"que se partiu
cristal não era",
a cantora Gal
que partiu e
era sim cristal
. . .
Meninas mimadas,
meninas tatuadas,
meninas graduadas,
meninas não tão descoladas,
mas meninas convencidas
que são; meninas
finas desafinadas
que não suportam cantadas
de caras que não são como
essas meninas tão claras
e tipo super bem chatas
— essas meninas malvadas
que não fazem questão,
amor, hoje não.
. . .
Brasil uma desordem
às ordens da Casa
uma despesa
na dispensa às custas
da Senzala
um princípio de lógica
que ordena
controla organiza
e mata
& o Samba
e a Argentina isso
& o Tango
o Uruguai Candombe
os Estados Unidos
isso & o Blues o Soul
o Jazz e mais tanto
Não importa se a arte salva. O que importa é que ela não basta. & porque a poesia não pode ser santa, com prosa didática
é que se termina
essa página
. . .
Não tomo cuidado com,
o que me faz
muitas vezes insensível
Mas eu tomo cuidado de
– não sou cuidadoso
mas eu cuido
Por isso às vezes escuto
você é muito sensível
Miguel
e arrepiando
ao dizer vocativo do meu nome
fico mudo
. . .
Era uma vez
não tinha no mínimo 94 anos
nem tinha no máximo 94 anos
um curitibano nos mostrou
como admitir ambas as sentenças
e então voou para outros planos
. . .
à Gilda/ a Rousseau
Amo minha caligrafia.
Eu amo minha relação errada
com os livros de Antropologia:
como se fossem manuais de ética,
como se eu descobrisse
que os Chinook o fazem
e de repente também quisesse
casar com a minha tia,
como se simplesmente
por serem diferentes
os Yanomami soubessem mais
sobre a vida, como se
eu me cristianizasse para seguir
o exemplo santo de Maria.
. . .
Sim
no Blues interessa
o que não é blues
no canto gregoriano
o que não é canto gregoriano
etc
Há entretanto exceções
obsessões
pudera
em Ella Fitzgerald
apenas o que é della
me interessa
. . .
Nem um olhar
nem um beijo
vale mais que mil palavras
Nenhuma palavra
vale nada
Nem sempre dá
ou se quer sustentar
uma teoria da palavra
que o valha
. . .
A caligrafia da palavra
Amor
Para mim o fato do concretismo
ter construído sua teoria visual
em torno da letra impressa
deixar claro
que há mais de propaganda
que de poética
A língua —
para mim o corpo
Para o meu corpo
Para eu tatuar não o seu nome
mas a sua letra
na íris do meu olho
Por ser essa linha
uma extensão da sua mão
Para eu lhe estender a mão
. . .
A religião material da concretude também é uma forma de transcendência. Ela também busca religar-se com etc; ao que parece, a ligação com uma puta duma propagas do Washington Olivetto, méo. Não faço questão de uma poesia com experimentação de linguagem. Não tenho o último modelo do IPhone 15. Nasci em São Paulo, mas sei de extensões continentais e insulares. Ouvi falar de outras intenções, também. Para mim me basta uma poesia significativa, me basta se tiver significância.
. . .
Poesia pra mim é vingança
Lembrei de mim criança
lembrei da doceria Brigadeiro
onde eu sempre ia
comer tanto doce
Mas tanto comer doce
quanto ver as tartarugas
no laguinho
Eu ia mais pelas tartaruguinhas
Um dia
um tufão furibundo abateu-o etc
um menino partiu a tartaruguinha
o meu porquinho da índia etc
contra a pedra
Lembrando disso
eu não pude escolher eu
escrevi esse poema
Não em nome da tristeza que senti
eu me vingo
Eu me vingo pelo próprio conteúdo
da tristeza que senti
eu me vingo em nome da vida
da tartaruguinha
e contra Cláudio Daniel
quem?
que disse que a poesia brasileira
é de uma mnemania
muito gracinha muito
banderiana etc
(Beyoncé é legal
O que estraga são os fãs
Idem ibidem pros irmãos
Augusto e Haroldo de Campos)
— desculpa
quem é Azealia Banks?
