ou ao sentido da outra frase): tem-me sido possível atravessar porque, agora, não ajo como se eu não tivesse uma história, como se eu não acontecesse em outras dimensões senão a da imediatez do momento atual. Era por isso aquele medo da morte, percebem? Se não tinha como ponto de sustento nada senão o presente segundo, seria no próprio instante em que eu deixasse de estar vivo que deixaria até de ter sequer existido. "Mãe, eu estava no sofá tentando lembrar como era antes de eu existir, mas eu não lembrava de nada. Era só um preto. Depois de eu parar de existir vai ser assim também, mãe: sem falar com ninguém, pensando no vazio, só um preto? Eu estou com medo." Como posso ter contado tantas vezes essa história que se passou comigo quando tinha uns seis anos sem nunca percebê-lo? O medo da loucura, que é o medo de ainda em vida cair neste mesmo vazio, nessa vala escura sem comunicação alguma, existiria enquanto eu não conseguisse me lembrar de onde eu venho e vinha. Não, hoje há um caminho que me sustenta, quer ele corra ou não rente ao abismo. De que importa o abismo? Seguimos pela trilha. "Amigo, não tem problema a gente ir, o importante é que a gente volta". Olha quanta coragem a Dora teve de ter para enunciar isso: falávamos sobre meu medo de ter o mesmo surto psicótico que um colega nosso, em Salgueiro, "a encruzilhada do Nordeste", numa churrascaria de bode, enquanto, em São Paulo (sabíamos porque esse tempo todo o menino estava em ligação com o Rodrigo, nosso e seu grande amigo), ele ameaçava a mãe e os bombeiros com um canivete. "Vai passar", não é o que nos dizemos quando sofremos? Mas não se enganem com o sujeito oculto, quem passará não é a coisa, "isso", e sim nós mesmos: você vai passar, querido — pela travessia, você vai atravessar a passagem. Porque tenho passado, porque tenho passado, as clausuras não me assustam mais quando fumo um baseado.

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Acredito que busco escrever livros apenas para ter o que viabilize as várias epígrafes que coleciono. Mas não coleciono apenas frases destacadas dos outros. Também destaco frases de mim mesmo. A beleza das epígrafes é esta: ideias que, curtas, param em pé, sem mais nem menos. Uma epígrafe que coleciono: "o homem é xamã de seus significados". Por sua vez, uma frase autoral que me veio agora, enquanto ouvia Mood Indigo, que, se bem não preste à função de epígrafe, encontra-se no mesmo registro lapidar das ideias as quais, não precisando de complementos, podem servir para iluminar outro texto: "disponho apenas do léxico da magia para descrever o que Ella Fitzgerald faz com as vogais". Nenhuma das duas frases é trivial, embora possa parecê-lo. Nem mesmo a minha. Não acreditem que são os feiticeiros que, ingenua ou maliciosamente (o que dá no mesmo), acreditam no que não existe. A tarefa do sentido nada mais é que a aposta ousada de, ali onde só se conhecia o que já é dado como existente, falar de um propósito por trás e propor-se a manipulá-lo segundo a própria vontade para produzir um novo estado, criar algo. Não esqueçam do particípio em "relações dotadas de sentido". Somos nós quem as dotamos disso. O que existe é muito pouco, e os feiticeiros, Ella Fitzgerald e qualquer um de nós, que vivemos nossa vida atribuindo sentido às coisas, partindo de muito pouco e mesmo assim sendo capazes de dar vida a todos os seus cromatismos mais insuspeitados, bem o sabemos: não basta. You ain't been blue till you've got that mood indigo...

