UMA AMIZADE LITERÁRIA: MUITO SE FALA DO AMOR ROMÂNTICO (LITERÁRIO) E POUCO SE FALA DELAS

 

"Fala com o Totô, sim, independente se ele ainda te ama ou não, porque você ainda ama ele, e a pior coisa que pode acontecer com a gente é deixar de amar alguém". Totô é um dos poucos leitores que esse blog ainda tem. Você sabia dessa história? A Dora me disse isso em 2023, era o aniversário dela de 26 anos, estávamos no Bocadas, essa pizzaria foi o hiperfoco do Nado naquela época, nem sei se a família Kehdi ainda a frequenta. Eu tinha te procurado na varanda do apartamento, se não me engano da Dora Affonso, pra saber como iam as coisas e se não poderíamos sair qualquer dia desses. Você me disse que nossa amizade não fazia mais sentido, que as coisas que eu fazia – você parava assim, sem o complemento verbal, você dizia, nominalmente apenas: as coisas que você faz, Miguel... Em algum dia das semanas seguintes o Chico me disse, no bandejão da Escola de Enfermagem: "ele não é louco de te perder como amigo". E eu reclamava da sua postura injustificável. Mas então, com essa frase que guardo desde antes dela ter se tornado uma das minhas melhores amigas, a Dora converteu minha incredulidade com você em uma vulnerabilidade a você. Ela me disse: você ama ele e vai sentir sua falta. Sabe que eu comecei a escrever este texto risonho diante de tantas turbulências nossas e agora me encontro mesmo emocionado? O que me faz ter mais certeza do valor da nossa amizade. É um afeto que me move duas vezes e junto a você: me comove. Totô, e ao me abrir a tudo isso de repente meu texto ficou kitsch, vê, é como se eu não soubesse lutar sem armadura. Logo eu, bem hoje, depois de ter tirado uma com você na sexta, "Totô, agora você está conseguindo demonstrar afeto corporalmente? Quantos abraços". "É porque eu estou impressionado com como você está forte depois da academia". Pois é. Como se eu fosse perito em demonstrar afetos, aliás, sempre digo que não sei responder a elogios – para mim toda resposta a um elogio é como aquela resposta desastrada um parabéns de aniversário em que dizemos "obrigado, para você também" –, aliás, sempre conto que essa professora de poesia portuguesa me disse, era a segunda aula de sua matéria, "por que você se esconde tanto, Miguel? Eu não quero saber a definição do poema para amor, eu perguntei o que é amor porque eu quero saber o que é amor para vocês, me diga, Miguel: você já amou?" E assim ela me desarmou. Agora escrevo sem armas e meu texto é fraco. Bom para que eu veja se você segue querendo pegar nele que não é forte. Pensemos no texto assim, como uma nota de rodapé: à pequena história da nossa amizade que são nossos dois blogs. Aqui há tantos poemas dos nossos afastamentos quanto das nossas reaproximações. Bonito que isso tenha sido o que emergiu. Vinha fazer outra coisa, vinha escrever sobre o vazio de perceber que não amo mais outro Totô. Ele publicou uma foto no Instagram que me assustou. Não encontrei aquela vontade de deitar com ele, que até não muito tempo me acompanhava quando o via; pelo menos uma última deitada, era o que eu pensava. Para onde um amor vai quando morre, Totô? Você me poupou de descobrir isso com você daquela vez, me diga então por favor agora quanto ao meu ex. Pensei que quando me visse nessa situação me sentiria emancipado. Mas eu também pensei que ficaria eufórico quando passasse no Mestrado. O que a gente imagina pra gente nunca é o que a gente quer. Isso não quer dizer que o nosso querer não tem importância, é o contrário, quer dizer que se a gente desse importância pro nosso querer quem sabe não perderíamos tanto tempo assim com sonhos de megalomania: de voltar com o ex ou de superar o ex, de entrar no Mestrado ou de escrever o melhor Mestrado. A Dora me disse: escolha amar o Totô, pouco importa se você é amado, amar é que uma delícia, o resto você tira de letra e deixa de lado. Das duas vezes ela me disse isso, dos dois Totôs. Mas agora eu só amo você entre os Totôs. O que acaba de acontecer? Algo aconteceu – de repente escrever isso se tornou uma fonte não mais de dor mas de alegria. Sim é triste deixar de amar alguém, mas já não concordo comigo, nem com o que escrevi no meio do texto (sinto sim uma emancipação boa), e menos ainda com o princípio que me trouxe a escrevê-lo. Há muitas mais pessoas boas para se amar. Dizer que amar é uma delícia é dizer que o amor é uma escolha, que escolhemos quando entrar e que, por isso mesmo, temos de escolher quando não sair e também quando sair: não saia à toa, mas não fique a qualquer custo. O resto eu tiro de letra e deixo de lado, o resto faz parte, veja, se eu escrevo tanto sobre nós dois que nunca fomos nem nunca seremos namorados.

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