. . .
A noite quente mais ventada
mais azul (que a noite quente
ventada mais escura é a noite
da Bahia) e as cigarras
do sul da França
Associações por som
dentre as quais a rima dá o tom
Lá o canto delas
(com uma brisa tão pesada
quanto a da Bahia)
e outras cenas mais
de mim criança
O quadro de H. Matisse
que minha irmã tatuou no braço
lui qui a une chappelle
à Saint Paul de Vence
A dança
. . .
Escrevi 100 vezes
no meu caderno
o nome de Ella Fitzgerald
à mão. A dama
inscreveu com a voz
sua voz no topo
da canção
. . .
All I've been hearing
is blues. But I ain't sad.
Everytime I dream
about something
this thing comes through.
My blues ain't blue.
. . .
Buscar
não a palavra poética
mas
a palavra não poética
Muito mais desafiador
Uma palavra que não crie
embora enquanto for palavra
talvez não seja possível
. . .
Artigos,
cantigas,
cartas
de horror,
canções de lista,
papéis, papers,
"Ainda é cedo"
"não vá embora",
"A oposição dialética",
todos esses sintagmas
manjados,
frases velhas,
fases duras da vida,
"Escuras flores puras",
"As rosas eram todas amarelas",
não importa o que seja,
a toda hora,
qualquer ideia,
em cada trecho que ando
tudo o que escuto e vejo
me lembra dela
. . .
Vamos pensar um pouco sobre sinestesia.
Todo sentido é sinestésico. A própria dobra do pensamento é essa: reunir em um único golpe sensações provenientes de sistemas distintos. Lembremos, são cinco: olfato, audição, paladar, visão e tato. Há sempre inflexões, sempre cedemos a cada vez mais para um dos lados do pentagono – do pentagrama? –, no entanto, lá estão sempre todos reunidos na formação do significado, aquilo que “faz sentido”.
O princípio que os reuniria é: serem todos passivos. Mas nos permitamos isolar dois deles e perguntar pelo seus órgãos: o paladar e o tato, a língua e a mão. Provisoriamente, apenas, aceitemos considerar o paladar passivo. A língua se engaja em outras duas atividades que seriam, então, propriamente ativas: o beijo e a fala. É com ela que o sentido do tato, por sua vez, encontra seu órgão da mão – dotado também de especial pendor comunicativo – sempre em particular cooperação. Não se come nem se cozinha sem usar as mãos, não se fala, não se lê, não se escreve sem as mãos; e, por favor, não venha me beijar sem pegar no meu pescoço.
Antes de Aristóteles ter estabelecido as bases para a nossa teoria com cinco, um filósofo atomista defendia a proeminência do tato como único verdadeiro sentido. Para Demócrito, todo o resto é também decorrência de um toque físico.
Isso é bonito. Mas não esqueçamos que a mão que toca e a língua que masca procuram seu objeto – como o fazem os olhos, o nariz, os ouvidos –, mas também dão novos objetos à luz, dividem-nos com o grupo. A mão e a língua criam para fora da ficção do indivíduo. Independentemente da revisão fenomenológica e a autoria criativa que se queira imputar aos olhos e aos ouvidos, sem a mobilização de outros órgãos, esses não poderiam se engajar em atividades comunicativas. Sim, que os olhos sejam tão dotados de ação quanto quiserem, a linguagem não existirá jamais se essa criação não for partilhada de uma pessoa a outras – por meio das mãos, por meio das bocas.
Criança, meu primeiro vício foi chupar o dedo. Não nos esqueçamos da solidariedade poética entre a língua e a mão. Pelo menos por enquanto, não¹.
. . .
¹ Em uma discussão, um idiota mandou duas mensagens a um menino que pretendia cabular aula: "você está sendo um idiota" e "no sentido grego da polis". Gostaria de acrescentar — a "solidariedade poética" — "no sentido grego da poiesis". Mas gostaria que não me considerassem por isso um idiota, no sentido brasileiro da idiotice.
