ausência de choque Confusão das categorias-mundo
entre ele e o mundo: indiferença da cisão-mundo,
O poema, diagnosticado dumenou poeminha, dominou
ausência de choque e saiu pela porta do fundo
. . .
ausência de choque Confusão das categorias-mundo
entre ele e o mundo: indiferença da cisão-mundo,
O poema, diagnosticado dumenou poeminha, dominou
ausência de choque e saiu pela porta do fundo
. . .
* prosa de circustância para Daniela Leite a Conselheira Amorosa
Ai, dor... quero a cenografia do acaso sobre a tragédia escrita; a chave insolúvel-dissolúvel para o diletantismo; a comédia homérica perdida (não a Penélope de urdidura a ódio-de-si em vigília por Odisseu); perder esquecer esquecer esquecer e dar — como eu dava — pra todos pretendentes: ai, prazer... sempre difícil distinguir.
. . .
Nesse verso oculto
prescrevi a Rede Globo
pra quem sabe um dia
conceber nomes
que soam remédios
como a comunhão
de novelas globais
. . .
Subiram com balões.
Surgiram com drones de alcance
mais alto, ao maior mar,
menos com a não mais precisa
mas necessária
máquina de aprofundar ao como se dá
o descanso dos siris:
se, na morada em que se escondem,
trocam afetos,
se é fria (aproximam), se é escura
— se sentiríamos ali a mesma
melancolia devida ao mar
que sentimos por cima da areia,
obrigados a escutá-lo
sem afinação.
Nunca um siri retorna pelo mesmo buraco em que entrou fugindo de nós
ela diz,
e nem vemos se por outro qualquer.
Acha que a areia é a quitina
triturada pelos pés;
e não sossega na canga
diante de uma demolição
como essa.
Não adiantam retroescavadeiras.
Arrancado todo o conteúdo da orla
os pegaríamos de surpresa,
desmantelaríamos a forma,
para ficar com uns dois
três inválidos sem escapar:
sem reter seu segredo.
Então com a voz marejada
ressurgem, eu sinto, já por debaixo d'água
e eu lamento
pelo egoísmo
pela teimosia pela inconsciência
e detesto o som permanente.
2.
3.
Sentir uma bolacha do mar com a ponta do pé,
perdê-la. Sentir outra no mar com a ponta do pé,
capturá-la. Examiná-la.
O seu peso na mão perguntar, pela gente,
pelo que fazer
(...)
o arremesso é exagerado;
a mira,
distante; e a despedida,
assim como toda despedida,
. . .
ilustração pelo Antonio Yudi
para USP Brema Dafa Vela
Como tocássemos um hit
clássico, quedávamos quietos,
quedos, crespos: Queve-
-do caía; e caiamos:
passamos a caçar-nos
(se os caçássemos
e tocássemos clássicos
que hemos de compor).
Ah mas velho amigo Brema
penso em vc também.
. . .

Era nas mais menores horas de amor, pendendo ao desencontro do momento, em que decretávamos estado absoluto de absurdo sobre um banco suspenso, e nos minutos, nos segundos prolongando-se a conduzir um pêndulo contra o mesmo vento, à espera do dia em que a energia desorganiza-se e o corpo, perdido, enfim, encosta — em todo o resto, nós — em cada enlace de cipós seculares a lembrá-los da separação que é inevitável e desconhecida, como aquele outro toque moldando-se para o passado: recriávamos termos querido entender tanto, o tanto carente de se inventar deixado por nem existir e a admitir sua limitação biográfica, biológica, pela vida ser pouca; se fosse muita, ainda haveria o que descobrir, senão no namoro, no absurdo em um banco, enquanto, penso ou suspenso sobre a aproximação em que hora, perguntava tempo, por que conta?
. . .
"Disco ainda cedo — mãe, é tão cedo —, porque tive um sonho premonitório. Caía e mergulhava raso no concreto fundo. Como quando a vida nos cresce de dentro para fora, tão inevitável e insuportável, ela revelou-se, de fora, no instante em que despertei. Parece que foi de agora — na notícia — a morte do menino com a cabeça molhada no concreto seco da calçada, da nossa casa, mãe: da nossa casa. Vazante assim do altíssimo andar em que se encontrava. Não, o sonho era consciente demais. Apenas no real fora do sonho cruzamos com a traição que pode ser inconsciente. Lembramos histórias, mas nos esquecemos, em um meio tempo de vida, do nascimento do mundo e que, desde um instante, se enxerta às coisas algumas palavras."
