SAMBA DIFERENTE

 30/06/2023


Soar ou suar é questão de abertura

dos tratos vocais

mas de poros mais que de vogais

de fluidos


Ambos devém o interior em exterior

Comungam

comunicam


Suar e soar é questão de ritmo

e o ritmo é uma questão de corpo

e não cai na roda

quem tem perna bamba

e quem não tem balangandãs

não vai ao Bonfim

. . .

APELO A CONTRAPELO

24/06/2023

 

A Igreja de Santa Luzia tem saudades de ver o mar.

Façam um milagre:

tornem-lhe plena do ar do sal.

Ela já está cheia de arder ao sol.


Pensem na capela carioca.

Lembrem que a imagem dela tem sede

de refletir-se na praia que havia lá.


Intercedam pela Santa.

Cuidem dos seus olhos.

Vejam.

Não é tarde.

Não se enganem.

. . .

AS SAPEQUICES DO MENINO DOURADO

por Clara Prado

para o proprietário destes meios de expressão


Ninguém me para!

— Ele disse e depois parou.

O menino de ouro cansou

De gostar das mesmas entradas.


Ah, não me levem a mal!

Sapeca pepeca pecar,

Mesmo sujinho consigo brincar

(Brilhar?).

. . .

POEMA RETIRADO DE UM ENSAIO DE PAZ

 

Não a aranha que vejo,

mas essa que digo.

. . .

EXPLICAÇÃO


Há muitos poetas; há

poucos leitores; porque

há, antes, tantos assaltados

e tão poucos assaltantes.

. . .

"YES, I HAVE IT"

Ao editor


Tenho poemas.

Sim, tenho.

Tenho também profemas.

Eu tenho.

O sr. quer comprar

bananas?

. . .

PELO VISTO SIM

 

Não sei se o romance morreu.

Não quero saber.

Tenho raiva de quem sabe.

Nunca cogitamos velório.

Eu? Não. Viu? Obrigado.

Licença? Claro.

Por favor. Pode passar.

. . .

notas ao despertar de endoscopia


Alberto veio me procurar algum tempo depois de eu pedir papel e caneta. Eu queria conversar mas não era possível, pois só joga papo fora quem o tem de sobra. Aqui estão as enfermeiras todas muito ocupadas. Elaine era o nome da que primeiro falou comigo e já não sei quem ela é. Gostaria de ter-lhe dito que tenho uma prima chamada Elaine. E que a sedação foi tão boa que sedado o que sinto é muito bom. Ou, talvez: se na verdade é mais uma impressão, e na verdade o bom vem de depois do apagão estar vivo. Mas uma suave vida apagada na seda... de forma que tantos americanos se viciam em morfina. São efeitos parecidos?, não há a quem possa fazer a pergunta. Peço para conversar com as enfermeiras e pelo meu estado devem pensar que minha vontade de conversar é vã como o sedativo — e? Por isso não importa? Como têm mais o que fazer, pelo menos uma mais gentil atendeu ao meu pedido de papel e caneta. Vejo que a escrita é um arremedo da solidão quando espreita o medo. Mas endereçando-a. A mim? Não sei. Medo de quê? Não sei. Sei que ela potencialmente me revela o que agora só com o torpor nas mãos poderia registrar. E se a escrita revela-me, então a quem? Não sei. Ao menos logo chamarão minha mãe. O tempo suficiente para, de pouco em pouco, me desinteressar do por um instante divino suco de maçã; para deixar de — deixei. Mas o doutor (terá doutorado?) parece que sabe como é, segundo umas das enfermeiras; já o chamaram há tempo e não vem. Seu nome: alguma coisa com L, talvez Loreto. Só faço pensar naquela atriz bonita que não é a Camila Pitanga.

. . .

QUEM TIRA A PRIMEIRA PEDRA?


Nem

uma pedra no caminho

Ausência delas


Nenhum cenário

mais remotamente concebido

como iminência possível

de tropeços empecilhos base para barricadas

Ou atirar pedras porra

Não tem pedra no caminho


Caminho sem pedras

sem caminho

Aqui não há nada

. . .

(1) Poema com o qual acho que não concordo,
mas que talvez agrade o coração do poeta Régis Bonvicino.

RESPOSTA CORDIAL AO PINTOR ANTONIO YUDI

Poema retirado do meu comentário digital


Burro! Estronda como um esturro

O alarido estúpido do seu urro...