David e Rodrigo me chamaram atenção sobre o papel prismático do paladar. A língua não só beija e fala, ela deglute. O que nos revela, em primeiro lugar, que: as palavras devem ter tanto gosto e textura como comidas e línguas alheias o têm. Em segundo lugar, parte importante do prazer em comer deve ser também uma atividade ativa. Não recebemos passivamente o sabor, mas o criamos, como as outras duas atividades, pelo trabalho da língua.
Se beijar e falar representam para nós distinções da cultura humana, não menos a língua se afasta da natureza quando nos alimenta, porque ela não o faz em nome da subsistência. Slam poetry, ceviche e french kiss são símbolos igualmente dispensáveis e necessários entre si.
. . .
para Elaine
Marilyn loved to buy
Tifannys, Cartiers and Gorhams.
Indeed I prefer her
who said
to prefer diamonds
but sat
in the first line of Mocambo
so as Ella could present
where she wasn't allowed to
at that time.
A lot of people say instead
they prefer people
than diamonds.
No,
but they don't do
what she silently did.
Yes,
I don't buy it.
. . .
O que veio antes:
o ovo ou a galinha?
A relação entre som e significado
é motivada pela poesia
ou pela motivação já existente
entre som e significado
é que se pode fazer poesia?
Venho frequentando bastante
as páginas do meu blog.
Acredito que sou
meu mais frequente leitor.
Acredito que o autor
que leio mais frequentemente
sou eu. Quem veio antes:
o ovo ou a galinha?
Estou tentando descobrir
um ritmo certo
para a medida de cada verso.
Se não fosse o som
a página seria um deserto.
"Nunca confundam causas e efeitos:
o problema do Brasil é a elite letrada
e não os analfabetos."
. . .
Na casa de Fernanda Maria Rosana
não sobra fresta em janela
Seu neto me contou há algum tempo
que é porque morre-se de brisa
segundo um provérbio italiano
contado pela velha
Hoje enquanto cruzava a rua
me cruzou um vento frio
Súbito me lembrei de Maria Bethânia
Pronto lhe imaginei cantando
vamos viver no Nordeste
Anarina
vamos morrer
de brisa
. . .
Quando enfim puderem comprovar que os signos não são de todo arbitrários, será importante medir a extensão que designa o som ma. Falo menos do significado também extenso de palavras como mar, mãe ou demais e mais da duração profunda de que se ocupou esse mês de março. E não consigo senão pensar no mês de maio.
Por que se tem raiva do tamanho de maio? Porque se tem pressa. E no entanto é preciso adiar a sua demora. Maio, quando não passa: só então traz suas grandes, largas, dilatadas mudanças, tão verdadeiras. Tão únicas de maio, tão próprias dele, tão somente para os que podem não vê-las: quando o tempo de maio vai junhando no ar de velas e balões rumo ao céu.
Sou levado a crer que têm ma as coisas em que entramos e, ao cabo de um extenso processo, saímos transformados; como o ar vibrando, que, pela boca fechada, sai do nariz até ser finalmente solto na qualidade aberta de um a. Sou ainda novo, mas, creio, quando puderem comprová-lo já estarei morto.
. . .
para Luiz e Moti
Certos tipos de mosquito
deixam apenas uma leve impressão
cinza na mão e na parede
quando são esmagados.
Não se encontram mais patas,
antenas, asas; me pergunto
para onde foi aquele corpo
que pareceu apenas pulverizar-se.
Nesses momentos, fico
com a leve impressão
de que tais tipos de mosquito
têm alma. E deixo de matá-los
até que surja outro da raça.
. . .
para o Chico
Não se pode confundir a história feita a contrapelo com uma história que só compreenda resistências. Há sempre os que cederam, que não resistiram. Me preocupo com o falseamento de quem conte apenas a história da coragem. Perderá a condição humana fundamental da covardia. Adriana Calcanhotto por exemplo construiu sua obra inteira entorno da ausência de brio. Você tem brio? Ou, tão mais simplesmente: talvez porque não haverá mais corajosos se não houver covardes.
. . .