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ALGUNS PRINCÍPIOS DE ANÁLISE ESTRUTURAL


Cumpre realizar uma observação mais atenta das metáforas que tenho empregado de mim para mim no solilóquio agudo que tem sido a história das nossas emoções, ainda que tenha tentado dilui-lo em mensagens digitais, um tanto em vão, para conseguir elaborar esta que me acomete agora. Percebo que tenho falado como se sobrevivesse apenas com o auxílio de aparelhos – "estou de cama tomando remédio", "estou respirando por meio de tubos", "estou vivendo de soro", "estou fazendo transfusão de sangue" –, como se minha existência tivesse se tornado um desafio médico, como se uma profunda desordem orgânica me tivesse afetado; no entanto, respeitemos a especificidade de nossas metáforas, tentemos reconstitui-las: essas doenças a que nos referimos não são de qualquer ordem, conotam todas uma disfunção endógena – em vez de uma invasão patógena –, elas revelam que a reprodução normal (entenda-se, normativa) da vida não se faz mais possível senão por meio de pontos de apoio emergenciais. Pois bem: se os tenho apresentado com tanta assiduidade, que pontos são esses? Quais máquinas são essas que têm me sustentado? Não encontro alguma. Vejam que cruel. Recorrer a uma escrita que, servindo de exame, pudesse providenciar um diagnóstico do meu quadro. E no entanto essa escrita, não contente em discorrer sobre ele, quer pô-lo em ação: meu próprio texto, à minha revelia, encena o meu desespero, incapaz de fornecer a imagem que busco, fraco demais até para mostrar que fraqueza é essa afinal, assim como se recusa a indicar que é isto que, apesar de tudo, tem me mantido vivo por outro lado. Mas suspeito estar encontrando uma pista para o enigma. E se não se pode encontrá-lo por meio de um exame porque o procedimento laboratorial é analítico e o tipo de estado em que me encontro não é descritível nem discritível (se me permitem o neologismo: não pode ser tratado de forma discreta)? Há um contínuo entre o mal que me acomete e a enfermeira que me assiste: são os dois lados de uma paixão, que sempre tira para dar. A assimetria da troca é o que dissimula a atuação comum por trás de cada uma dessas etapas: é como se, não podendo conceber o que se passa entre o momento de dar e o de receber, tivéssemos de recorrer à presença de um terceiro elemento, literalmente, a qualquer terceiro, um corpo estranho, um tubo, uma bolsa, um catéter, um respirador, que, então, explicasse como pode ser que não reconheçamos o estado em que estamos diante daquele que estávamos. "Senti que está faltando alguém, que estranho, a gente está mesmo só em quatro?" Já hão de ter sentido isso em uma viagem de carro. Claro. Porque na viagem como nas paixões há sempre algo que se transforma, e em nossa imaginação tão limitada não concebemos transformações internas a sistemas fechados – temos que introduzir um ser alheio, um invasor que provoque os processos e possa ser porventura culpado pelos estragos. Mas não é necessário e muito menos verdadeiro, reparem, é como eu escrevia logo acima, apenas a assimetria da troca que gera em nós essa impressão, porque o que damos não é jamais da ordem daquilo que recebemos, por mais que tentemos equipará-los, e é o risco de um desbalanço excessivo inerente a essa aposta que nos faz sentir tão desequilibrados. Apaixonar-se é, ao que me parece, e embora eu não esteja apaixonado – estou seguramente (ou seja, para seguir uma via segura de conceituação) emocionado, e por isso mesmo instado a refletir sobre a paixão com interesse mas sem as deformações que sofremos quando ela invade do hospital nosso quarto, e, pouco lhe importa, derruba todo o maquinário, vira tudo de cabeça para baixo, depois ri constrangida e começa cheia de pressa a arrumá-lo –, justamente porque não me encontro assim, pois me encontro, digamos, "encantado", de tal forma que implicado, mas ainda distante o suficiente, para dizer que apaixonar-se é: aceitar, e senão até buscar, a tensão dessa situação em que o que nos é devolvido nunca é da ordem daquilo que nos é tirado. Se estamos em paz com os lugares em que nos metemos (e em que metemos), sequer buscamos comparar o que fazemos por alguém e o que fazem por nós porque o acordo implícito que firmamos ao entrar em qualquer relação é que damos e recebemos gestos sempre incomensuráveis. Abre-se mão da capacidade de respirar com os próprios pulmões com a certeza de que em troca jamais poderiam nos oferecer esses pulmões recuperados. Se fosse assim seremos autônomos. Mas apaixonados somos heterônomos. E nossa própria respiração, nossa própria circulação de sangue passam a aparecer para nós como atividades que requisitam um alienígena. Uma forma menos romântica e mais ficção científica, por isso creio que mais adequada a esta escrita clínica, de se chamar o "outro". Parece ser assim que traduzo a ansiedade desse estado: não me sinto pouco assistido, não estou à beira da morte, mas pode ser que isso com o qual eu me mantenho vivo sei lá por que meios seja um efeito da relação com o mesmo ser a quem eu entreguei sei lá que algo. Não sei o que lhe darei para além de cu e não sei o que receberei exceto pica – dois termos que evidentemente não podem ser convertidos entre si por qualquer taxa de câmbio. Mas há a previsão certa de que haverá uma incerteza imprevisível a constituir os fluxos do nosso mercado.