. . .

LINGUISMOS TERRIVELMENTE POÉTICOS

POEMAS TERRIVELMENTE LINGUÍSTICOS


O João perguntou quando a Maria vem;

o João perguntou: a Maria vem quando?

. . .

São Miguel à frente para me defender;

São Miguel atrás para me proteger;

São Miguel à direita e à esquerda para me acompanhar;

São Miguel acima para me iluminar;

São Miguel abaixo para me sustentar;

É como se eu tivesse

Toda a força de uma prece a me rodear.

. . .

DE TERCEIRO GRAU


fortes rimas toantes fracas

mortes corpos mortos

jogados em meio à praia


ritmos breves longos idem

mais curtos versóbrios

por assassínios se imprimem


de cinco a sete facadas

alternadas logo

em redondilhas sublimes

. . .


Percebi que me iludi com um fato inexistente: o sabor da língua. Ah, isso só se faz a ingrediente. Não há como temperar um frango sem frango. Não sei mais contar histórias, porque você não me trouxe um frango, porque eu nunca criei galinhas.

. . .

em sampaulo

Apreenda depressa a chama arte de realidade.

A MÁRIO DE ANDRADE

13.4.23

pelo prazer da língua

pelo saber da língua

pelo sabor que a língua me dá

Ou a outros homens

que beijem e falem como você

sem que eu sequer

tenha que provar para dizer

. . .

SEGUNDOS LÍRICOS NA VIDA DE UM BILIONÁRIO

 

Está feito. Os troços coisados

em negócios. Muito despojo.

Tudo destroços. Necrotreco

de sentido, e no som

ainda rima interna

com ossos.

. . .

POENTE ANTIGO NO BAR DOS AMIGOS


Então aqui vem se acabar

a Rua Cayowaá.

Então é aqui?

Pra mim você era

mais moça. Pra mim

você: era.

Eu te imaginava mais

pomposa e lembrava também

daquele condomínio

na sua primeira quadra

quase dando no metrô,

onde morava a colega de sala.

De repente me lembro

do endereço: 2046; grande,

de crepúsculo e não de aurora.

Nunca pesei que o sol poderia ter nascido

deste outro lado e de caminho cruzado

só então me encontrar.

Nunca cogitei que não trouxesse

eu o sol,

ou que ele nascesse distante

dos meus olhos. Mas ele

se põe. E antes mesmo ele nasce.

E isto aqui é o antes

que eu não via.

Não acaba aqui a Rua Cayowaá.

Agora eu vejo.

Depois de tudo, enfim,

chega a hora do começo.

. . .

EPÍGRAFE PARA HANNAH ARENDT


O mundo está decididamente encantado

É a graça

é fugaz

logo passa

Mas agora o mundo de plástico me abraça (1)


Esta ampliação da esfera privada, o encantamento, por assim dizer, de todo um povo, não a torna pública, não constitui uma esfera pública, mas, ao contrário, significa apenas que a esfera pública refluiu quase que inteiramente, de modo que, em toda parte, a grandeza cedeu lugar ao encanto; pois embora a esfera privada possa ser grande, não pode ser encantadora precisamente porque é irrelevante.


(1) E isso também é real embora não agrade ao poeta Régis Bonvicino.

(N. E. - Nota do Epigrafista)

. . .

CINCO FATOS QUE VOCÊ NÃO SONHAVA SOBRE O PESADELO


Aquele dia você tombou

tonta, se apoiava

num não vi ao certo —

fazia escuro. Desde aquela noite

em que você,

depois de se levantar,

caiu de novo,

seis anjos me carregam,

sete demônios me dão de comer,

e meu único anjo da guarda

me sentou na única cadeira

como consolo.

Partimos sapatinho de cristal.

Não bastou.

Queimamos brinco de ouro.

Não passou.

Permaneço hoje sentado,

mas oito espíritos da floresta me conduzem,

nove passos à frente, eles vão,

desbastando as árvores,

cuidando para que eu não veja

o vento abater nenhuma folha;

e nunca outra queda

me lembre de que você bebeu de novo.

Desde então, dez vetustas

me jogam na cara sua ordem de vínculo

e pouco nível de compromisso;

onze bailarinas fazem da minha vida

um circo.

. . .