A língua é só uma — a que fala, a que beija. Assim não sei o quão se diferem de fato o falar e o beijar. Um bom beijo nos fala assim como em uma boa conversa as línguas se encontram.
Quando beijamos, a língua se lembra do exercício da fala: essa que beija é a mesma que o dia todo com a linguagem trabalha; e por que na articulação da fala deixaria de haver uma lembrança do beijo? Falar é tentar beijar com palavras.
Falar faz sentido. Não preciso nem falar que beijar também faz sentido. Verdadeiramente acredito que qualquer órgão pensa tanto quanto o órgão cerebral. Minha língua pensa: falando, beijando, na sua forma intercomunicativa, particular e prazerosa de pensamento. Na sua linguagem.
Mas então o que tentamos dizer durante um beijo? Nada mais do que já dizemos.
. . .
O dia é
escuro
A noite é
clara
É: o
dia
a
noite
Por isso o dia denso
a noite fina
Como um dia
negro
que só a noite
ilumina
. . .
e pro Henrique
Que seja um eterno discord,
amigo, comigo concorde:
o som de uma call é um acorde.
. . .
Para Auerbach,
a literatura havia acabado.
Para mim —
com o perdão de ter justaposto
Auerbach e mim —,
peço licença:
a literatura acabou
de começar.
Não há mais tempo a perder.
Quando da publicação
do primeiro volume
da busca pelo tempo perdido,
era 70% a taxa de analfabetos
no país em que nasci e vivo.
. . .
Cansei dos descolados.
Tenho preferido os colados,
com calos, e os calados.
"Eu não gosto do bom gosto"
"Estou farto do lirismo comedido"
Vi um vídeo chamado de cringe.
Era uma menina feia
fazendo uma trend.
Não chamariam assim
uma menina bonita
com domínio da técnica:
aparentemente,
consideram aqueles
que se adequam bem à estupidez
mais inteligentes.
. . .
Chá de espinheira-santa
Um pouco de João Gilberto
— pode ser En México
É que o brujo é médico
. . .
Quando a gente
deixa a louça secando
depois de lavá-la,
ela fica com umas espécies
de manchinhas. Tenho tido
a sensação de insetos andando
pelo meu corpo. Tenho
tido brotoejas, acho
que de calor.
Às vezes meu celular para
de tocar música do nada.
A mola da porta
da minha geladeira
está meio gasta.
Ela não fica mais fechada.
. . .
O corpo não é apenas uma fonte de cognição; também ele está submetido a um mapeamento cognitivo. O nosso trato vocal só pode produzir os sons significativos da língua e, assim, organizar o mundo, uma vez que uma organização precedente lhe houver sujeitado — entre dental, labial e tal.
É aprendendo que se ensina. Mas não digo: é adquirindo que se fala. Não há aquisição possível, porque não há triunfo ou conquista.
Esse blog é meu diário investigativo. Pelo próprio princípio que me norteia a investigação tenho de reconhecê-lo.
O princípio: trazer à luz é encontrar uma pista.
. . .
Para Saussure, só tem sentido o que tem contraste. É como se ele dissesse: cresça e aparesça. Ou: quem não é visto não é lembrado. Mas não o imagino entrando num baile vestido de paetê. É como se, jakobsonianamente, eu o imaginasse com uma oposição mínima contrastiva, é como se ele surgisse na festa com um cravo aparecendo de leve para fora do bolso de seu terno, apenas entrevisto — ou entrelembrado? E eu sinto esse cravo opondo-se à falta mesma de um cravo no terno de outros convidados, crescendo.
. . .
Tudo que a escrita controla
a leitura descontrola
Não sei pensei isso agora
como se estivesse fora de moda
contra a letra haver revolta.
. . .
Henrique é um pré-adolescente de 11 anos. Tem aulas particulares comigo há algum tempo. Na aula da semana passada, escreveu um poema. Normativamente corrigi alguns fatos de português junto a ele, e, no mais, o poema está aqui como ele o fez:
Uma menina chegou em uma cidade.
Ela não sabia de nada.
Absolutamente nada.