"Miguel — filho —, foi de repente na história do mundo que elas chegaram. As palavras surgiram numa caixa vazia e adesivada Sedex, de amarelo luzente linda a inscrição. Coagida por alguma intuição a assinar seu nome e confirmar o despachante, porque os patrões são de antes do mundo existir, a pessoa que a recebeu logo foi-se percebendo e percebendo o brilhante nas letras, se indignando com o estrangeirismo em Sedex e resolvendo com os seus que era melhor ser nacionalista para proteger a insipiente língua de descaracterizações. As palavras já eram reais demais, Miguel — filho —, assim um cônsul na região autodeclarou-se assim. Era preciso alguém reconhecer que a narrativa sucedida impediu o desenvolvimento autóctone da linguagem na tribo dos homens."
"Era preciso estar vivo, e eu morri, porque a inconsciência disparou da sacada e agora me faltam palavras: a nossa origem não basta."
Silêncio do outro lado da linha; não se ouvia exceto o choro da mulher. As culturas persistiam realizando todas as suas trocas os seus encantos, as suas transações econômicas e os casamentos. Casavam-se ainda algumas poucas pessoas apesar do sepultamento do amor. Algumas pedras amaram os cantos que cantaram as pedras, tinha feita em que esses dois casavam-se e encerravam para sempre o seu porvir em acordo. Havia ainda outras sortes de casamento e havia também jovens apaixonados que fodiam fudiam e sequer se casavam. Existiam também coisas que não pedras, como pontes, que passavam por debaixo de rios, e os rios todos do planeta entravam em comunhão para o engrandecimento dos mares, e as calotas polares. Aquela porção anímica ignorava tudo isso até o ponto do transbordamento de tudo.
"O Dilúvio, imagina? Mãe, naquele sangue do menino jorrando tudo era possível; assim como são notáveis as partículas que parecem constituir a elementaridade de toda matéria, mas que são impossíveis de serem organizadas retoricamente na explicação de por que vocês, mulheres, vão e se ferem."
. . .
O menino, devaneando com direção, pede
quase mas não um filme de superfície, isso é imagorragia.
Isso é, descarta a experiência formal
na qualidade de formação de impressões
e torna ao nada e torna embalagem
colunas de condições e anúncios virais
que alguém vê só porque busque encontrar
a casada carente e só, como ele,
ou um potencial epitáfio, para anotá-lo.
Epitáfios são apegos de puro desespero,
a gente morre e não pode mais tê-los
e a experiência ficou com os pombos,
com os plásticos, com as putas, os astros.
Sepultar é esperança dum juízo final—
que vem antes ou depois de
consolidarmos o fim do mundo?
Não, o diretor... o diretor pede, na forma
a invenção dos segredos de um meio atingido (mesmo em sendo da sociedade inimigo); como em todo conflito está também sua resolução; como, no sonho de algum moinho, um dia há de encerrar a moenda, no verdadeiro sentido da imagem que busque as formas de contar
e assim deixando de fazer cinema,
senão como experimento,
e enfim sai de cena.
ilustração pelo Antonio Yudi
Tudo que a ambição
desleixa e a pretensão
agarra — amarra
três tomates num saco
e bata: até virar batata.
Transfigure a fruta,
transgênico mata
(Melhor ter três
Tubérculos que ouvir
Vanessa da Mata).
Felipinho me beija?
Felipinho me bata!
Uma forma inteira
boa bem sonhada
é carne rolê comida
lá na minha casa.
Ó Matinha escura,
ritrovai-me: é chata;
poesia dura
com a aguinha acaba.
Eu não entendi nada —
eu não entendi nada!
do que a ambição desleixa
e a pretensão agarra.
. . .
de poliedros creio que ainda restarão
ângulos
e serão ainda operários
contem
se ainda são espectadores privilegiados
da imanência real contida no fato do juízo final
e os jovens
caminharão ainda dormentes
às aulas de intemperismo?
contem tudo
porque só há pretextos de agradecer
têm gratidão por tornarmo-no
literal
sistemático
o que quis
por banalizarmo-no
por ser banalizado
sobretudo
pelo estragarmos o som truncado de seus versos
decorrentes da frustração de ser mau cantor
e ele ouvira tanto a Bossa Nova
por mostrarmos a bancas de dementadores
determinando o que fica
o que vale
o que ensinam
que inspirados também são profanos
se assim operários desencantados
quiserem ou forem obrigados
que o vestígio da soberania dos grandes leitores
é decorrente de sua megalomania provocada
no janeiro de agora nessa paisagem com esses ministros
e os verbetes de sinônimos revelados nos históricos
foram consciência do pós-modernismo e integração
por termos aos doutrinados que
naquele poema
foi porque namorava uma atriz italiana
linda
e ela era tão linda
digam-lhes
que foi veado e mulherengo
que viveu a vida
admitindo verdades e buscando mentiras
tornem-no um impressionista
sim
provocador de impressionismos
mas não esqueçam
por favor
não esqueçam
da contradição fundamental
entre sonho de apagamento
e vigília de segredos guardados
modo de se considerar importante
por detrás. O prefixo ficciona um fim:
querer só o croc da maçã crocante
é tão feitiço e alienação
quanto muito apraz tê-la
tão crocante. Tudo coexiste:
toda frase é simultânea.