OUTRO PROFEMA


Tanta gente diz feia palavra

Ninguém disse a mais fina

A palavra se esconde

onde?

é o que a gente não atina


Estou tentando descobrir o ritmo

encadeado do meu pensamento

e ele não existe

tenho descoberto

Mas não penso em prosa

isso é certo

. . .

EPÍSTOLA AO SÉC. XXX

 

Uma brincadeira: futebol de botão.

Uma dança: dança de salão.

Um livro que não li: Lamentações,

Daniel, Esdras.

Uma conquista: não as tenho.

Uma derrota: Graças a Deus,

poucas tenho. Não estou morto ainda;

se bem que tampouco tentaram-me

matar; se bem que hoje me sinta atento.

Fui um menino atentado,

pelo que me lembram.

Por proteção,

escolho a Oração de S. Miguel Arcanjo,

entre todas (este nome,

recorde de batismo em 2022,

minha mãe me pôs,

duas décadas atrás; e logo

com tanto Miguel

me vejo comungando de tão mais).

De vários jargões religiosos

caros ao léxico da crítica:

me bastam tais versos. Recuso,

obstante, a pecha confessionais.

Como, se a quem?

Qual frei? Cuja paróquia?

. . .

DEUS É UM FILTRO?


A luz se fez no caleidoscópio multicolor,

multicordicarnal, em tantas cardinalidades.

Soçobramos. Portanto só sobra a dúvida —

. . .

REAL DIALÉTICA ENTRE UNIVERSAL E PARTICULAR


Vou expô-la. Meu cachorro é tão profundo que leria Montaigne, mas se condensa em centímetros. As coisas são o que são: meu cachorro é de apartamento, diz-se de madame. O meu cachorro é melancólico. Não sei se porque viria da Sibéria e vive assim na Vila Jataí. Assim, seu topônimo indígena e estatuto alienígena: Apso, Lhasa.

. . .

FANTASIOGORIA


Preciso da porta ranger

inconteste, inconstante.

Tenho amor ao vento.

Não me ranjo os dentes.

Nunca fugi aos medos

no instante, nem um instante.

. . .

Algo em mim pulsa por uma reverência, canta

    Carlos, obrigado
    Carlos, muito obrigado...

algo assim em mim continua; eu — já não me assustando mais. E ele — pop. Porque, a mim — que o amei, então descobri a falsidade ideológica da instituição poesia e daí o detestei junto dos defensores da literatura, tão dissimulados —, me fez tornar a amá-lo. E ainda o fez com jeitinho, sabe, essa autoridade anarquista lá do interior das Gerais... Mais ainda porque obriga tudo a acabar, dizendo: acaba, vai acabar, já tá pra. No seu jeito de mostrar que verso não é menos perfomance linguística, e o sublime é ato tão ilocucionário quanto o panfleto, a publicidade. Licença, se falo em tecniquês é porque às vezes se é tecnicolor. Porque a gente não abre mão de tudo não; e eu — que não abro mais de Drummond, que tudo mais foi pro inferno.

. . .

GLORIFICAÇÃO (2022)


No verse is free disse o poeta Eliot

em sua suma autoridade


Some may be

disse o poeta Pássaro do Desejo

e a santa que em nome de

Todas-as-Águas

Quase-Paradas

rebentou os diques do brejo


não mais

Rainha-Vitória gorda-

              mente estendida sobre a face

                                                      do lago


Nunca mais

autoridade pro-

                                      funda

Para sempre

alagado     em      todo     lado

Para sempre: pô-ças


Ilhas                       

                    — para sempre

. . .

PARTO PORQUE ESTOU DE SAÍDA


Tiro, do que me  a roupa ,

o que a guarda — da chuva ,

e o abro, como uma membr

-Ana

postiça, dele eu sempre esquecido.


Positivamente, um caso da lepra

 diz o doutor mas a doutora diz —

caso um do bilical,

pulsão de retorno ao líquido:

amniótico.


Pela sensação de água,

com sua como ternura,

semelhar má

terna aos pingos da esfera ex:


anamnese.

É o que entanto não se vê.

. . .

PESSOAL


Chovo todos os dias pelas manhãs em que dizem chove muito na capitalPor isso prefiro a forma chover intempestuositivamente à capital. Inexistir-me sujeito. Desistir de mim, sujeito presente oculto, se inexistente real: um, dois, três vezes singular. O que deixa-me água: infinitiva, sobrecéfala...