Nem as coisas mais simples.
Essa menina chegou a um menino.
Ela perguntou: o que é um raio?
O menino respondeu que é um choque
que vem de uma chuva mais forte
chamada de “tempestade”.
Mas ela não sabia nem mesmo o que era chuva.
Era tudo tão estranho...
Ela se permitiu perguntar ao menino:
O que é chuva?
Gentilmente, o menino respondeu:
É um monte de nuvens que começam a soltar água
Do mesmo jeito que você solta lágrimas.
Henrique quis saber por que, quando eu li em voz alta, o poema pareceu ser tão melhor do que antes ele achava.
. . .
O verso não é a vida,
a vida se esconde,
ela está na quebra
de um verso, no verso
de uma página,
nas gavetas, não no livro
mas nas quinas de uma estante,
é o descanso dos olhos,
a cesura, a embocadura,
está no respiro, num suspiro,
ela não é tudo, não é
totalizante: da vida
a vida é apenas um instante.
. . .
Totô, eu ainda acredito que é possível conhecer
alguma coisa.
Não só possível como desejável.
Totô, o meu desejo me desloca
e meu lugar não me basta ainda.
Parte do meu interesse pelas coisas
me ensinou que os estoicos e os cínicos
tinham filosoficamente muito em comum.
Adjetivamente também o tem,
mesmo hoje em dia,
eu acho.
E não admito dizerem que
o pensamento nos afasta da vida real.
Não se o pensamento for vivo.
Não se ele for real.
Não vêm a conhecer outras ideias,
outras pessoas, chamem como quiser,
outras culturas?
Pensando o mundo um xamã faz chover.
Com isso aprendo tão mais sobre
a chuva: chego até a senti-la
diferente sobre o meu corpo.
Nunca foi preciso esquecer do corpo.
É uma questão para mim necessária:
se não pulso creio que estou morto.
. . .
Meu pai me diz
a gente não tem ideia
dos processos evolutivos
pelos quais estamos passando
enquanto humanos
agora neste momento
Eu respondo
a gente não tem ideia
das transformações no português
às quais damos origem
enquanto falamos
agora neste momento
Minha mãe
meninos não briguem
Mas não era uma briga
Minha irmã
a gente não tem ideia
de quando uma conversa
entre o Mimi e o papai
pode-se tornar uma briga
a qualquer momento
. . .
Tu,
Que enches tudo de alegria e juventude
E enxergas vultos numa noite à contraluz
E ouves o canto perfumado do azul,
Foge de mim!
Não te detenhas a olhar
Os ramos mortos do rosal
Que se desmancham sem dar flor,
Olha a paisagem do amor
Que é razão de se sonhar e amar...
Eu,
Que tive armas contra toda a maldade,
Tenho as mãos já tão cansadas de lutar
Que nem consigo te agarrar:
Pobre de mim!
Serei em tua vida o melhor,
Só uma névoa de outrora,
Quando estiver a me esquecer,
Como é melhor o verso agora
Que não se pode reviver...
. . .
Discordo frontalmente de José Miguel Wisnik. Não há o menor interesse em João Gilberto ter apresentado um compósito melódico etc para uma possível definição de Brasil enquanto qualquer substantivo abstrato. Meu Deus do céu e por que diabo falar em Brasil? João é necessário porque encanta nossas serpentes. Não é "civilizar" — oi? — nada, não.
Há quem diga fala em magia como quem lança mão de noções do tipo "mana". A quem o diga eu respondo: o signo excedente, noção mana, é sempre essa ideia enxertada de Brasil.
. . .
Escrevi quase cem poemas
em página de papel
em página de blog
Não há um que preste
Tenho muitos amigos
de carne e osso
Boto minha mão no fogo
por quase todos
. . .
Uma coisa que não faz nenhum sentido: dentre as coisas que li sobre o sentido, a que mais fez sentido estava em um manual de semântica formal feito instrumentalmente para cursos introdutórios de graduação.