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SAUDADES DE DONA REGINA

 

Uma grande amiga

– declarar apenas isto e mais nada

para que um poema marcado pela sua ausência

a mantenha viva, amiga, Regina,

como uma gravura em baixo-relevo a-

presenta pela falta à

maneira do que são: um fantasma

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DAS SUTIS ARTES DE DESARMAR ALGUÉM

 

Porque amar é desarmar. Sobretudo quando o outro tem razões para nos atacar e o que queremos é perguntar-lhe se é isso mesmo que ele quer. Percebem? O mesmo vale para nós. Às vezes atacamos alguém não porque queremos mas apenas porque temos motivos para tanto. E no entanto motivos nunca faltarão, portanto ter motivo nunca será o bastante: é preciso querer. É isso mesmo que você quer? Eu virei para a Dora e disse: então eu vou virar para ele e dizer que a Sabrina tinha razão, ele é muito egoísta. Ela me respondeu: "é verdade, mas pensa se você quer ofender ele, se você quiser tudo bem, só pensa se você quer mesmo, e por quê". De novo a Dora. E de novo o Totô; a história é esdrúxula, penso até que desnecessária para a ideia que pretendo explorar, mas desejo escrevê-la, peço paciência. Ele tinha publicado umas mensagens nos Status do seu Whatsapp afirmando, com letras embaralhadas, que estava muito bebaod. Junto a elas publicou a foto de um boneco com a legenda: ate os beneco ta beebado. Algo assim. Respondi a essa foto dizendo: "cringe". Ele imediatamente me excluiu da lista de pessoas que podem assistir ao que publica nos Status, eu disse, Totô, calma, eu estava brincando. E mais: eu falei brincando mas tem gente que pode ver e achar constrangedor de verdade, estou te dando um toque. Até esse momento essa história é que é, bem feito para mim, ela mesma cringe; mas então, e por isso decidi contá-la aqui, em meio ao fervor de sua embriaguez o Totô me provou que nenhuma estética equivocada constrange tanto quanto a vulgaridade da amargura. Ele me disse: "toque todo mundo tem pra dar, o problema é quem acha que tem que dar os toques que tem" – e esse foi o grande toque, o metatoque que ele me deu. Não sei se me fiz tão claro. Talvez inclusive esteja prestes a complicar ainda mais as coisas, mas o faço apenas na medida em que confio que elas mesmas iluminarão umas às outras no futuro, deixem-me continuar mais um pouco. Sem dúvida, o Tomé não precisa de um bom motivo para me enviar o vídeo dos seus amigos quebrando o pescoço da cotia, na verdade porque o simples fato dele não querê-lo é motivo suficiente. Muito angustiada, em um uber que levava do Parque Flamboyant ao Parque Areião, de onde enfim partiríamos ao Parque Vaca Brava, a Gab me falou: "eu não quero ir ao cinema, mas eu não queria ter que precisar argumentar com você para você levar o meu desejo em consideração". (Aqui, pela honestidade radical que busco, sou obrigado a registrar: fomos ao cinema. A Gab me agradeceu pela insistência, eu lhe agradeci a paciência. Nesse dia você cedeu, com certeza. Foi ótimo. "É, me estupraram, tive que fazer de tudo e agora estou aqui". "Foi ruim? "Foi ótimo". Sem saber nas mãos de quem esses textos cairão, me coloco sujeito a munir quem constrói uma imagem de mim como vilão. E não me incomodo. Minha preocupação maior é desarmar e ser desarmado pelos meus amigos. Estou disposto, como efeito colateral, a armar meus inimigos.) Minha mãe, já ela propriamente chorando, também chegou a me dizer: "é muito cansativo conviver com você porque eu fico me policiando para ver se as coisas que eu faço estão de acordo com o que dentro da minha cabeça você pensa, e quando elas saem dos seus parâmetros eu sinto que eu