O que eu carecia destravar enfim era a escrita. Curiosa reaparição aos que me vêem. Pois, descrevo aqui o salto que recém contemplaram para que tenham também o deleite de submeter sua arte a um escrutínio: por ter passado os últimos meses a falar incessantemente com vocês, e sobretudo a escrever incessantemente a vocês – no gênero em que descobri minha verdadeira vocação, o das mensagens de WhatsApp, mas que para nossa tristeza não têm ainda uma reunião canônica concebível a partir dos meios de documental e editorial que por enquanto fizemos disponíveis e imagináveis para nós – ora, foi por todo esse diálogo incessante estabelecido com vocês que passei a escrever menos neste gênero, atividade solitária que portanto é como uma conversa tida comigo, mas cujo eco (e a pedância deliciosa de usar a palavra “cujo”, algo como o afago calorosamente perverso de se ter a porta aberta por um porteiro, ou, se preferirmos escrever com distância desse prazer perverso, de um porteiro lhe abrir a porta – e ainda a espera pela revelação futura de saber se, como a sintaxe lusitana não se faz charmosa sem certa perversidade, a ternura que sentimos por Portugal e sua luz também não é um pouco maldosa), por favor, não se percam, pois vinha dizendo justamente dessas palavras cujo eco não pode deixar de ser ouvido senão por vocês. Mas talvez o ponto seja então este de descobrir que preciso passar mais por mim para chegar a vocês. Que careço dessas brigas comigo porque senão é com vocês que brigo. Como escrevo este texto? Após dar alguns tragos numa maconha e sentir um bocadinho de medo da loucura. Preciso ser arremessado para uma cela em mim na qual me sinta condenado para finalmente estar em mim de alguma forma. Porém, da mesma maneira como então me coube de porta de entrada, posso me servir dessa cela como porta de saída e dela passear por outros ambientes. Sim porque gostar de me entender como um novelo de tensões que por muitos outros novelos se estendem não exorciza, ou não precisa exorcizar, uma imagem de mim como paisagem. (Permitam-me a imersão por um nome pela última vez: reclamei com Chico no carro por ele dizer que “também queria ser deleuziano” e pedir para concordamos que caso ele tivesse ficado cinco minutos a menos e não a mais na barriga da mãe é que ele seria uma mulher trans, porque ele gostaria como nós de estar também além e não aquém do que lhe é próximo; sendo que, disse a Manu, no caso dele apenas faz mais sentido pensar assim mesmo, cinco minutos a mais, e, disse eu, essa brincadeira não tem nada a ver com Deleuze e, ainda que tivesse, deleuziano seria todo o movimento de raciocínio e não apenas a parte que designa um pedaço da coisa; mas, de qualquer forma, “eis que” agora me oriento pela mesma histeria de ser mais realista que o rei. A princípio deixar de me pensar como paisagem, ou sentir que recusaria esse campo por uma vontade difusa de se aproximar de um pensamento, para então assistir a um recorte de vídeo compartilhado no Instagram em que Deleuze fala, que ironia, sobre cada um de nós como paisagens. Talvez dizendo enfim de forma deleuziana, atravesso por uma última vez seu nome para poder se despedir dele, assim como a cela por onde eu entro em mim. Adeus). O novelo não exorciza a paisagem porque o que é referenciado pela paisagem não corresponde à moldura posterior que a define, os significados continuam os referentes e os transformam, mas os referentes não estão nem aí, eles transam tudo, eles são de boa. Assim o que muda do novelo para a paisagem é apenas o foco de observação: para contemplar um novelo é preciso um olhar mais amplo, porque os fios que compõem um novelo continuam para muitos lados enquanto na paisagem tudo já está enquadrado. A escala de uma paisagem é bem menor, nunca vai tão longe quanto um novelo, e isso não a condena, de maneira nenhuma, pois é com essa restrição que conseguimos conhecer fauna e flora que só nesses prados se revelam. Da minha cela então passar a elas. Antes eu havia fugido da cela e, quanta ingenuidade, por isso mesmo era acompanhado por sua sombra. No lugar, prefiro agora pedir licença, sair sem muita algazarra para que tênues possamos nos esquecer, para que distraídos um do outro possamos sonhar com outros outros. (O que parece ser, do lado oposto, o motivo pelo qual fazemos tanta algazarra diante de uma separação. O medo de esquecer e o pavor covarde de ser esquecido nos impelem, juntos, à produção de um ruído sem fim algum, mas que não pode deixar de soar.) “Prefira a sua paz”. Prefira os silêncios, as músicas e até mesmo certos ruídos – consoante é ruído, não se faz uma língua só com harmônicos vocálicos, não vamos esquecer –, mas escolha-os. Escolha melhor pelo menos: algo que te embale, te envolva, com os quais a gente percorra nossas trilhas por aqui e dê muitas voltas. E, assim mesmo como sentia que a palavra “paisagem” me