A linha teórica – analítica, fregeana – não me agrada nada. Afirma que unicórnio não tem referência e ao escutarmos uma sentença o que buscamos é um critério para chegar ao seu valor de verdade. Mas, porque lá li o significado é o veículo que conecta a expressão com o referente, externo à linguagem, me fez pensar que o sentido é a experiência tida pelo sujeito ao encontrar-se com o mundo. Tanto mais se, por inversão, a ausência de sentido passa a ser o desencontro. De onde, em uma briga, reclamamos isso que você fez (ou que você disse) não faz nenhum sentido! Não nos encontra: nos afasta – do nosso próprio mundo.
É verdade que aquela do livro não foi a frase na vida que mais se fez sentida; o que responde já à verdade de outra palavra, sentir. No lugar dessa frase, poderia escolher, por exemplo, com a bênção do nosso Senhor, o sol nunca mais vai se pôr.
A conexão realizada pela rima faz sentido e faz sentir como faz pouca coisa no mundo. Estou começando a pensar no sentido como uma sensação de união, uma sinestesia, estou começando a pensar nos cinco sentidos.
. . .
Sigo a máxima hiperrealista
tudo de que falamos é real
Por irremediável realismo
uma vez que se fala em Deus
não negociamos a sua óbvia realidade
É implacável a nossa doutrina
e a de dragões inofensivamente reais
. . .
para a Alice
Eu sou uma senhora japonesa
Não digo fui uma senhora japonesa
como em vidas passadas
ou algo assim
Sem dúvidas não o escrevo
Não digo
não escrevo que me sinto
uma senhora japonesa
É uma auto-identificação
Eu sou
porque de tal maneira
me identifico com aquelas
com que cruzamos na rua
nós duas
que somos ambas
e isso para mim
é já uma forma de auto-identificação
A única crise existencial jaz
na fantasia de casar com uma outra de nós
mas bem mais nova
bem tão linda
sem saber se isso faz de mim predadora
além de sapatão
. . .
Não o que quer dizer
Nem "como quer dizer"
como diz Daniel Pennac
Mas por que quer dizer
Ou: por que dizer?
Ou: por que sempre falar
em Brasil, José Miguel Wisnik?
Não sou mais antológico
Voltei a ser polêmico
. . .
Versos que eu gostaria de ter escrito
Reverencio a tua beleza
Física também mas não só
Versos que eu gostaria de não ter escrito
Versos que eu gostaria de ter escrito
Mas me recuso a escrever um poema
com versos como
A cachoeira reverbera
As folhas farfalham
e já não sei mais
se o fiz?
Para não dar palanque
para louco crescer
como a gente faz?
Fala ou cala? Não escreve
nem descreve?
. . .
pois nada jamais é perdido
Claude Lévi-Strauss
Imagina
viver uma vida
sem a percerpção química
que do açúcar tem as formigas
Está aqui
Para mim
não foi na perda do narrador
o declínio da experiência
Para mim pode ter sido
nisso
nunca ter enlouquecido
com a quina melada
de uma mesa ao entrar na sala ou
antes
nunca ter ido em direção à sala
suspeitando do melado
já no quarto
Ou jamais também
Porque sinto que tenho várias experiências
E não falo de experiências
que o Grand Hotel oferece
aos turistas na Tailândia
Falo de amor
Que me importa se um autor
cunhou o amor?
E se outro declarou
a perda da experiência
tive experiências
envolvendo o que eu e outros
muito depois
entendemos por amor e raiva
E o ódio me foi formativo
E o riso
mais do que a aura
Me lêem mal?
Não há polêmica
Dentre os lugares que já visitei
o que mais me emocionou
foi o memorial a Walter Benjamin
em Portbou, Cataluña
. . .
Pistache é o novo ninho
com nutela. Há antologias
porque há sempre um novo
sabor, um novo autor,
uma moda, uma fase,
uma era — e por que escrever
um novo poema? A morte
é uma ave velha. Hoje
mesmo eu sonhei com ela.
Evidências arqueológicas na Turquia e na Síria mostram que o pistache já era consumido desde os anos 7000 a.C. Agora, caiu de vez no gosto dos brasileiros e tem feito bonito nas cozinhas e confeitarias.