devo qualquer tipo de satisfação a você". E a Clara dizia que eu era seu superego, algo de que eu nunca gostei porque, nessa brincadeira – que é a forma como ela trata afinal das coisas sensíveis – se condensava em uma imagem minha terrível propensão à tirania. Que poderia se resumir na seguinte fórmula: ofereço a promessa de mudar de posição desde que me convençam exprimindo-se nos meus termos, condição coercitiva que subjaz a uma aparente compreensão. "Quem me conhece sabe". Mas ao contrário: sabe não que eu seria incapaz disso que me acusam, como o que se costuma querer dizer com essa frase; quem me conhece sabe que eu seria capaz exatamente disso que eu e os outros estamos me acusando. E ainda que por amor a mim vocês todos decidam diariamente me perdoar – e que portanto tenham firmado um compromisso comigo que, se não abandonaram, foi porque estão certos dele, já que não faltaram ocasiões para abandoná-lo há muito tempo –, não deixo de temer um certo risco ao "dizer assim de modo explícito". Eu mesmo não deixo de me espantar um pouco diante de mim ao olhar para isso de forma tão crua e direta, o que só me foi possível agora quando, àquela primeira queixa da Gab, se somou uma outra, dois meses depois: "fico cansada de sentir que você só vai me entender se eu traduzir o que eu quero dizer nas suas palavras". Não espanta nada que ela, que é tradutora, tenha sido então quem me desarmou como uma bomba. Gosto dessa frase desse jeito, foi dessa forma que me veio quando concebi este texto, no bandejão da Faculdade de Saúde Pública, e preciso dela assim: a Gab não "me desarmou" "como se desarma a uma bomba", nem "me" desarmou "enquanto bomba", ela me "desarmou como uma bomba", ela, como cai uma bomba, veio e me desarmou, "como aquela grande grande explosão, uma bomba sobre o Japão, fez nascer o Japão da paz". Assim, quando o Tomé pareceu querer me atacar, dizendo que não ia me enviar o vídeo porque eu sou ao mesmo tempo insistente quando quero algo dos outros (o que é verdade) e inflexível quando os outros querem algo de mim (o que, se concedermos que eu sou difícil mas não sou um monstro, não me parece, por sua vez, ser verdade, e acontece apenas que naquele dia eu não quis de forma alguma fumar porque tenho uma relação muito interessante e perigosa com maconha cujos riscos não estava disposto a correr), justamente porque reconheci que ele tinha motivos, digamos, senão bons ao menos bastante razoáveis para me atacar, que preferi não me defender, mas antes lhe perguntar se era o que ele buscava fazer, isto é, eu, com um gesto buscando alcançar a altura do seu amor, tentei lhe desarmar. É cansativo para nós ter de lutar contra os outros. Não lutamos pelo nosso bem, lutamos por falta de escolha. Certamente, então, que, se ele escolhia ali aquele caminho – apontar meus defeitos e afirmar que o que ele estava a fazer nada mais era do que devolver minha conduta defeituosa a mim mesmo –, era eu quem devia ter lhe encurralado nesse lugar para o qual ele sentiu que não havia outra saída senão pegar em armas. E foi pelo dever de assumir meu papel nisso tudo que tive que convidá-lo a deixá-las de lado: que nós tratemos das nossas feridas em vez de se servir delas para provocar mais machucados. Foi o que eu tenho aprendido com as pessoas que amo. Na escola do amor não há aulas de defesa pessoal. Pelo contrário. Alunos e mestres passam o dia a desatar os nós nas faixas dos judocas, dos caratecas, dos taekwondistas. Não sei se exponho o Tomé trazendo essa questão aqui a quente. Mas, como o que quero travar com você não é uma guerra, pensei que lhe cabia bem o gênero diplomático de carta aberta.