. . .
à hora rara
ora
não rato
passe por dentro do não
esgoto e nos negue
ai, ratinho, ratinho
nos nega, nega nega
. . .
Não pôde a lápide dessa efígie resumir matéria em epitáfios. Cumprirão a tarefa futuros vermes que esquecem de roer os nomes de alguns e vão criando tradição sobre duas letras certas de si, recém libertadas de tinta, massificadas e só prospecto duma relação fantasiada.
Em miloutros sentidos conforme o saber velado de que tudo revela e sente, se é ou não ficção, se compreende.
. . .
#3
Pois que o sinhor, sim o sinhor, o sinhor só levante a mão e dispare — Millenial! — acaso sentir-se muito seguro em não confessar o fracasso total de sua geração. Apenas não lhe acuso, que sinto exatamente isso sobre estes a que pertenço.
#4
Jornalismo dá tédio: para curar noites de indigestão, melhor ver o impedimento de Dilma Roussef, muito mais parecido com um filme triste. Disponível na plataforma que admiramos por nos fazer deitar de lado determinismos tecnológicos e reconhecer virtudes na rede, o filme fica terrivelmente trágico a partir das três horas, 43 minutos e 42 segundos, aliás, quando de fato começa. Insisto: jornalismo dá tédio, é literariamente que o documento deve ser visto apesar de não ser construção de nenhum gênio, chamando na ética e na política por uma inevitabilidade do que recentemente se descobriu ser a mentira do querer l'art pour l'art.
#5
De noite, a rua, vazia, e a jovem mascarada que se dirige a uma cúmplice e grita, ainda distante, para o ermo que as conecta:
– Estou mal, na medida do impossível.
uma parada:
um farol de luz a iluminar
e partir o som do m-
sentado
tece a rede
traça o real sem prumo
sentindo
o vento esquecendo o vento
vento vento vento vento
o vento através da travessia
. . .
. . .
#1
Todo ato que realizo é pensado e projetado para ser lembrado pelo esquecimento de mim. É a sucessão deixada pro aprendiz nenhum dos meus feitos vazios. Mas toda escolha nossa consegue ignorar qualquer ideia de passado e futuro e, à sua vez, propõe-se ser migalha e fermento da Vida sem que se entenda a glória do poder ser esquecido. Por consciência disso, amo aos vermes todos, sei que vencerão sobre mim: realizo todo ato com ponderação e inocência, pretendendo a segurança de lhes ser assim digno de apagamento.
#2
A escrita dessa carta é já um ato cruelmente fatual buscando atolado o que me é redundante, o que é redundante a quem lê e redundante ao homem mesmo, a crença na ideia de que crer agrega valor, de que basta escolher para viver a vida, sem ser necessário antes sabê-la.
pra quem tem pensamento forte, o impossível é só questão de opinião
e disso os loucos sabem, só os loucos sabem
É necessário expurgar, talvez não para todo sempre, senão momentaneamente, a expressão na medida do possível, é preciso que todos os homens e mulheres tomem consciência dessa estupidez da língua. A felicidade de hoje é sempre desigual da de ontem. Conhecem eles alguém em qualquer época que viveu algo na medida do impossível? O realizado, qualquer que seja, enquanto coisa real, foi sempre o possível.
Podemos compreender, diante da realidade distinta, por que se sinta a necessidade de explicitar esse horror, insistindo na redundância existencial de estar na medida... Nem por compreendida deve ser aceita essa farsa, quando poderíamos, em vez, dizer: estou mal por este mundo de merda ou estou bem e o mundo? anda uma merda. Sem o mas anda uma merda — mas é outro vício da língua, aqui odiado especialmente, porque mesmo eu o emprego tanto. Mas nada, tudo e. É fútil dizer há mais de um genocídio em curso mas ainda assim consegui encontrar felicidade; é que as chacinas acontecem, a gente se detesta por elas e alguns de nós são felizes, nem por isso mais ou menos indiferentes ao que ocorre. Se eu fosse feliz, diria há muitos que apanham fisicamente, isso me entristece e eu sinto felicidade: não em razão de surras, por uma outra.