. . .
22 de fevereiro de 2024
A partir de agora
considero tudo verso
A fala é verso
A falha é verso
A folha é verso
Eu sou quem toma tudo por verso
Eu penso logo everso:
Sentirei saudades do carnaval
Beijava o Antonio todo dia
Talvez seja mesmo o fim da poesia
tal como a conhecíamos
Ou enfim a retomada dela
tal como ela nascia
. . .
20 de fevereiro de 2024
Ano passado eu trabalhei
em fevereiro
e vejo pelos arquivos do blog
que não escrevi poesia
Março passado
escrevi ao todo três poemas
Eram bons
Agora
venho publicar meu segundo poema
só deste dia de hoje
Os dois uma merda
Quem trabalha não escreve
Vejo que preciso voltar a trabalhar
Não tenho prestado muito a escrever
Adília Lopes
teus últimos poemas também são meio ruins
Me diz se paraste de trabalhar
Até onde eu sei nunca começaste
. . .
é bom e fácil de fazer porque todo mundo tem mãe. Quase todo mundo ama a mãe. Isso aquece o coração e as vendas. E quem não ama a mãe fica triste se o assusto é esse. Ainda mais se a tristeza engaja, então é bom e fácil para vender livro de poesia. Mesmo quem não tem pai geralmente tem mãe. Mas eu tenho um amigo que não tem mãe. Ele ama a mãe mesmo assim. Também tenho um amigo que tem um pai muito mais legal que a mãe. Mesmo assim ele acha o contrário. Ele acha que a mãe é o máximo e o pai é o mínimo, sendo que não é nada disso. O avesso também tive: um amigo que a mãe era o máximo e o pai o mínimo, eles sim. Me punha até mais raiva, porque, quando eu tinha esse amigo, ele podia jurar de pé junto sobre a grandeza do pai, chato demais. E tive e tenho muitos amigos com os dois pais legais ou os dois chatos ou um mais legal que outro, só que tudo bem reconhecido no seu devido lugar. E muitos amigos sem pai. Quando criança não vi Rei Leão. Às vezes faço piadas edípicas sobre matar meu pai e casar com etc. Dessa vez não quis falar de nenhum dos dois.
. . .
Caetano e suas canções de lista
Os meus poemas de lista
ou de antologia
— se entre uma e outra
não sei onde faz a risca
O Império de Caetano Veloso
não é um império
Uma lista é paratática
Um império é hipotático
e toda beleza que for anárquica
. . .
9 de fevereiro de 2024
O pau é um ser que diz: pau.
A boceta é um ser que pergunta.
. . .
hoje. Quatro horas densas.
Quatro horas dentro
da água. Quatro horas submersas
em reminiscência da bolsa materna.
Expectativa de vida de 80 anos
e depois disso outra vida eterna
embaixo da terra.
. . .
Clara diz
que não gosta de seu nome
porque denota uma
como
espécie de
— enfim,
vocês entenderam.
Mas, Clara
meu bem,
você é mesmo tão clarinha…
Cidade Universitária, São Paulo
23 de junho de 2022
*
Clara,
você não é obtusa.
Tranquilamente posso-lhe responder
como já o fizeram
Claro, Clara.
Seus trabalhos,
se de cinco a oito,
tomam sempre cinco páginas,
e há uns dias você disse
gostaria de me livrar do meu poder de síntese.
Você é Clara
mais do que porque clarinha
e sobretudo essa claridade
dentre as que a nomearam
é que lhe cabe assumir
ou resplender, ou refletir.
Rio São Francisco, Pão de Açúcar, Alagoas
22 de janeiro de 2024
*
Outra Clara.
Não clarinha,
mas uma preta de pele Clara:
uma Clara parda;
uma chiara oscura;
ou, segundo seu pai: mulata.
Para mim é Clara
porque me acende e faz graça,
porque se me faz farta
a luz que irradia de seu corpo e me mata,
porque é do que preciso
e basta.
Praia do Félix, Ubatuba, São Paulo 1º de fevereiro de 2024
. . .