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UMA AMIZADE LITERÁRIA: MUITO SE FALA DO AMOR ROMÂNTICO (LITERÁRIO) E POUCO SE FALA DELAS

 

"Fala com o Totô, sim, independente se ele ainda te ama ou não, porque você ainda ama ele, e a pior coisa que pode acontecer com a gente é deixar de amar alguém". Totô é um dos poucos leitores que esse blog ainda tem. Você sabia dessa história? A Dora me disse isso em 2023, era o aniversário dela de 26 anos, estávamos no Bocadas, essa pizzaria foi o hiperfoco do Nado naquela época, nem sei se a família Kehdi ainda a frequenta. Eu tinha te procurado na varanda do apartamento, se não me engano da Dora Affonso, pra saber como iam as coisas e se não poderíamos sair qualquer dia desses. Você me disse que nossa amizade não fazia mais sentido, que as coisas que eu fazia – você parava assim, sem o complemento verbal, você dizia, nominalmente apenas: as coisas que você faz, Miguel... Em algum dia das semanas seguintes o Chico me disse, no bandejão da Escola de Enfermagem: "ele não é louco de te perder como amigo". E eu reclamava da sua postura injustificável. Mas então, com essa frase que guardo desde antes dela ter se tornado uma das minhas melhores amigas, a Dora converteu minha incredulidade com você em uma vulnerabilidade a você. Ela me disse: você ama ele e vai sentir sua falta. Sabe que eu comecei a escrever este texto risonho diante de tantas turbulências nossas e agora me encontro mesmo emocionado? O que me faz ter mais certeza do valor da nossa amizade. É um afeto que me move duas vezes e junto a você: me comove. Totô, e ao me abrir a tudo isso de repente meu texto ficou kitsch, vê, é como se eu não soubesse lutar sem armadura. Logo eu, bem hoje, depois de ter tirado uma com você na sexta, "Totô, agora você está conseguindo demonstrar afeto corporalmente? Quantos abraços". "É porque eu estou impressionado com como você está forte depois da academia". Pois é. Como se eu fosse perito em demonstrar afetos, aliás, sempre digo que não sei responder a elogios – para mim toda resposta a um elogio é como aquela resposta desastrada um parabéns de aniversário em que dizemos "obrigado, para você também" –, aliás, sempre conto que essa professora de poesia portuguesa me disse, era a segunda aula de sua matéria, "por que você se esconde tanto, Miguel? Eu não quero saber a definição do poema para amor, eu perguntei o que é amor porque eu quero saber o que é amor para vocês, me diga, Miguel: você já amou?" E assim ela me desarmou. Agora escrevo sem armas e meu texto é fraco. Bom para que eu veja se você segue querendo pegar nele que não é forte. Pensemos no texto assim, como uma nota de rodapé: à pequena história da nossa amizade que são nossos dois blogs. Aqui há tantos poemas dos nossos afastamentos quanto das nossas reaproximações. Bonito que isso tenha sido o que emergiu. Vinha fazer outra coisa, vinha escrever sobre o vazio de perceber que não amo mais outro Totô. Ele publicou uma foto no Instagram que me assustou. Não encontrei aquela vontade de deitar com ele, que até não muito tempo me acompanhava quando o via; pelo menos uma última deitada, era o que eu pensava. Para onde um amor vai quando morre, Totô? Você me poupou de descobrir isso com você daquela vez, me diga então por favor agora quanto ao meu ex. Pensei que quando me visse nessa situação me sentiria emancipado. Mas eu também pensei que ficaria eufórico quando passasse no Mestrado. O que a gente imagina pra gente nunca é o que a gente quer. Isso não quer dizer que o nosso querer não tem importância, é o contrário, quer dizer que se a gente desse importância pro nosso querer quem sabe não perderíamos tanto tempo assim com sonhos de megalomania: de voltar com o ex ou de superar o ex, de entrar no Mestrado ou de escrever o melhor Mestrado. A Dora me disse: escolha amar o Totô, pouco importa se você é amado, amar é que uma delícia, o resto você tira de letra e deixa de lado. Das duas vezes ela me disse isso, dos dois Totôs. Mas agora eu só amo você entre os Totôs. O que acaba de acontecer? Algo aconteceu – de repente escrever isso se tornou uma fonte não mais de dor mas de alegria. Sim é triste deixar de amar alguém, mas já não concordo comigo, nem com o que escrevi no meio do texto (sinto sim uma emancipação boa), e menos ainda com o princípio que me trouxe a escrevê-lo. Há muitas mais pessoas boas para se amar. Dizer que amar é uma delícia é dizer que o amor é uma escolha, que escolhemos quando entrar e que, por isso mesmo, temos de escolher quando não sair e também quando sair: não saia à toa, mas não fique a qualquer custo. O resto eu tiro de letra e deixo de lado, o resto faz parte, veja, se eu escrevo tanto sobre nós dois que nunca fomos nem nunca seremos namorados.