Enquanto que a expressão na medida do possível é duma estupidez (pois que escolher falar está tudo bem, em vez de outra afirmação, é um ato que conta mais sobre a própria decisão do que se abre para a verificação do decidido), mas é de um moralismo absurdo — e o pior: não significando, assim, que se é mais engajado pra com o que se opõe sintaticamente.
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E lavei a louça e deitei com o vizinho e dormi sem tomar banho, porque era gasto de água à toa e gosto das sensações que pregam. Todos os dias foram isso, figurinha e Rubem Braga porque sou mecânica. E mais outras coisas já que sem perceber fico assim, como quem lê e quem está escrevendo: rasa, escura, tatuada. Na base de escola e bofetada, porque tudo se repete e porque não sou Rubem Braga, porque ele tem prestígio e eu tenho louça, vizinho e uma folha de papel.
Até que, vendo a exposição de um humorista, li exposto: cada dia me sinto mais mecânica. Se é para ser repetindo e aguentando e engolindo; se será de qualquer jeito, decidi. Comporei um grande álbum e virarei modelo também. Escurecendo debutei os recortes com a cara daquele Fernandes, porque naquela cara feia me surgiu algo de muito sisudo. Sim, me senti sensível. E se me sento a comer sensibilidade junto às empadas, não lavo as mãos. É preciso de estar lubrificada para receber as tatuagens: tudo é marca, tudo se sedimenta nas extremidades. Foi aí que o atrito do papel engordurado com a ponta dos dedos me deixou excitada. Quis procurar também um retrato do Presidente Washington Luiz. São imprevistos; à máquina, quando lhe dá um pane, às vezes me surgem. E foi que, não sei se a fitar o bigode espesso, se porque me cortava na folha de papel, quando vi – tinha parado, já não pensava mais no nome do nosso modelo.Busquei bem a compensatória: Rubem Braga haveria que caber no álbum. Mas a vida é muito pão, muito queijo e muito masca e cospe para álbum ficar dando modelo. Nas fotos se revelou apenas um pária, um padre, um padeiro. Não – é para isso que servem os grandes, glória sem glamour? Não, a mim, me basta ser larga: um canal tem dezoito centímetros, então principia o organismo. Ainda não conheci inteiro o professor, mas sei o tipo. Sei que não passa a noite no conjugado e nem dorme cabulando banho. Rubem Braga foi uma sentença.
O corretivo? Simples; foi, como foi. Amanhecendo, entrei no primeiro sebo que vi, pedi a revista mais antiga e, já na primeira página, estava lá estampado: Cuquita Carballo. Não a conheço, no google existe apenas como imagem. Recortei convicta. Se for para ter modelo, será rumbeira cubana. Só assim que me soo literária: suada, num corpo a corpo, anônima.
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Na bandeirância: relva, selva. Uma fonte secando, um conta-gotas, palpitações. O que fazer quando se nasce com uma natureza ruim? Um composto orgânico, quando os compostos tóxicos, minando por dentro, destroem toda a fauna e flora que habita sua natureza. A minha natureza. Com que fauna? Aquela ave que pousou em meu ombro, depois de alguns dias morta, a dissequei para ver o quão se putrefazia.
Está viva. Horrorizada, a ave foge como pode. Tripas partindo; no chão, tripas virando lagartas que crescem e queimam. Nunca dissequei uma. As aves, só quando vivas no meu ombro sem que eu as perceba. Foi pela assimilação de naturismos que aprendi a falar, e foi de você, lagarta. Com você, que me odeia. Se fossem todas como você, será que dissecaria as aves que foram a ponto de partirem tripas, e será que ainda assim me perdoariam enquanto me odeiam pelo assassínio? Quais as lagartas que também morrem em minha paisagem e em que dia o solo não foi tóxico?
— Terra.
Será que o sangue pulsando em mim tem sentido ou numa dissecação ele deverá fecundar para fora?
— Cinzas. É em razão da medicina que te declaram morto. Pela medicina, a imolação arde mais que o beijo da lagarta.
Mas para onde drenarão poluição e o que restará de fauna e flora numa natureza declamada extinta? Murcham de vez ou enfim desabrocham. Se notam, é porque as folhas caem em quintal alheio — se alguma ave sobrevoando houver de reparar. Quem me dera alguém lendo a carta sobre meu ecossistema. Aquela fonte não secaria em vão.
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