. . .

MEDITAÇÕES SOBRE A SENHORA


I.

Demonstrar,

isto é etimologicamente

monstrengar ao externo

 — da partícula latina de —,

a feminilidade ontológica fundamental

é simples. Demonstremos:

a) pente — masculino

b) adicionar a ele

o ele apenas

na definição substantiva,

essencial ser,

restringido a apenas

em produtos alquímicos

desvelar-se

em si c) serpente

(revelada).


II.

Para saber que na Bíblia

o homem se fez da mulher

é preciso colher o fruto à contrapelo.

Se a rosa é da roseira;

o limão, do limoeiro;

a figueira dá de si o 

— um figo.


Arqueologicamente,

é essa a árvore do conhecimento

e o trabalho uma vez que a ser pente.


III.

Como o que havia do nu naquela mulher nua

não era, não é e não pode ser homem.

Não falseio falaceio.

A masculinidade é,

definitivamente

não apenas por definição,

uma palavra mulher.

Da língua, enfim me reforça,

entre as suas, a mais verdadeira

palavra mãe¹.


¹Como a aparente neutralidade

das palavras estéril, virgem e fértil,

que tomaremos em futuros versos.

. . .

VISÃO DO ESPAÇO


Ele se afastava de mim:

era devagaroso,

sempre um tanto.

Mas quando rompeu mesmo,

e nada mais unia

(antes, era  devagar),

aí, foi  de repente.

Ali, num só,

num espaço vazio minha vida:

atômica, vidida.

. . .

um sonho*


Lá vai o bom japonês pelo campo de arroz

É certo que em hora certa

É certo que vindo do norte

Mas terrivelmente doce

— esta a sua importância —

no país dos doces de feijão


país de um envelhecimento sem açúcar

sem diabetes

O bom envelhecimento saudável

No país do respeito

O país do costume


Vai

como todo bom japonês

e ama o nome que os pais lhe puseram

ama o sobrenome que

pelo país lhe deram

Honra ajuda lavra

pelos outros

como lhe disseram

*Versos circunstanciais para Yudi Pontual de Petrolina Ikeda, que gosta razoável de seu nome e por isso pede um poema de preocupações étmicas.

. . .

DE CONTAS


Ana multiforme

me engole

eu bola de pelo

quando cabeleira gata

ou bruxa de um ser

penteado mais suas asas de

não sei não lufam ar quente ar

dente no nome que devia

de ser Jorge no fim quedando

Miguel para eu cair de tesão

por ela mas ela

não se pega se ela se

esfuma da coisa do Um

e se é dois a onda igual espuma

pois não tem divisão

nem multiplica o que

uma professora esconde dos alunos

a Ana demora e demole

mas sempre Amor permanece

feito cobra comendo o próprio rabo

como essa minha cobra

come seu rabo lindo

de Anacon

tínua

. . .

AS MENINAS NA GARE

por Chico Mieli

Com minha participação singela. Pelos cálculos, os quatro versos que propus, de 33, dão 12,12% da canção; em termos de royalties, conto que, se chegarmos a 20 milhões de reproduções na rede sueca, poderei comprar um Guaraná Antártica Zero.


As meninas na gare,

As meninas já vão embarcar.

Três poemas criando

Um só plano, um destino a selar:

“Qual futuro alcancei?

“Quantas vozes eu sou?”

“Cravei trilhos, vagões...”

“Fundei guias no olhar...”


São amigas, irmãs.

São amantes, suponho que são.

Três atrizes do sul:

Fio da trama a bordar a canção

De meninas do cais, 

Das mulheres na nau,

Dessas pedras rolando

E virando areal.

 

Três meninas na margem —

As meninas mulheres no mar

Refletidas estão,

E se vão estrelas acolá.

Marés altas de sal,

Correntezas de amor,

Acrobatas do chão:

Três Marias no ar.


As meninas celebram, cirandam 

No sobrado, na gare, na estação.

Construída entre conversas e sonhos,

Pavimento de estreias sem temor

Que revela o convés inesperado.

Três meninas na gare, em sobressalto,

Já suspeitam do fato mais secreto

Que, ao fado de um futuro destinado,

O porvir que as espera vai com elas.

. . .