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DA POESIA À PROSA (A MIM E, DEPOIS, MEUS AMIGOS)

 

O que eu carecia destravar enfim era a escrita. Curiosa reaparição aos que venho, os que me vêem. Pois, descrevo aqui o salto que recém contemplaram para que tenham também o deleite de submeter sua arte a um escrutínio: por ter passado os últimos meses a falar incessantemente com vocês, e sobretudo a escrever incessantemente a vocês – no gênero em que descobri minha verdadeira vocação, o das mensagens de WhatsApp, mas que para nossa tristeza não têm ainda uma reunião canônica concebível a partir dos meios documentais e editoriais que por enquanto fizemos disponíveis e imagináveis para nós – ora, foi por todo esse diálogo incessante estabelecido com vocês que passei a escrever menos neste gênero, atividade solitária que portanto é como uma conversa tida comigo, mas cujo eco (e a pedância deliciosa de usar a palavra “cujo”, algo como o afago calorosamente perverso de se ter a porta aberta por um porteiro, ou, se preferirmos escrever com maior distância desse prazer perverso, de um porteiro lhe abrir a porta – e ainda a espera pela revelação futura de saber se, como a sintaxe lusitana não se faz charmosa sem certa perversidade, a ternura que sentimos por Portugal e sua luz também não é um pouco maldosa), por favor, não se percam, pois vinha dizendo justamente dessas palavras cujo eco não pode deixar de ser ouvido senão por vocês. Mas talvez o ponto seja então este de descobrir que preciso passar mais por mim para chegar a vocês. Que careço dessas brigas comigo porque senão é com vocês que brigo. Como escrevo este texto? Após dar alguns tragos numa maconha e sentir um bocadinho de medo da loucura. Preciso ser arremessado para uma cela em mim na qual me sinta condenado para finalmente estar em mim de alguma forma. Porém, da mesma maneira como então me coube de porta de entrada, posso me servir dessa cela como porta de saída e dela passear por outros ambientes. Sim porque gostar de me entender como um novelo de tensões que por muitos outros novelos se estende não exorciza, ou não precisa exorcizar, uma imagem de mim como paisagem. (Permitam-me a imersão por um nome pela última vez: reclamei com Chico no carro por ele dizer que “também queria ser deleuziano” e pedir para concordamos que ele seria uma mulher trans caso ele tivesse ficado cinco minutos a menos na barriga da mãe, e não a mais, porque ele gostaria de estar também além e não aquém do que lhe é próximo, porque, como atravessamos eu a maldade e a Gab o narcisismo, ele gostaria de dizer que atravessou a transexualidade e se encontra do lado de lá dela; sendo que, disse a Manu, no caso dele é com cinco minutos a mais na barriga da mãe que ele teria nascido trans, apenas faz mais sentido pensar assim mesmo, e, disse eu, essa brincadeira não tem nada a ver com Deleuze e, ainda que tivesse, deleuziano seria todo o movimento de raciocínio e não apenas uma das designações dos pedaços da coisa; mas, de qualquer forma, “eis que” agora me oriento pela mesma histeria de ser mais realista que o rei: a princípio deixar de me pensar como paisagem, ou sentir que recusaria esse campo por uma vontade difusa de se aproximar de certo pensamento, para então assistir a um recorte de vídeo compartilhado no Instagram em que Deleuze fala, que ironia, sobre cada um de nós como paisagens. Talvez dizendo