PASSO PORQUE TENHO PASSADO


Antes, fumar, para mim, era: o que me fazia sentir incapaz de atravessar, era o próprio signo de um degredo. Agora, fumar para mim tem sido: algo que me permite passar. Não daqui para qualquer lugar; isto quem faz é a via, ela que nos instrumentaliza para o transporte, sua importância está em ligar um ponto de partida e um ponto de chegada, ela não serve a mais do que isso. Não a passagem: é a passagem que dá razão de ser ao passar. Pouco importa para onde se passa – o que importa é que, por meio dela, se passa. Talvez porque eu tenho passado. Sim, nos sentidos de ambas as orações que são convocadas por essa concatenação dessas palavras. Fumar maconha, no geral, tem me permitido passar porque também no geral tenho passado pelas coisas; tenho, mais que retornado dos exílios, recusado aceitá-los, tenho estado muito bem acompanhado, obrigado, não só pelos meus diversos e bons amigos mas pelo conjunto de seres divertidos que compõem meu ser dividido. Mais do que eles são parte de mim, eu sou eles, mas eu não sou a reunião deles, não sou uma instância superior a todos os acontecimentos que me formam, eu é que faço parte da sua reunião, também eu estou sentado à mesa entre os meus seres, curtindo a mesma festa. Oi, me vê aqui? E quer saber de onde vem essa companhia toda? Quer saber por que tenho passado? Porque tenho passado. Chegamos ao outro sentido da frase (ou ao sentido da outra frase): tem-me sido possível atravessar porque, agora, não ajo como se eu não tivesse uma história, como se eu não acontecesse em outras dimensões senão a da imediatez do momento atual. Era por isso aquele medo da morte, percebem? Se não tinha como ponto de sustento nada senão o presente segundo, seria no próprio instante em que eu deixasse de estar vivo que deixaria até de ter sequer existido. "Mãe, eu estava no sofá tentando lembrar como era antes de eu existir, mas eu não lembrava de nada. Era só um preto. Depois de eu parar de existir vai ser assim também, mãe: sem falar com ninguém, pensando no vazio, só um preto? Eu estou com medo." Como posso ter contado tantas vezes essa história que se passou comigo quando tinha uns seis anos sem nunca percebê-lo? O medo da loucura, que é o medo de ainda em vida cair neste mesmo vazio, nessa vala escura sem comunicação alguma, existiria enquanto eu não conseguisse me lembrar de onde eu venho e vinha. Não, hoje há um caminho que me sustenta, quer ele corra ou não rente ao abismo. De que importa o abismo? Seguimos pela trilha. "Amigo, não tem problema a gente ir, o importante é que a gente volta". Olha quanta coragem a Dora teve de ter para enunciar isso: falávamos sobre meu medo de ter o mesmo surto psicótico que um colega nosso, em Salgueiro, "a encruzilhada do Nordeste", numa churrascaria de bode, enquanto, em São Paulo (sabíamos porque esse tempo todo o menino estava em ligação com o Rodrigo, nosso e seu grande amigo), ele ameaçava a mãe e os bombeiros com um canivete. "Vai passar", não é o que nos dizemos quando sofremos? Mas não se enganem com o sujeito oculto, quem passará não é a coisa, "isso", e sim nós mesmos: você vai passar, querido — pela travessia, você vai atravessar a passagem. Porque tenho passado, porque tenho passado, as clausuras não me assustam mais quando fumo um baseado.

. . .



Nenhum comentário:

Postar um comentário