soasse indesejável, ao escutar de meu orientador que eu precisava reconhecer “o que eu sou” tive que admitir certo sentido a essa ideia a princípio tosca para mim de algo que se “é”, pois se as ideias têm sua origem, como toda significação, na metáfora – se a insistência na literalidade no fundo nada mais é que uma manifestação pelo dever de se levar a sério o que os agrupamentos realizados pelas analogias dizem sobre as próprias coisas, isto é, a atitude de se apostar na metafóra –, e se uma metáfora realiza uma tradução entre propriedades partilhadas, é preciso que eu seja capaz de traduzir essa ideia para compreender o que ela significa na minha língua. A Gab tinha razão, a questão sempre foi a de se recusar a fazer concessões vocabulares. Como ela mesma disse sobre outro aspecto, andamos muito de janeiro para cá, não estamos no mesmo lugar. Pelo contrário, tanto mudamos que nos permitimos voltar à nossa cela e passar dela ao corredor, cruzar o pátio, chegar no jardim e por meio dele conquistar a rua. “Devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno (...) quero o terreno”. Por que sinto como se apreendesse nesse instante a sensação que sentia Clarice ao escrever? Certo pela maconha mas não só. Se quando sóbrio me vejo lidando com etnologia e desejo o posto de Viveiros de Castro Segundo. Por quê? Se sonhar é lindo mas desde que com outros horizontes. O Pedro dizia: quem disse que isso te diz respeito? Há muito mais que fazer com os índios. “A expectativa é a morte da imaginação”. Se preciso renunciar a algo, é à expectiva (se, se, se). Pensei que para tanto precisaria viver fora de mim. Mas nessa ortodoxia da abertura – mais uma das que venho trilhando como um Orfeu inverso, certo de que Eurídice vem quando mais ninguém lhe acompanha – não considerei que a abertura é uma via que exige o interno. E o interno por sua vez carece dos buracos, das cavidades. Um buraco não precisa ser uma falta, ele pode ser uma toca e é, sempre, uma abertura, é o que nos aprofunda. Tampouco um buraco precisa ser de dor, em sua verdade geológica o buraco sequer é fruto do que se perdeu: não havia nada antes que preenchesse uma caverna, foram as coisas que se afastaram para que elas surgissem. Uma caverna é o registro de uma criação, o efeito do que se produziu sobre a própria caverna. Ninguém nos subtrai algo para que sejamos repletos de buracos: um buraco é o começo. Agora posso, enfim, me ter – e posso meter, posso me ter sem dúvida porque posso meter, e porque, depois de conquistar o sexo e tê-la abandonado, posso voltar à escrita. Nem acho que a competição seja tão injusta. Já disse em outros textos como beijar e falar são desdobramento diferentes de uma mesma coisa que fazemos com a língua. Pelo visto o caso da escrita e do sexo não é tão distante: escrever é uma forma de me ter (de meter). Nas cavidades e em todos esses buraquinhos quentes e escuros em que a gente deseja entrar. E por uma pequena dose do que é a loucura no meu léxico: certo fechamento. Às vezes é preciso de certa clausura, precisamos encostar a porta para criar um ambiente agradável, às vezes escancararmos a porta permite que uma ventania venha, bata a porta, o trinco cai e aí sim é que ficamos totalmente fechados pelo lado de dentro, e de vez. Até que venha alguém de fora. Então é preciso certo controle sobre os trânsitos, as trocas, as traduções, não para reduzi-los, mas, pelo contrário, para garantir a sua propagação. Miguel, você precisa ser mais cuidadoso com o que diz para mim. É verdade. Vê como fui cuidadoso com as palavras deste texto? Mas você estava tão bem bem — tem certeza que quer voltar aos textos e à loucura? “A questão é de qual forma de loucura que se está falando”. Jamais se volta ao mesmo lugar, jamais se banha etc. É porque estou tão bem que é desejável movimentar-se no sentido da volta, ainda que voltar seja impossível. “Se eu estivesse fraco”. “Amigo, se a gente não está bem não sei quem está, eu não vejo ninguém melhor que a gente, falando sério, se a gente não está bem o resto está no fundo do poço”. Recuperar, uma palavra melhor que o significado, o sentido – recuperar os sentidos – e decidir por meio dele (e deles) explorar o campo da etnologia. Não pela expectativa: pela imaginação. “Estudar conforme o sentido”, procurar a trilha do sentido porque seu mapa é tão vasto quanto o que existe e o quão longe vão as relações, carece só de um pouco de fôlego e truques para levar ao que buscamos. Aprenda os atalhos mas não busque se profissionalizar neles, são eles que devem servir a você e não o contrário. Não se esqueça da sua vocação para os mapas e para as viagens. Era tudo o que eu gostaria de dizer a mim por meio de vocês, ou a vocês por meio de mim. Ou melhor: que eu digo, em outra plataforma. Logo o receberão. Por ora é comigo que se demora.
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