enfim de forma deleuziana, atravesso por uma última vez seu nome para poder se despedir dele, assim como a cela por onde eu entro em mim. Adeus.) O novelo não exorciza a paisagem porque o que é referenciado pela paisagem não corresponde à moldura posterior que a define, os significados continuam os referentes e os transformam, mas os referentes não estão nem aí, eles transam tudo, eles são de boa. Assim o que muda do novelo para a paisagem é apenas o foco de observação: para contemplar um novelo é preciso um olhar mais amplo, porque os fios que compõem um novelo se prolongam para muitos lados enquanto na paisagem tudo já está enquadrado. A escala de uma paisagem é bem menor, nunca vai tão longe quanto um novelo, e isso não a condena, não, de maneira alguma, pois é com essa restrição que conseguimos conhecer fauna e flora que só nesses prados se revelam. Da minha cela então passar a elas. Antes eu havia fugido da cela e, quanta ingenuidade, por isso mesmo era acompanhado por sua sombra. No lugar, prefiro agora pedir licença, sair sem muita algazarra para que tênues possamos nos esquecer, cela e eu, ela e eu, ele e eu, para que distraídos um do outro possamos sonhar com outros outros. (O que parece ser, do lado oposto, o motivo pelo qual fazemos tanta algazarra diante de uma separação. O medo de esquecer e o pavor covarde de ser esquecido nos impelem, juntos, à produção de um ruído sem fim algum, mas que não pode deixar de soar.) “Prefira a sua paz”. Prefira os silêncios, as músicas e até mesmo certos ruídos – consoante é ruído, não se faz uma língua só com harmônicos vocálicos, não vamos esquecer –, mas escolha-os. Escolha melhor pelo menos: algo que te embale, te envolva, com os quais a gente percorra nossas trilhas por aqui e dê muitas voltas. E, assim mesmo como sentia que a palavra “paisagem” me soasse indesejável, ao escutar de meu orientador que eu precisava reconhecer “o que eu sou” tive que admitir certo sentido a essa ideia a princípio tosca para mim de algo que se “é”, pois se as ideias têm sua origem, como toda significação, na metáfora – se a insistência na literalidade no fundo nada mais é que uma manifestação pelo dever de se levar a sério o que os agrupamentos realizados pelas analogias dizem sobre as próprias coisas, isto é, a atitude de se apostar na metafóra –, e se uma metáfora realiza uma tradução entre propriedades partilhadas, é preciso que eu seja capaz de traduzir essa ideia para compreender o que ela significa na minha língua. A Gab tinha razão, a questão sempre foi a de se recusar a fazer concessões vocabulares. Como ela mesma disse sobre outro aspecto, andamos muito de janeiro para cá, não estamos no mesmo lugar. Pelo contrário, tanto mudamos que nos permitimos voltar à nossa cela e passar dela ao corredor, cruzar o pátio, chegar no jardim e por meio dele conquistar a rua. “Devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno (...) quero o terreno”. Por que sinto como se apreendesse nesse instante a sensação que sentia Clarice ao escrever? Certo pela maconha mas não só. Se quando sóbrio me vejo lidando com etnologia e desejo o posto de Viveiros de Castro Segundo. Por quê? Se sonhar é lindo mas desde que com outros horizontes. O Pedro dizia: quem disse que isso te diz respeito? Há muito mais que fazer com os índios. “A expectativa é a morte da imaginação”. Se preciso renunciar a algo, é à expectiva (se, se, se). Pensei que para tanto precisaria viver fora de mim. Mas nessa ortodoxia da abertura – mais uma das que estive trilhando como um Orfeu inverso, certo de que Eurídice vem, sem olhar para os lados, para trás, quando mais ninguém lhe acompanha – não considerei que a abertura é uma via que exige o interno. E o interno por sua vez carece dos buracos, das cavidades. Um buraco não precisa ser uma falta, ele pode ser uma toca e é, sempre, uma abertura, é o que nos aprofunda. Tampouco um buraco precisa ser de dor, em sua verdade geológica o buraco sequer é fruto do que se perdeu: não havia nada antes que preenchesse uma caverna, foram as coisas que se afastaram para que elas surgissem. Uma caverna é o registro de uma criação, o efeito do que se produziu sobre a própria caverna. Ninguém nos subtrai algo para que sejamos repletos de buracos: um buraco é o começo. Agora posso, enfim, me ter – e posso meter, posso me ter sem dúvida porque posso meter, e porque, depois de conquistar o sexo e tê-la abandonado, posso voltar à escrita. Nem acho que a competição seja tão injusta. Já disse em outros textos como beijar e falar são desdobramento diferentes de uma mesma coisa que fazemos com a língua. Pelo visto o caso da escrita e do sexo não é tão distante: escrever é uma forma de me ter (de meter). Nas cavidades e em todos esses buraquinhos quentes e escuros em que a gente deseja entrar. E por uma pequena dose do que é a loucura no meu léxico: certo fechamento. Às vezes é preciso de certa clausura, precisamos encostar a porta para criar um ambiente agradável, às vezes escancararmos a porta permite que uma ventania venha, bata a porta, o trinco cai e aí sim é que ficamos totalmente fechados pelo lado de dentro, e de vez. Até que venha alguém de fora. Então é preciso certo controle sobre os trânsitos, as trocas, as traduções, não para reduzi-los, mas, pelo contrário, para garantir a sua propagação. Miguel, você precisa ser mais cuidadoso com o que diz para mim. É verdade. Vê como fui cuidadoso com as palavras deste texto? Mas você estava tão bem – tem certeza que quer voltar aos textos e à loucura? “A questão é de qual forma de loucura que se está falando”. Jamais se volta ao mesmo lugar, jamais se banha etc. É porque estou tão bem que é desejável movimentar-se no sentido da volta, ainda que voltar seja impossível. “Se eu estivesse fraco”. “Amigo, se a gente não está bem eu não sei quem está, eu não vejo ninguém melhor que a gente, falando sério, se a gente não está bem o resto está no fundo do poço. Recuperar, uma palavra melhor que o significado, o sentido – recuperar os sentidos – e decidir, por meio de uma reflexão sobre o sentido e a partir dos meus sentidos, explorar o campo da etnologia. Não pela expectativa: pela imaginação. “Estudar conforme o sentido”, procurar a trilha do sentido porque seu mapa é tão vasto quanto o que existe e o quão longe vão as relações, carece só de um pouco de fôlego e truques para levar ao que buscamos. Aprenda os atalhos mas não busque se profissionalizar neles, são eles que devem servir a você e não o contrário. Não se esqueça da sua vocação para os mapas e para as viagens. Era tudo o que eu gostaria de dizer a mim por meio de vocês, ou a vocês por meio de mim. Ou melhor: que eu digo, em outra plataforma. Logo o receberão. Por ora é comigo que se demora.

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